DIÁRIO DE UM SEDUTOR:

By Acervo Filosófico

Por Juliana Vannucchi

Um dos principais aspectos do pensamento do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, é a divisão da vida humana em três estágios: estético, ético e religioso. Estas fases, resumidamente, correspondem respectivamente ao prazer, dever e fé. O livro Diário De Um Sedutor foi escrito em relação ao primeiro aspecto mencionado, o estético. Nesta fase da existência, o filósofo sugere que o indivíduo encontra na satisfação e no belo o caminho para sua felicidade.

O Diário De Um Sedutor consiste numa narrativa descrita através das anotações do diário do protagonista e sedutor Johannes, e o foco da história é a maneira como ele seduziu uma jovem chamada Cordélia. Esta sedução, porém, não se restringe e tampouco possui cunho erótico, mas trata-se principalmente de um ato estético entre os personagens. Por “ato estético”, podemos, com base na obra, compreender uma minuciosidade de descrições da realidade, que são transcritas de maneira poética e captadas delicadamente pelas emoções humanas, sendo que estes atos são superiores do que o prazer sexual.

DIÁRIO DE UM SEDUTORLembremos que a palavra “estética” possui origem grega (aisthésis), e diz respeito à percepção/sensibilidade. Johannes, não somente se propõe a concretizar um romance com embasamento estético, mas também a tornar este o seu próprio modo de vida, pois ele busca perceber o cotidiano de maneira vívida e prazerosa, em seus mais mínimos e sutis detalhes, observando cada ato ao seu redor: a maneira como as pessoas se movem, como se alimentam, como agem, etc. Ele buscava enxergar no mundo, um outro mundo oculto por trás da naturalidade, e que fosse, este novo lugar, iluminado por uma aura artística repleta de harmonia e experiências satisfatórias. Para que isto fique mais claro, vejamos alguns trechos extraídos das primeiras páginas do livro: A sua vida foi uma tentativa constante para realizar a tarefa de viver poeticamente. Dotado de uma capacidade extremamente evoluída para descobrir o que de interessante existe na vida, soube encontrá-lo em tendo encontrado, soube sempre exprimir o que vivera com uma veia quase poética (…) resultando de possuir ele, na sua pessoa, uma natureza poética que não era, se o quiserem, nem suficientemente rica, nem suficientemente pobre para distinguir entre poesia e realidade. O tom poético era o excedente fornecido por ele próprio (…) primeiro gozava pessoalmente a estética, após o que gozava esteticamente a sua personalidade. Gozava pois, egoisticamente, ele próprio, o que a realidade lhe oferecia, bem como aquilo com que fecundava essa realidade; no segundo caso, a sua personalidade deixava de agir, e gozava a situação, e ela própria na situação. (KIERKEGAARD, 1979, p. 4).

Dessa forma, os mais profundos deleites do protagonista estão nos mais simples atos de sua amada vítima Cordélia, e em seus mais discretos traços por ele observados e apreciados.  O ato da sedução mostra-se presente pela maneira tênue através da qual Johannes aproxima-se da jovem, sempre planejando em pormenores cada uma de suas atitudes para com Cordélia, desde a maneira como irá sorrir para ela, até fará com ela se apaixone perdidamente por ele. O livro é fundamental para compreensão do pensamento de Kierkegaard, e possui notável beleza literária.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

KIERKGAARD, Soren. Diário de um Sedutor. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

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