A EDUCAÇÃO NA IDADE MÉDIA:

By Acervo Filosófico

Por: Celso Cristiano Pinto e Juliana Vannucchi

Relatar fatos da idade média requer cuidados com as observações, pois ela é tão extensa e difícil de caracterizar que há o risco de simplificá-la a apenas um tempo de períodos iguais. A idade média abrange mil anos de história, da queda do Império Romano (476) à tomada de Constantinopla pelos turcos (1453). É bastante comum entendermos essa época como apenas uma obscuridade ou estagnação cultural, já que ficou conhecida como “idade das trevas” ou “a grande noite de mil anos”. Tal imagem tradicional da idade média foi difundida pelos humanistas e retomada pelos iluministas, embasada apenas em dizer que foi um tempo de regressão da civilização para um modo de vida arcaico. Contudo, estes tipos de ideia sufocam expressões culturais ocorridas que, por muitas vezes, se mostraram muito heterogêneas, tornando difícil dizer apenas que foram “pensamentos medievais”.

Após a queda do Império Romano, a igreja se tornou o palco fixo por qual se moveu toda a história da idade média, e onde também se deram os primeiros ensaios daquilo que temos como educação na contemporaneidade.

ESCOLÁSTICA:

Durante o período medieval, o processo de ensino nas universidades recebeu o nome de Escolástica. Esse procedimento educacional visava equilibrar a fé cristã com o racionalismo (base do pensamento filosófico). Ou seja, procurava conciliar o divino com a filosofia, a fim de melhor justificar a crença, converter os não crentes e combater os infiéis. Assim, Deus era o fundamento da atitude pedagógica. Essa corrente perdeu seu papel de destaque durante o século XVII, com o surgimento da filosofia moderna.

 EDUCAÇÃO NA ALTA IDADE MÉDIA:

A pedagogia típica das escolas romanas foi logo substituída pelas escolas cristãs, criadas ao lado de mosteiros e catedrais. O monaquismo exerceu grande influência na cultura medieval. Criar escolas não era a finalidade principal dos mosteiros, mas a atividade pedagógica se tornou inevitável na medida em que se fazia necessária a instrução do povo. Devido à demanda surgiram as escolas monacais onde se ensinavam o latim e as humanidades. Aqueles que se despontavam nos estudos alcançavam a oportunidade de estudar a filosofia e a teologia. Foi assim que os mosteiros foram dominando a ciência e se tornando um reduto da cultura medieval. É neste contexto que se deu parte do desenvolvimento da educação na alta idade média, regida pela igreja com a grande participação monástica.

A partir do século VIII acontece uma regressão econômica e intensifica-se o processo de feudalização, levando as pessoas a ter pouco interesse pelo aprender a ler e escrever. Entretanto, o Estado precisava de um clero culto e mesmo os padres se desinteressaram pela cultura e não buscavam mais a formação intelectual. No início do século IX, o imperador dos francos, Carlos Magno, traz para sua corte intelectuais com a intenção de reformar a vida eclesiástica e consequentemente todo o sistema de ensino. Começou então a Escola Palatina (ficavam ao lado do palácio), com a reestruturação e fundação de escolas catedrais (ao lado das igrejas), monacais e paroquiais. O programa básico de estudos era o das sete artes liberais, aplicados em dois ciclos chamados de trivium: compreendia a gramática, lógica e a retórica, sendo estudos de nível médio; e o quadrivium: composto pela aritmética, geografia, astronomia e música, estes de nível superior. Nos dois ciclos houve a predominância da gramática, instrumento indispensável para se entender e discutir os textos sagrados.

A EDUCAÇÃO DAS CRIANÇAS, JOVENS E MULHERES: 

A família medieval era pouco estruturada, as crianças tinham um papel social quase que inexistente e às vezes eram consideradas ao mesmo nível dos animais. O índice de mortalidade era alto e parte disso se dava a falta de afeto a elas desde o nascimento,.Na sua especificidade psicológica e física o reconhecimento era contrário. Muitas vezes eram apresentadas como “pequenos homens”, sendo até mesmo seus brinquedos os mesmos dos adultos. Somente com a época moderna é que se deu a separação.

