Ceticismo:

By Acervo Filosófico
Por: Juliana Vannucchi

   O Ceticismo é uma doutrina filosófica, surgida na Grécia em IV a.C, durante período helenístico. A primeira escola cética foi fundada por Pirro de Élis (365/60-275/70 a.C). A inspiração do filósofo para criá-la teria se originado de uma série de viagens feitas ao lado de Alexandre, o Grande, nas quais teria passado por países como Índia e Pérsia, e conhecido grandes sábios desses locais. Pirro não deixou nenhuma obra escrita e dentre as principais fontes do Ceticismo, encontram-se Diógenes Laércio, Cícero, Tímon e Sexto Empírico. Ao longo da história da filosofia, os principais representantes do Ceticismo, são Pirro (fundador da primeira escola cética, conforme já citado), Tímon de Filonte (díscupulo de Pirro – 320 – 230 a.C), Arcesilau (315-240 a.C), Carnéades (219-129 a.C), Enesidemo (século I d.C), Agripa (séculos I e II d.C) e Sexto Empírico (160-210 d.C).

Busto de Pirro, fundador da primeira escola cética.

  O principal aspecto do Ceticismo é a “epoché“, que significa suspensão do julgamento, ou seja, a valorização de uma postura de neutralidade do juízo diante de qualquer questão apresentada. Assim como ocorria com o Epicurismo e com o Estoicismo, a finalidade de tal postura era a busca pela ataraxia (imperturbabilidade da alma) e, portanto, a obtenção da ausência das inquietações, angústias e ansiedades. Os céticos acreditavam que na sempre haveria dois lados divergentes, de mesma validade argumentativa e de possibilidade numa determinada investigação e, por isso, não se deveria formar opinião sobre nenhuma delas, nem ter plena certeza de nada, tal como seria impossível se afirmar ou negar algo. Além da epoché, outro importante princípio do Ceticismo é a crença de que o mundo que experimentamos em nosso cotidiano é puramente fenomênico (isto é, aparente) e também por isso, não poderia haver evidências certas ou compreensão absoluta de nada, sendo que, portanto, para os céticos, vivemos num mundo caracterizado essencialmente pela incerteza. Consequentemente, esses filósofos mantinham-se sempre no âmbito da dúvida e da constante busca (chamada de skepsis), e não estabeleciam afirmações e tampouco negações: “(…) a investigação cética é, por definição, interminável, pois jamais levará a uma conclusão definitiva.” (BOTELHO, p.127, 2015).

   Sexto Empírico, na obra Hipoteposes, faz um esclarecimento válido de menção: o cético não rejeita aquilo que provém das impressões sensíveis, ou seja, do que sentidos fornecem, como, por exemplo, a sensação de frio ou calor. Porém: “(…) ele diz aquilo que lhe parece e relata o que sente de forma não-dogmática, sem afirmar nada de positivo sobre o que existe na realidade.” (EMPÍRICO, p. 118). Ainda no mesmo livro, mais adiante, fornece outro exemplo acerca da realidade sensível, ao afirmar que não sabe se o mel é realmente doce, mas apenas que lhe parece doce: “(…)  se é doce em si mesmo é algo questionável, pois não se trata mais de uma aparência, mas de um juízo sobre o aparente”. (EMPÍRICO, p. 119). Ou seja, será aquilo que sentimos e captamos, corresponde ao que tal objeto é de fato? Para os céticos,simplesmente não é possível tirar quaisquer conclusões que estejam além daquilo que se apresenta como mera aparência e qualquer tipo de conclusão sobre algo que está além da percepção cairá no dogmatismo, que foi fortemente combatido pelos céticos pirrônicos.

       Sexto Empírico, autor de Hipotiposes.

  É também válido mencionar que há uma divisão histórica e conceitual (embora não seja fatídica e haja certa controversa) em relação ao Ceticismo, dividindo-o em duas linhas: Pirrônico (desenvolvido por Pirro) e Acadêmico (desenvolvido por Carnéades), sendo este último mais radical do que o primeiro, por considerar que não existe nenhuma possibilidade segura, exata ou precisa de conhecimento das coisas, enquanto que o o pirrônico, por sua vez, não se posiciona de maneira radical, apenas suspende o juízo por considerar o conflito que surge entre duas proposições válidas e igualmente consideráveis surgidas na busca pelo conhecimento, de forma que, consequentemente, a busca dos pirrônicos é permanente, ao contrário dos acadêmicos que não precisam se empenhar em conhecer algo, uma vez que não acreditam na possibilidade de se atingir uma verdade ou resposta conclusiva. Assim sendo, embora alguns historiadores da filosofia considerem essa divisão apresentada, Sexto Empírico (um dos principais expoentes do pirronismo), na obra Hipoteposes, diferencia o dogmatismo (que seria taxativo em relação à verdade), o ceticismo (que mantém-se sempre no movimento da busca pela verdade) e o academicismo (que simplesmente nega que seja possível alcançar a verdade). A partir de tais considerações e divergências interpretativas, é sugerível que o leitor realize duas próprias pesquisas e leituras de obras filosóficas para estabelecer suas respectivas conclusões.

 

 

REFERÊNCIAS/FONTES/CONSULTAS:

BOTELHO, José. A Odisseia da Filosofia. São Paulo: Abril, 2015.

EMPÍRICO, Sexto. Hipoteposes Pirrônicas (Livro I).  Rio de Janeiro. Departamento de Filosofia da PUC.

FILHO, Danilo. O Ceticismo Antigo: Pirronismo e Nova Academia. Revista de Ciências Humanas – UFSC.

GARVEY, James, STANGROOM, Jeremy. A História da Filosofia. São Paulo: Editora Octavo, 2013. Tradução de Cristina Cupertino.

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