A TRIPARTIÇÃO DA ALMA:

By Acervo Filosófico

Por: João Arruda

Entre mim mesmo e mim

Não sei que se levantou,

Que tão meu imigo sou.”

Camões.

O que falar deste misto de desejos imperiosos que parecem fazer tracção de corda, que puxam e repuxam medindo a força e a resistência destes que parecem serem e não serem eu e minha vontade; que parecem zombar de mim no trocadilho de quem realmente é real e quem não é? Tende um pouco mais pra um lado e me faço impelido ao objeto e a alguma resolução, logo, num piscar de olhos, tende pra o outro lado, e já agora me sinto impedido ao objeto ou à resolução. Que raios de maneira é esta que parece criar dentro de cada homem um combate constante, uma ida e vinda contínua, e o que hei de usar de medida pra dar confiança a algum desses lados? 

Ouço falar de algo que denominam como uma luta entre racional versus sentimental; dentro da óptica cristã, me dizem algo como uma luta entre um anjinho e um demoniozinho, ambos sentados em cada lado do pescoço a jogar-me conselhos contraditórios. E ainda há uma explicação grega que não digo ser a melhor ou pior, pois não cabe a mim julgar, apenas, por hora, descrevê-la.

É basicamente partindo da observação de um elemento que impele e outro que impede dentro da alma humana, que Platão, pela personagem de Sócrates, começa a sua investigação sobre alma. Primeiro, ele coloca um elemento racional que delibera, que, por analogia, é o filósofo que deve comandar a República ideal platônica; segundo, ele coloca um elemento irracional e da concupiscência, que têm desejos mais imediatos e materiais, e este, na República, são os comerciantes e todos aqueles que provêm às necessidades básicas. Logo depois, ele percebe um terceiro elemento, a ira, e trata de investigar sua natureza, chegando à conclusão de que ela é apenas uma aliada: se o homem for educado, o elemento irascível será aliado do elemento racional; se não, será aliado do elemento irracional. Este elemento irascível, na República, serão os combatentes, os soldados, e em ambos os casos, tanto na alma como na República, este deve dar ouvidos somente ao elemento racional para que seja feita a sua função como lhe coube.

Cópia do busto de Platão (ca. 370).

A partir dessa subida em nível de microcosmo – alma humana – ao macrocosmo – República – e vice-versa, Platão percebe que o homem justo é da mesma maneira que a cidade justa. Ou seja, dentro destes dois níveis só se chega à justiça quando cada parte ou elemento executar a sua tarefa específica em cada uma das suas três classes. O racional e o irascível hão de vigiar a parte irracional para que esta não deixe de executar sua tarefa e tente escravizar e dominar as outras partes. A parte irracional é tirânica e é a que ocupa mais espaço tanto na alma humana quanto na República.

O homem, que em sua alma deixa o elemento irascível ser súdito exclusivo do elemento racional preservando as instruções da razão fornecidas por este, é considerado por Platão como corajoso. Também, Platão denomina de sábio aquele em que o elemento racional é o que fornece instruções, exatamente por que a esse elemento pertence a ciência de saber o que convém a cada um e a todos em conjunto, dos três elementos da alma. E considera temperante, quando o governante — a razão — e os dois governados — o elemento irascível e apetitivo/irracional — concordam que é a razão que deve governar e não se revoltam contra ela, pois entre os elementos há amizade e harmonia.

Esses elementos que Platão descreve são essas três partes da alma: a apetitiva (epithymetikón), a irascível (thymoeidés) e a racional (loghistikón). Para cada indivíduo em que prevalece alguma parte dessas, será designada uma função na República. Nos lavradores, artesãos e comerciantes, por exemplo, prevalece a parte concupiscível e apetitiva e que é o aspecto mais elementar. Nos guardas, a parte que prevalece é a parte irascível e volitiva da alma; esses são os homens que se assemelham a cães de raça, ou seja, são dotados ao mesmo tempo de mansidão e ousadia. E as virtudes que cabem-lhes são fortaleza ou coragem. E estes deverão vigiar tanto a parte na qual prevalece a parte apetitiva quanto o Estado para que ele não se torne demasiadamente grande ou pequeno. Nos Governantes, a parte que prevalece é a racional; os governantes deverão ser aqueles que souberam amar a cidade mais do que os outros, e que cumpriram sua missão e, especialmente, aprenderam a conhecer e contemplar o bem.  

Considerando o contexto acima, para formar cada casta dentro da República, Platão coloca uma forma diferente de educação: para a primeira casta, basta a transmissão da arte e dos ofícios, que se aprende facilmente com a prática; para a classe dos guardas, Platão propõe a educação clássica, ginástico-musical, com o objetivo de robustecer convenientemente a parte de nossa alma da qual derivam a coragem e fortaleza; a educação prevista por Platão para os governantes coincidia com o processo de formação exigido para o aprendizado da filosofia, suposta a coincidência entre verdadeiro filósofo e verdadeiro político. Devia durar até os cinquenta anos e Platão a chamava de “longa estrada”. Entre os trinta e os trinta e cinco anos, devia ocorrer o tirocínio mais difícil, ou seja, a experiência com a dialética. Dos trinta e cinco aos cinquenta anos, estava prescrita a retomada dos contatos com a realidade empírica, no desempenho de diversas tarefas. A finalidade da educação do político-filósofo consistia em levá-lo ao conhecimento e à contemplação do Bem, conduzindo-o ao “conhecimento máximo”, para que ele pudesse plasmar a si mesmo conforme o Bem, visando inserir o Bem na realidade histórica. É o movimento da saída da caverna, a contemplação das formulas reais, e a volta à caverna para poder passar o que foi visto lá fora.

 

REFERÊNCIAS:

História da Filosofia: filosofia pagã antiga. Volume 1. Giovanni Reale e Dario Antiseri. Editora: Paulus. 2004. São Paulo/SP.

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