A ÁRVORE DO CONHECIMENTO:

By Acervo Filosófico

Por: João Felipe Arruda

A filosofia surgiu com o propósito de explicar o mundo de forma racional. Para isso, tentou construir uma explicação descartando todo discurso mitológico acerca da origem do mundo. Mas nesse ponto, manifestou-se um problema: a realidade não se deixa limitar pela linguagem racional.

Nesta imagem, estão presentes algumas das principais figuras da mitologia grega, cujas explicações acerca do mundo, antecederam as que foram propostas pela filosofia .

O nascimento da filosofia aconteceu em uma cultura que se encontrava dividida em basicamente três pilares: os poemas, as religiões, e as condições sociopolíticas. Os poemas, com Homero e Hesíodo, começaram a penetrar nos gregos o gosto pela harmonia, pela justa medida, e, ainda que de maneira fantástico-poética, forneciam explicações sobre o mundo, remontando às suas causas. A poesia era a base da educação grega antes do surgimento da filosofia, e os poetas líricos eram a memória viva da tradição grega, que louvava figuras de heróis, titãs e deuses. Entre os principais poemas líricos gregos, a cosmogonia de Hesíodo, já com uma reflexão acerca do valor cognitivo do mito e também de sua verdade ou falsidade, abriu caminho para a posterior cosmologia dos filósofos que, de um modo ou de outro, se esforçaram o bastante para fazê-la em princípios racionais. A religião, por não haver dogmas fixados, deu aos primeiros filósofos ampla liberdade de expressão, com poucas exceções. Os gregos, pela primeira vez na história, conseguiram construir instituições políticas livres, o que, diferente do homem oriental, e junto com a religião, lhes deu uma liberdade de expressão que, até então, não havia igual.

Os primeiros sinais vitais da filosofia ocorreram em uma das colônias gregas da Jônia, em Mileto. No século VII a.C., sob a ditadura de Trasibulo, a indústria e o comércio chegaram ao zênite e a progressiva riqueza em Mileto floresceu em literatura, filosofia e arte. Nas encruzilhadas do comércio fez-se o ponto de reunião das ideias, o campo de atrito de costumes e crenças rivais. Surge aí, no final do século VII a.C. e na primeira metade do século VI a.C., Talles de Mileto, considerado o primeiro filósofo do mundo ocidental, que estreou a Physiologia, o estudo da Phisys, isto é, da natureza. Para explicar a natureza, ele empenhou-se em encontrar um princípio (arché), uma origem de todas as coisas, mas para tal tarefa, o pensador recorreu aos recursos racionais. Para Talles, a origem de todas as coisas era a água; para o seu discípulo Anaximandro, o ar; para o discípulo de Anaximandro, o indeterminado; e assim, abriu-se a porta para a investigação do universo, e tal qual o seu tamanho, grande também foram as divergências entre os primeiros filósofos.

Com o florescer da racionalidade científica, nasceu como fruto a oposição entre mythos e logos, que até então não existia. Quem, dos primeiros filósofos, se destacou com suas críticas explícitas à concepção mítica é Xenófanes de Cólofon. Outros, como Parmênides que legou dos mitos a escrita em versos, ainda tinham resquícios da mitologia grega que, como foi a base da educação por muito tempo, não haveria de esgotar-se tão bruscamente. Um dos gigantes da filosofia grega, que foi Platão, concretizou, mais que ninguém antes dele, esse casamento do mythos e logos. É impossível não notar que, mesmo com sua preocupação primeira de dar à busca da verdade um rigor de demonstração e de linguagem ainda desconhecido pelos seus precedentes, nos diálogos, que foi o modo que o pensador grego escolheu para expor suas doutrinas, Platão deu asas à nossa imaginação com inúmeros mitos – por exemplo: o famoso mito da caverna. Mesmo colocando a ficção poética ao lado da opinião incerta e suspeita, e com suas críticas enquanto a superficialidade moral ou cognoscível dos mitos, Platão quis colocá-la ao serviço da filosofia, reformando-a e fazendo dar luz, por meio de imagem ou símbolo, a certas investigações na qual se esgotaram as forças da dialética, sugerindo o provável, expondo o verossímil. À essa tarefa o mito cumpre bem e Platão foi feliz em o utilizar em seus diálogos.

Não há como negar que a base do pensamento filosófico foram os poemas. A árvore do conhecimento no tempo do mito ainda germinava no solo do espírito humano. Aos poucos foi crescendo e com Homero e Hesíodo brotaram as primeiras folhas, em que a realidade sendo podada e lapidada, até que em seu apogeu deu como fruto a filosofia grega

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