A METAFÍSICA DO AMOR – SCHOPENHAUER:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

  Este texto é baseado na obra O Mundo Como Vontade e Representação. Neste livro, Arthur Schopenhauer discorre sobre diversos assuntos e, dentre tais, há um capítulo específico sobre o amor, que é justamente o foco deste presente material. Um primeiro esclarecimento importante é que a metafísica do amor está inteiramente conectada como conceito de Vontade, força cega e irrefreável que governa o mundo, e encontra-se por trás dos fenômenos. Assim sendo, para melhor compreensão deste texto, é preferível que se tenha conhecimentos prévios sobre a filosofia de Schopenhauer. 

  No início do capítulo sobre a Metafísica do Amor, o filósofo logo faz as seguintes constatações: o amor existe, é real é importante. Encontra-se presente no mundo, não apenas em obras literárias, tal como romances ou poesias, pois há na realidade, inúmeros “Werthers” e “Jacopos Ortiz”. Considerando tal fato, é de se estranhar que poucas vezes a Filosofia o tenha tido como objeto de estudo. Alguns pensadores se empenharam em refletir sobre o amor (tal como Rousseau, Spinoza Platão e Kant), mas falharam de alguma forma. Rousseau foi insuficiente, Spinoza, demasiadamente simples em sua abordagem, Kant, supérfluo. Platão por sua vez, foi o que mais se preocupou com o amor, mas prendeu-se ao mundo das fabulosas e dos mitos. 

Considerando que o pobre cenário da história da filosofia acerca do amor, Schopenhauer empenha-se em abordar tal tema de maneira mais profunda do que seus antecessores. Compreende que a paixão, a atração e o amor, são frutos da manifestação da Vontade absoluta, que se projeta de maneira mascarada nos seres humanos através da ilusão do  instinto da consciência sexual individual. Assim sendo, quando se escolhe um parceiro ou parceira, tal opção, na realidade, trata-se da escolha para uma finalidade específica: o herdeiro, a manutenção do espírito da espécie. Portanto, maneira inconsciente, os amantes desejam ao se unirem, projetar uma criança: “(…) Já na troca dos olhares cheios de desejos se ilumina uma vida nova, se anuncia um ente futuro, criação completa, harmoniosa”. (2014, p. 48). Entenda-se que a Vontade quer se expressar, quer se firmar e se perpetuar. Por isso, a espécie (Vontade geral) significa manutenção e sobrepõe-se ao indivíduo (consciência individual), sendo que o homem é mero instrumento da Vontade: “O indivíduo torna-se um escravo da natureza no momento em que julga obedecer apenas aos seus desejos”. (2014, p. 50). 

  Isto significa que o amor natural entre dois seres consiste, na realidade, em um disfarce para geração de um terceiro ente. Em suma, o instinto natural dos sexos é condicionado ilusoriamente pela vontade individual, que atua em prol da Vontade da espécie. Neste contexto, tendo como finalidade a vontade de viver, um homem e uma mulher, portanto, apenas se sentirão atraídos um pelo outro, se perceberem (inconscientemente) que são capazes de gerar um ente futuro com qualidades de ambos os amantes. Daí ocorre que durante o processo de atração, um indivíduo buscará no outro, qualidades que sejam mais elevadas do que as suas próprias, isto é, um oferecerá ao outro aquilo que lhe carece. Esta constatação explica o nível de uma paixão, na qual sentimento se intensifica e se fortalece na proporção em que se responde às necessidades de um ou de outro amante, conforme estes almejam para o ente futuro. 

