A PESTE – Albert Camus:

By Acervo Filosófico

  Por Juliana Vannucchi

(…) O Natal daquele ano foi mais a festa do Inferno do que do Evangelho (…)

       Ao lado de “O Estrangeiro” e “A Queda”, A Peste (publicada em 1947) é uma das principais obras literárias do pensador francês Albert Camus. A edição que li e que utilizei como referência para a elaboração deste texto, é de 1978, da Editora Record, com tradução de Valerie Rumjanek Chaves e contém pouco mais de 200 páginas, não constando introdução.

Subject: French writer Albert Camus reading outside his publishing firm office. Paris, France 1957

A narrativa do livro se passa na década de quarenta, e centraliza-se em Oran, pequena cidade litorânea localizada na Argélia, que, repentinamente é assolada por uma peste. O protagonista da história é um médico e habitante local, chamado Rieux, embora haja vários outros personagens que são explorados. No início da história, Oran é apresentada como uma cidade tranquila na qual os habitantes vivem confortavelmente. Conforme as palavras do próprio livro: “Oran é, na verdade, uma cidade comum e não passa de uma Prefeitura francesa na costa argelina”. (p.7). Contudo, essa habitual tranquilidade cotidiana é abruptamente interrompida por uma peste que se alastra gradualmente e que aterroriza os cidadãos. As primeiras manifestações desta vilã, consistem numa invasão de ratos adoecidos e atordoados, cujo aparecimento inesperado intriga a população de Oran.   Alguns dias após a aparição dos animais, um notável número de pessoas começa a apresentar sintomas de uma doença que inicialmente é desconhecida, mas que após ser investigada, é identificada como resultado de uma peste. Inicialmente, a população local não encarou este fato como um problema sério, e não demonstrou muita preocupação com o surgimento da doença. Entretanto, a peste progride e assim, aos poucos e cada vez mais, a cidade começa a isolar-se do resto do mundo para evitar contaminações: “(…) a primeira coisa que a peste trouxe aos nossos cidadãos foi o exílio… Chegava sempre o momento em que nos dávamos conta de que os trens não chegavam”. (p. 52). Este fato começa a gerar consequências emocionais nos personagens que sentem-se cada vez mais amedrontados pela ameaça da peste, e angustiados pela sensação de afastamento do restante do mundo. 

  A cidade torna-se nebulosa e cansativa para os concidadãos, que sentem-se dilacerados pela separação do restante do mundo. Aliás, o próprio protagonista, o Dr. Rieux, estava distante de sua esposa, pois logo nas primeiras páginas do livro, sua companheira saí da cidade para fazer um tratamento especial, pois a personagem (ironicamente) é doente. Este fato, contudo, parece não conturbar tanto seu marido que, de certa forma, se envolve tão intimamente com a peste, que não costuma mencionar a esposa com frequência (embora seja possível, ao leitor, perceber que ele pensa nela).    

Em um determinado momento do livro, parte da população sente-se verdadeiramente aterrorizada pelo isolamento, e atos de violência começam a surgir: algumas pessoas queimam casas acreditando que este seja um meio de vencer a peste, outras tentam escapar clandestinamente de Oran e essa atitude desencadeia uma troca de tiros com policiais. Além deste caos urbano, o cemitério local, de repente, não pode mais comportar tantos cadáveres, já que o número de corpos aumenta consideravelmente. Para aumentar a tensão na cidade, alguns alimentos começam a faltar e, consequentemente, os preços dos produtos disparam.

   No decorrer da história, o Dr. Rieux e outros médicos locais começam a trabalhar no desenvolvimento de um soro como única esperança de amenizar a peste e converter a situação. Se o medicamente falhasse, não haveria alternativa e a peste continuaria imperando: (…) o médico estava convencido de que a cidade toda ficaria entregue aos caprichos da doença, quer a epidemia prolongasse seus efeitos durante longos meses ainda, quer decidisse deter-se sem razão” (p.146). Com este último resquício de esperança, a narrativa continua a evoluir, sempre mergulhando no sentimentalismo e na situação existencial dos personagens dentro do contexto gerado pela doença. Optei por não compartilhar neste texto os acontecimentos finais do livro, então encerro as descrições por aqui.
  A Peste é uma obra literatura com panos de fundo existencialistas, uma vez que a narrativa explora sentimentos, emoções e reflexões humanas, centralizando-se especificamente na situação do indivíduo que confronta-se com inquietações interiores, com inseguranças e com incertezas. Este livro apresenta a vida sob uma perspectiva absurda que destaca-se a falta de sentido e a ausência de suportes concretos que forneçam respostas concisas e confortáveis. A tríade “A Queda”, “A Peste” e “O Estrangeiro” é essencial para compreensão ou aproximação do pensamento de um dos maiores romancistas e intelectuais do século XX. Essas três valiosas obras são relevantes não apenas por suas notáveis abordagens de cunho filosófico, mas também por sua preciosidade literária.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

CAMUS, Albert. A Peste. 1978. Editora: Record.

 

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