 Semelhante à condição da criança era a condição da mulher. Submissa e subalterna ao homem até mesmo na criação, pois recebia menos alimento que os homens e ficava alheia à educação. Atribui-se valor a mulher na idade média a partir de algumas figuras como Catarina de Siena e Joana d`Arc. Em subalternidade também encontravam-se os jovens. Sem direitos, dependentes dos pais e sem vida social, a posição deles se igualava à dos criados e permanecia-se jovem até o casamento.

A EDUCAÇÃO NA BAIXA IDADE MÉDIA:

Após o florescimento do período carolíngio, novas invasões aconteceram na Europa, provocando um novo retrocesso. Pouco tempo depois, devido à reurbanização, surge uma nova classe social, a burguesia. Por volta do século XI, a moeda volta a circular, criam–se feiras , surgem os banqueiros, inicia-se a luta contra o senhor feudal. Logo, onde só  existia o poder do nobre e do clero, a surgir o poder do burguês.

Se até então o ensino se restringia apenas em formar clérigos ou dar instrução religiosa para leigos, a partir do desenvolvimento do comércio desponta a necessidade de se aprendera ler,a  escrever e a calcular. Surgem então as escolas seculares. De inicio, os burgueses frequentavam as escolas monacais e catedrais, mas essas logo se tornaram insuficientes. No século XII aparecem pequenas escolas com professores leigos escolhidos pela autoridade municipal. O ensino do latim é substituído pela língua nacional, deixam-se os programas de ensino das sete artes liberais com os ciclos do trivium e quadrivium e passa-se a oferecer noções de história, geografia e ciências naturais.

Estas escolas protagonizaram uma revolução no ensino, contestando o ensino religioso formal, que contrapunha uma proposta ativa voltada para os interesses da classe em ascensão. No começo as escolas seculares não tinham nenhum tipo de estrutura física fixa, os professores acomodavam os alunos em lugares improvisados, como na própria casa, numa esquina de rua, na porta das igrejas ou alugavam salas (schola).

A partir do século XIII, houve uma divisão na burguesia entre o rico patriciado urbano ,que se dedicava às atividades bancárias (ao mesmo tempo em que buscava aproximação com a classe nobre) e os comerciantes e artesãos. Com o desejo de se igualar aos nobres, o rico patriciado restabeleceu o tipo de educação aplicada ao seus, voltando-se mais para a cultura “desinteressada”, deixando para a burguesia plebéia os ensinos profissionalizantes , em a escrita e a leitura se encontravam bastante reduzidas.

AS UNIVERSIDADES:

De início, a palavra universidade não era entendida como um espaço físico ou estabelecimento de ensino, mas era usada para caracterizar qualquer tipo de reunião corporativa. No espírito das corporações, ela foi o resultado da influência da burguesia na sociedade, que desejava ascender a posição social. Neste caso, o que se configurava era a “universidade dos mestres e estudantes”.

Em meados do século XII acontece a ampliação dos estudos para atender a demanda de uma sociedade que se tornava complexa. O conhecimento de filosofia, teologia, medicina e as leis tornam-se integrantes, além das artes liberais. Ao longo do tempo, organizou-se melhor o trabalho até então disperso. Como em qualquer outra corporação, houve então a exigência de provas para se adquirir o título de bacharel, licenciado e doutor.  

CONSIDERAÇÕES:

Notamos que no período medieval, o processo educativo estava intimamente ligado ao contexto histórico, que consistia no domínio da Igreja Católica sobre o continente europeu. A educação era um instrumento para salvação da alma e visava especialmente o crescimento espiritual, importando-se menos com o crescimento e aprendizagem terrena. Portanto, o ensino na Idade Média foi marcado pela intervenção do cristianismo e refletiu diretamente no modo de pensar da época, além de moldar a filosofia do período.

BIBLIOGRAFIA:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação. São Paulo: Moderna, 1989.

CAMBI, Franco. História da Pedagogia; tradução de Álvaro Lorencini. São Paulo: Unesp, 1999

NASCIMENTO, Carlos Arthur. O que é Filosofia Medieval. São Paulo: Brasiliense 2004.

 

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