A MANIFESTAÇÃO DA VONTADE NA FISIOLOGIA VEGETAL:

By Acervo Filosófico

Por Juliana Vannucchi

  Um dos pilares da filosofia de Arthur Schopenhauer é a Vontade, compreendida como o princípio metafísico irracional, como a “coisa em si” que se encontra, de maneiras distintas, presente em todos os elementos da natureza (tanto dos orgânicos quanto dos inorgânicos), através dos quais se expressa em aparições físicas. Em uma de suas principais obras, intitulada “Sobre a Vontade na Natureza” (um precioso complemento à sua obra magna, “O Mundo Como Vontade e Representação”), o filósofo explora profundamente os principais traços que formulam a Vontade, descrevendo detalhadamente como ela se objetiva na natureza, em seus mais variados graus. Para tanto, Schopenhauer também expõe temas como a linguagem, o magnetismo animal, a magia e outros tópicos, partindo sempre de uma analise empírica, objetiva e fisiológica e contextualizando tais abordagens com o conceito de Vontade.  

   Este texto pretende apresentar os principais aspectos da manifestação da Vontade nas no reino vegetal, e para tal, baseia-se em um capítulo específico de “Sobre a Vontade Na Natureza”, intitulado “Fisiologia Vegetal”. É também válido esclarecer que este estudo é mais apropriadamente adequado para os leitores que já estejam familiarizados, ao menos com as bases essenciais da filosofia de Schopenhauer (especialmente com os conceitos de Vontade e Representação).

  No início do capítulo mencionado no parágrafo acima, Schopenhauer reproduz uma série de trechos retirados de estudos direcionados sobre o reino vegetal (cujas fontes são livros e artigos) escritos por botânicos e pesquisadores, os quais mencionam que  parece existir uma espécie de movimento espontâneo nos vegetais, sendo que esta espontaneidade é o que Schopenhauer compreende como sendo a manifestação direta e confirmação da Vontade. Abaixo, irei transpor algumas passagens que selecionei dos estudos que o filósofo alemão mencionou e que, seriam demonstrações dos movimentos espontâneos (aparição da Vontade) nas plantas.

* Histoire des progrès dês sciences naturelles depuis 1789 jusqu’ à ce jour (1826, vol.1):

 

As plantas têm certos movimentos aparentemente espontâneos que elas revelam sob certas circunstâncias, por vezes tão semelhantes aos dos animais que nos sentimos tentados, devido à eles, a atribuir às plantas uma espécie de vontade (…) As plantas podem adotar e abandonar certos costumes (…)”

 

* Mémoires de l’ acadêmie des sciences (1821, vol.5, Paris, 1826, Curvier):

 

Há séculos botânicos buscam a razão pela qual uma semente em germinação, não importando a posição em que se coloque, sempre envia sua raiz pra baixo e seu caule para cima (…) Segundo o senhor Doutrocht, as plantas tomam sua direção graças a um princípio interno e de modo algum por meio da atração dos corpos aos quais tendem (…)”.

 

* Von den Bewegungen und der Empfindung der Pflanzen (Neues System der Pflanzenphysiologie, 1839, Meyen):

 

“(…) Quando observamos os movimentos livres das cianobactérias e de outras plantas simples, não nos resta alternativa se não reconhecer nessas criaturas uma espécie de vontade (…)”.

  Na sequência dos exemplos transcritos (dos quais reproduzi aqui somente trechos de alguns específicos), são pontuados alguns aspectos relevantes em relação à maneira através da qual a Vontade se objetiva nos vegetais. Inicialmente, Schopenhauer esclarece que a aparição da Vontade em tais elementos da natureza, é independente da cognição, sendo esta uma das principais características que a diverge da maneira como ela aparece nos seres humanos (e também em outros animais), pois no primeiro caso, ela é desprovida da percepção, e no segundo, é velada pela percepção (consciência de outros objetos/consciência do mundo), e isto significa, portanto, que as plantas carecem de consciência própria, existindo apenas na consciência alheia.

   A cognição, por sua vez, encontra-se presente no ser humano para fins de manutenção porque, ao contrário de outros seres da natureza, o homem possui mais carências, e por essa mesma razão, é dotado de um sistema sensorial e de um intelecto e isto significa que as plantas possuem menos carências e, consequentemente, não necessitam de capacidade cognitiva: “(…) a cognição, devido ao movimento segundo motivos por ela condicionado, é o verdadeiro caráter da animalidade, que traça o seu limite essencial. Onde esta termina, desaparece a cognição propriamente dita (…)”. (SCHOPENHAUER, p.122).

  Assim, diferentemente do que acontece com o ser humano, nas plantas a Vontade se expressa através de estímulos (ou receptividade, que pode ser empiricamente notada, conforme exemplificou Schopenhauer no início do capítulo) substituindo diretamente a cognição (e ao mesmo tempo, equivalendo-se a ela): “O serviço prestado aos animais e homens pela cognição como meio dos motivos é prestado às plantas pela receptividade a estímulos (…) pois é unicamente por consequência de nos amimais, devido a suas carências, a receptividade para impressões externas ter se elevado a ponto de exigir o desenvolvimento de um cérebro que surge, como uma função desse cérebro, a consciência (…)”. (SCHOPENHAUER, p. 125).   

   Visando esclarecer como ocorre a aparição da Vontade nos vegetais (estímulos/receptividade), examinemos mais alguns dos exemplos fornecidos no livro : movimentos de raízes de árvores que, muitas vezes, são capazes de alterar seu caminho retilíneo para solos ricos que se adequem ao seu desenvolvimento; ou então, folhas e ramos que se movem em busco de locais em que haja mais luz e/ou mais ar; caules de batata que procuram firmar-se em direção às melhores condições para seu crescimento e sempre traçando a rota mais curta possível; há também um intrigante comportamento notado na Cuscuta: este planta busca sempre apoiar-se em vegetais vivos e desvia notavelmente de outros elementos, de manterias inorgânicas e de plantas mortas, sendo que este ato ocorre pelo fato de que a Cuscuta somente nos vegetais dos quais é capaz de extrair a papila, um alimento que lhe é próprio.

   Considerando os exemplos acima fornecidos, talvez seja mais fácil compreender o que Schopenhauer entende pela aparição do princípio metafísico no reino vegetal, que carece completamente de cognição. Notemos que para o homem, dotado de um sistema nervoso, de um cérebro e de uma consciência efetiva (que se dá através de leis à priori: espaço, tempo e causalidade), é possível captar a representação, que surge como uma face da Vontade. Nas plantas, pelo contrário, a espontaneidade vegetal, ou seja, estímulos que produzem efeitos nos vegetais em diversas condições consiste, efetivamente, na objetivação direta da Vontade no reino vegetal.

  Além disso, é importante mencionar que essa essência íntima de mundo, também pode ser encontrada em outros componentes tanto do reino orgânico, quanto do reino inorgânico (no qual não haverá, por exemplo, nem ao menos uma receptividade para estímulos), e na obra “Sobre a Vontade na Natureza”, algumas dessas outras expressões da Vontade são abordadas. Para maiores compreensões, indicamos a leitura de “O Mundo Como Vontade e Representação”, obra de maior importância de Arthur Schopenhauer e que contextualiza e explora com mais detalhes o assunto abordado neste texto.

REFERÊNCIA:

SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre a Vontade na Natureza, 2015. Editora: L&PM.

 

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