AS NOÇÕES DE DÚVIDA CÉTICA E DO COGITO NA FILOSOFIA DE DESCARTES:

By Acervo Filosófico

Por Luiz Henrique Zanatta Semeler

           Este texto é baseado na obra Meditações Metafísicas, de René Descartes e se propõe a explicar os graus da dúvida cética que se encontram na Primeira Meditação, e também a maneira pela qual o filósofo francês chegou ao cogito ergo sum na Segunda Meditação.

             Descartes, autor do “cogito, ergo sum“.

            Talvez o problema mais notável presente na filosofia durante a era moderna tenha sido o problema epistemológico. Descartes é um dos filósofos mais lembrados quando trata-se desta referida época e deste mencionado assunto, sendo costumeiramente colocado como um representante da corrente racionalista, que foi uma das mais importantes formas de investigações acerca do que podemos conhecer, como podemos, em que condições se forma o conhecimento e outros aspectos. O período em questão também foi marcado por uma espécie de renascimento da filosofia cética antiga, através de nomes como Michel de Montaigne. E foi justamente através desse movimento filosófico que a capacidade do conhecimento humano foi colocada em dúvida, sendo especialmente dentro desse contexto e desses problemas que René Descartes estava envolto.

            A resolução cartesiana para o problema do conhecimento passa por vários degraus e tem como objetivo reconstituir as bases da epistemologia, tornando-as firmes e permanentes, para deste modo possibilitar conhecimentos mais seguros. O primeiro passo proposto pelo filósofo foi o de adotar precisamente uma postura cética com o propósito de “limpar” todos os preconceitos da mente. Essa atitude é fruto de uma autoanálise que atingiu o seguinte resultado: ele percebeu que ele próprio, antigamente, considerava muitas coisas falsas como verdadeiras. Se as bases sólidas são fundamentais para a obtenção do conhecimento é forçoso que se assegure bases sólidas para se chegar a algo seguro.

       Ver-se livre de suas duvidosas antigas opiniões foi seu primeiro passo. O modo de proceder com as antigas convicções foi o seguinte: há coisas em parte verdadeiras e que são, portanto, em parte, falsas; e as coisas totalmente falsas são duvidosas e, assim, devem ser rejeitadas. Entretanto, percorrer caso a caso (para verificar a veracidade de cada coisa observada através da experiência) é impossível, mas, se alguma coisa é verdadeira conforme a solidez de sua base, verificando instabilidade em alguma (que é o caso das experiências sensíveis), tudo que é (in) sustentado por essa base deve ser excluído.

            A primeira base a ser posta em dúvida é a classe de conhecimentos que obtemos através dos sentidos e que representam, portanto, o primeiro grau de dúvida. Essa proposta é resultado da averiguação que o filósofo fez: todas as opiniões que até aquele momento Descartes considerava como verdadeiras foram captadas pela experiência sensível. Assim, notou que, por vezes, os sentidos falham e então é prudente nunca confiar completamente neles, visto que há possibilidade de erro e engano. Todavia, há uma ressalva quando se observa que os sentidos enganam, pois existem informações recebidas pela empiria que não merecem de modo algum serem postas em dúvida: “Por exemplo, que agora estou aqui, sentado junto ao fogo…” (DESCARTES, p. 18). O motivo disso, esclarece Descartes, é a falta de motivos para interrogar-se de coisas desta espécie.

   René Descartes (1596-1660), importante matemático e filósofo da Idade Moderna.

O segundo grau de dúvida é o discernimento do que é sonho e do que é estar desperto. Seus motivos para tal questionamento são as lembranças das situações em que ele estava sonhando, mas não notava que se encontrava em tal estado. Nos sonhos parece que estamos acordados, não conseguimos distinguir o sonho do real, por isso muitas vezes somos enganados. Através desta reflexão, Descartes constatou que as coisas vistas em sonhos não são verdadeiras, todavia, os sonhos são como obras mitológicas, que partem de experiências vividas na realidade para criação de algo novo, embora fictício. O sonho é formado de experiências advindas da realidade, mas que estão postas em uma ordem diferente. É preciso, portanto, afirmar que o que vemos na experiência e que é de modo mais simples e geral, pode ser considerado verdadeiro, pois o sonho e coisas de origem semelhantes não surgem de algo inexistente. A natureza corporal é verdadeira quando se trata de tempo, espaço, quantidade entre outras coisas. Partindo disso é possível dizer que as ciências gerais e simples (Aritmética e Geometria, por exemplo), são coisas difíceis de serem postas em dúvida já que, esteja o homem dormindo ou desperto, as suas regras conservam-se. Em contrapartida, ciências que se baseiam na observação (astronomia e medicina, por exemplo), e dessa forma, são compostas, tornam-se duvidosas.

