AMOR FATI: Um convite para amar o mundo como ele é:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi e Alessandro Olivieri

    O Amor Fati (cuja tradução do latim pode ser compreendida como “amor ao destino”) é um dos principais conceitos que compõe a vasta e rica filosofia de Friedrich Nietzsche. Não há uma obra em particular na qual o pensador alemão discorra especificamente sobre este assunto, mas a expressão aparece em vários trechos de diferentes livros.

   No contexto do pensamento nietzschiniano, o amor fati refere-se à atitude de amar e aceitar a vida em sua plenitude (tantos nos aspectos negativos quanto nos positivos), encarando-a e abraçando-a da maneira como ela é, e como se apresenta diante de nós. É o ato de dizer “sim” ao mundo, tratando-se, dessa forma, de uma concordância entre o sujeito e a vida, no momento e na forma em que ela se encontra.

   Na concepção de Nietzsche, rejeitar a vida é um sinal de fraqueza e de decadência, sendo, portanto, um ato contrário ao perfil do super-homem, que seria aquele que supera a si mesmo, que se eleva e que está além do moralismo, cristianismo, pessimismo e dos Ideais Ascéticos. Essa postura sugerida pelo amor fati combate os ídolos, que consistem em imagens de perfeição que impedem o homem de amar o mundo tal como ele é. Os ídolos são compreendidos por Nietzsche como aspectos prejudiciais ao ser humano, na medida em que implicam perfeições que não podem jamais ser atingidas nesta vida e que, consequentemente, irão gerar frustrações, uma vez que consistem em imagens aprimoradas, lapidadas e fundamentadas em perfeições irreais, que condenam o homem, impedindo-o de amar seu destino e a vida em suas originalidades. Em Ecce Homo (p. 42, 2008), o filósofo escreve: “(…) a minha fórmula para a grandeza do homem é o amor fati: nada pretender ter de diferente, nada para trás, nada para toda a eternidade. O necessário não é apenas para se suportar, menos ainda para se ocultar – todo idealismo é mentira perante o necessário – mas para o amar.”

  Enquanto os ídolos atormentarem-nos, jamais será possível amar o mundo em sua realidade, simplesmente porque sempre haverá uma espécie de “tabela” para com a qual compará-lo, como, por exemplo, a “tabela” de um mundo perfeito, que se colocada em contraposição com este mundo no qual nos encontramos, possivelmente nos levará a julgar este ambiente como imperfeito e defeituoso. Pensemos: se considerarmos que exista o Mundo das Ideias, isto é, uma dimensão na qual as coisas são perfeitas, eternas, imutáveis e, enfim, ideais, certamente iremos nos basear na busca deste espaço e tenderemos a negar este em que vivemos atualmente. Em relação ao paraíso cristão, ocorre a mesma coisa: idealizamos um plano impecável, pleno e íntegro e nos inclinamos a negar e desprezar este nosso mundo de agora (em prol do outro), transformando-o este num ambiente de decadência. Porém, se tem uma coisa que o filósofo nos ensina em todas as suas obras, é como martelar todos esses ideais e assim, destruir a noção de mundo perfeito. Demolindo-a, não tem como existir a imperfeição, pois só pode existir o imperfeito, se também existir o perfeito para contrapô-lo e, assim sendo, o que nos resta é o mundo como ele é: nem perfeito, nem imperfeito, apenas da única maneira que poderia ser.

  O amor fati, portanto, consiste em assimilar a vida tal como ela é, e isso significa vivê-la de maneira intensa e senti-la em sua totalidade, sabendo que neste processo, existiram dificuldades e lutas, que não devem ser ignoradas ou suportadas, mas abraçadas e amadas, porque isso faz parte do mundo em sua originalidade e realidade, e não de como queríamos que ele fosse.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. Editora: LusoSofia: Press, 2008.

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