  Conforme foi mencionado, no jogo do amor, a escolha de um parceiro ou parceira é movida somente e veladamente pelo interesse no ente futuro, embora haja a ilusão de que essa escolha seja feita com base em interesse pessoal. A atração e o desejo, neste contexto, justificam-se pela ideia inconsciente de procriação, que tem por finalidade o melhoramento geral da espécie. Por isso, cada pessoa encontrará na outro um tipo ideal baseado nas qualidades das quais ela própria carece. Por exemplo: mulheres altas agradam homens baixos e homens gordos costumam optar por mulheres magras. “(2014, p. 52)

   Schopenhauer faz algumas observações a respeito de situações amorosas e de relacionamentos, que são explicadas dentro das circunstâncias da busca da Vontade é a perpetuação: o homem no amor é caracterizado pela inconstância, pela mudança e pelo desejo frequente de ter ou se envolver com outras mulheres que sejam mais atraentes do que aquela que possui. Isso acontece naturalmente, pelo fato de que possui condições biológicas que o permitem ser capaz de gerar mais herdeiros em um curto espaço de tempo se comparado com a mulher: “O homem, de fato, pode facilmente gerar mais de cem crianças num ano, se tiver outras tantas mulheres à sua dissociação; a mulher, embora tivesse o mesmo número de maridos, não poderia dar à luz mais do que uma criança por ano, executando-se gêmeos”. (2014, p. 54). Portanto, essa condição explica porque o homem sente-se atraído por várias mulheres enquanto a mulher mantém-se fiel com mais facilidade. Esse conjunto de características naturais também explica a preferência do homem por mulheres mais novas (de acordo com Schopenhauer), especialmente entre 18 e 28 anos, pois é nesta faixa etária que podem gerar entes futuros com mais facilidade: “A mocidade sem beleza sempre tem atrativos; a beleza sem mocidade não tem nenhum”. (2014, p. 54). 

   Primeiramente, nessa busca por continuidade, por vida e por continuidade, a Vontade busca três coisas: força, saúde e beleza, que se encontram especialmente na fase da juventude humana e, apenas posteriormente, se voltará para buscas de exigências mais específicas (por exemplo, carências individuais que são supridas pelo  indivíduo amado). Além disso, há alguns aspectos físicos que atraem a maior parte dos homens e que são justificados pelo fundamento da reprodução de herdeiros: os seios robustos e arredondando-a relacionam-se, inconscientemente com a amamentação. Uma mulher gorda não atrai um homem porque seu excesso de peso sinaliza atrofia no útero. Os olhos e as frontes, relacionam-se à qualidades intelectuais. Por outro lado, as mulheres costumam optar por relacionar-se com homens que tenham de 30 a 35 anos devido às suas forças geradoras e, normalmente, as mulheres também são atraídas por atos de demonstração de coragem e força. Além destas observações feitas no tocante do amor, o filósofo ainda explica outras situações comuns aos relacionamentos, que são justificadas pelo desejo de manutenção da Vontade, como, por exemplo, a dor de se perder um ente amado ou o sentimento de ciúmes que, na verdade, são atos que apresentam ameaças à continuidade da espécie. É também neste contexto que se encontra a explicação para o fracasso de tantos casamentos, uma vez que muitas uniões ocorrem de maneira meramente impulsiva visando exclusivamente a continuidade da espécie e, assim, ocorrem visando o futuro e não o presente, podendo, portanto, ser uma união prejudicial e insatisfatória para um dos amantes, especialmente após o nascimento da criança (que é pois, o objetivo do laço afetivo).

  Note-se que a Vontade dirige-se para tentativas de originar sempre um ser perfeito, constituído por qualidades da mãe e do pai, que irão se unir para suprir suas próprias imperfeições ou fraquezas (conforme citado anteriormente, um homem magro busca uma mulher gorda, uma mulher baixo, um homem alto).  A essência da união e da escolha de um amante é, portanto, inconscientemente movida pela Vontade, sendo que tal movimento possui a existência da humanidade como finalidade única e última, pois através da manutenção da espécie, a própria Vontade de mantêm. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

SCHOPENHAUER, Arthur. As Dores do Mundo. Editora: Edipro. 2014.

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Representação – Tomo II. Editora: Unesp. 2015.

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