Descartes afirma que possuía uma ideia fixa em sua mente, que consistia na reflexão sobre a possibilidade da existência de um Deus que tivesse criado todas as coisas e que fosse o responsável pela existência de si próprio. Mas, mesmo com tal reflexão, o pensador francês continua a aplicar seu rigoroso questionamento, indagando-se até mesmo acerca disso, e perguntando se todas as coisas que existem não lhe aparecem de um modo diferente do qual elas são de fato. Não estaríamos errados ao supor que 1+1=2, do mesmo modo que outras pessoas assumem saber perfeitamente sobre algo, mas que no fundo estão erradas? O filósofo descarta essa possibilidade pelo fato de que a maioria dos homens consideraram Deus como sendo um ser bom, de forma que seria uma contradição acerca da bondade da divindade criar um homem para que este sempre errasse. Mas a assiduidade de Descartes na busca de algo seguro nas ciências e suas vigorosas meditações, permitem segundo ele próprio, duvidar de todas as opiniões que algum dia considerou como verdadeiras. Ele supõe, então, que não existe Deus, que chegou aonde chegou por acaso e que quanto mais se engana e erra, pressupõe um criador menos perfeito. Esse é, portanto mais um grau de dúvida.

O filósofo segue sua obra afirmando que não é suficiente ainda, para seu objetivo, tal incredulidade, visto que a força rotineira de seus hábitos ainda pressionava-o a retornar às velhas opiniões. Descartes acreditava que essas opiniões não cessariam de parecerem verdadeiras, e por saber da natureza destes tais hábitos, permaneceria a duvidar, mesmo que em algum momento se enganasse, para que deste modo, mantivesse algum equilíbrio com os preconceitos e assim, passasse errasse o mínimo possível.

O outro grau de dúvida que surge na sequência é feito com a suposição de um gênio maligno, que seria um ser cuja finalidade é enganar o homem. Partindo disso, o filósofo supõe que todas as coisas que são externas não passam de ilusões feitas por esse gênio maligno, e supõe até mesmo que tudo o que compõe seu próprio corpo possa ser ilusão. Para se defender dessa laboriosa enganação, Descartes não se permitiu dar assentimento a nada falso, para que, por mais habilidoso e engenhoso que o enganador pudesse ser, nada pudesse lhe impor.

É partindo da ideia de uma divindade que o filósofo racionalista chegará a uma certeza que lhe garanta firmeza. Este processo tornou-se conhecido como: ego sum, ego existo. Depois de ter colocado os graus de dúvida na Primeira Meditação, Descartes se percebe em um estado de insegurança. Fez a remoção de tudo que pudesse comportar qualquer dúvida, com o propósito de reconhecer algo certo (ou incerto) pois, assim como Arquimedes, diz Descartes (p.37): “Basta um ponto firme e imóvel para mover toda a Terra”. É com tal obstinação que espera encontrar algo seguro para que possa então, estabelecer uma ciência igualmente segura. Assim, na Sessão 4 da Segunda Meditação, ele se perguntou se haveria alguma coisa diversa ao que se recebe pelos sentidos e se algum Deus não poderia ser responsável por seus pensamentos. Supor isso já é garantir pelo menos algo que receba dos pensamentos, uma vez que, se nos convencemos e pensamos, isso significa, ao menos que o eu existe. Logo, se há algo que é capaz de questionar, temos a garantia de que este algo é existente, por isso, “penso, logo existo” (cogito ergo sum).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

DESCARTES, Rene. Meditações sobre filosofia primeira. Campinas, SP: Ed. UNICAMP, 2004.

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