ACERCA DO PROBLEMA DO POSSÍVEL E DO NECESSÁRIO:

By Acervo Filosófico

Por Luiz Semeler

    Antes de chegarmos ao ponto principal deste texto, faz-se necessária uma contextualização do que aqui será dito, e essa contextualização passa fundamentalmente pela história da filosofia medieval e, portanto, por seus objetivos, suas condições, e alguns outros fatores que a caracterizaram.

     A meta principal dos filósofos medievais era, através da filosofia, área de conhecimento racional, defender a religião, e assim sendo, defender a própria fé com argumentos racionais. Esta defesa fazia-se necessária devido ao contexto em que se inseria a religião cristã a partir do primeiro século depois de Cristo. Neste tempo haviam contrastes entre a cultura grega pagã e a cultura judaico cristã monoteísta, e portanto a ocorrência de debates entre ambas as culturas era algo presente.  O embrião da filosofia cristã está na necessidade de fazer os gregos entenderem a fé monoteísta. Essa necessidade existia devido a uma cultura grega totalmente voltada a uma prática pautada na racionalidade, isto, no mínimo no âmbito intelectual devido principalmente aos grandes filósofos do período clássico, como Platão e Aristóteles. E será justamente nestes grandes nomes que a filosofia medieval se baseará, e com as suas adaptações conforme as próprias crenças defenderá as teses que eram convenientes como por exemplo a existência de Deus, a imortalidade da alma, entre outros assuntos com predominância metafísica.

     É preciso que fique claro que esse modo operandi era para a maioria dos filósofos cristãos um “capricho”, pois acreditam majoritariamente na capacidade da fé em conhecer a Verdade divina. A pretensão de racionalidade era precisa para fortalecer o domínio cristianista sobre povos que ainda não estavam familiarizados com tal cultura. Cientes do contexto partiremos agora para parte argumentativa dos autores que são neste texto: Santo Anselmo de Cantuaria e São Tomas de Aquino. O primeiro sofreu influência do neoplatonismo (Santo Agostinho por exemplo) e o segundo que sofreu influência de Aristóteles e portanto ambos possuem elementos da filosofia grega em seus argumentos. Os próximos parágrafos trarão semelhanças e diferenças entre a resposta de Anselmo, no Proslógio, e de Tomás de Aquino, na questão 2 da Suma Teológica, acerca do problema do possível e do necessário.

    O ponto central da distinção entre possível e necessário feita por Tomás de Aquino é a questão do Ser, ou seja, qual é a natureza deste, como se comporta através dos tempos. O que é possível: um ente que não precisa necessariamente ser, sua existência é uma possibilidade e sua natureza é marcada pela inconstância, pela perecibilidade, ou seja, este as vezes é e as vezes não é. Ele não se auto-gerou, a causa dele não está em si, nasceu de outra coisa, e quando não é em algum momento isso não compromete a existência de um mundo. Ao contrário acontece quando o ente é necessário: ele é sua própria causa, este ser sempre é, já que não está sujeito a perecibilidade das outras coisas, e ele necessariamente é, pois se todas as coisas tivessem sujeitas a condição de não-ser, em algum momento nada existiu, e se o nada existiu não poderia haver algo, pois as coisas não nascem do nada, já que isso não é o caso, é preciso admitir que algo é necessário. Para Tomás de Aquino, este algo é Deus.

    O cerne da mesma distinção em Anselmo é diferente, parte da ideia que é necessário que exista um “Ser do qual não se pode pensar nada maior”. O que é necessário para ele é justamente esse Ser pois se este não existe, qualquer outra coisa por menor que seja será maior que ele, e a contradição está evidenciada- qualquer ser é maior do que o “O ser do qual não se pode pensar nada maior”. Outra contradição seria dizer que esse Ser, que também significa todo, não existe. Dizer que o todo não existe é cair no nada, e também fica aqui evidenciada a contradição- existe algo mas não o todo. E esse Ser descrito por Anselmo é Deus, nele está contida a essência da existência. O que é somente possível e portanto contigente é tudo aquilo que não é este Ser.

   Existem duas semelhanças importantes entre eles nesse argumento: quando alguém tenta argumentar contra a existência de Deus os dois consideram que tal caminho leva ao nada. Mas diferem em como consideram que se chega ao nada. Em Tomás de Aquino por falta de um Ser que iniciou tudo e que sempre é. Anselmo diz que se chega ao nada ao negar a existência de um Ser maior, em outras palavras, se se nega o todo, cai-se no nada. Como justificaram o necessário é diferente: o Tomista estruturou sua argumentação na questão do Ser e na natureza deste, ou seja, Deus como ser imutável e causa de si mesmo; o segundo estruturou-se na ideia de Deus que é “o ser do qual não se pode pensar nada maior”. Mesmo com as variações de definições, existem semelhanças: ambas acreditam que todas as coisas vieram de Deus e que ele necessariamente precisa existir. Outra diferença é que na concepção de Anselmo, Deus é o todo e na Tomista o tudo veio de Deus, essa divergência todavia, não faz que essas noções se excluam, em outras palavras, é possível aceitar uma sem que a outra se torne contraditória.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Anselmo, Santo, Arcebispo de Cantuária, 1033-1109. 4.ed.A627m Monológio; Proslógio; A verdade; O gramático / Santo Anselmo de Cantuária. — 4. ed. — São Paulo : Nova Cultural, 1988. (Os pensadores).

AQUINO, Tomás. Suma teológica. São Paulo, SP: Loyola, 2006.

GILSON, Etienne. O espírito da filosofia medieval. São Paulo: M. Fontes, 2006

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