ENTREVISTA COM LUAN CORRÊA DA SILVA:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.” – Shakespeare, Hamlet.

Luan Corrêa da Silva é Doutor em Filosofia pela UFSC, atualmente é Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UECE e Pós-doutorando PNPD/CAPES.

1. Luan, recentemente você participou do “VIII Colóquio Internacional Schopenhauer”, ocorrido em Curitiba. Poderia nos contar um pouco sobre esse evento? 

O Schopenhauer International Colloquium talvez seja, hoje, o maior evento de estudos sobre Schopenhauer do mundo. Isso ficou bastante claro na mesa de abertura da oitava edição evento, em Curitiba, há dois meses. Foi o próprio Matthias Koßler, presidente da Schopenhauer-Gesellschaft (Sociedade Schopenhauer), quem reconheceu a alta relevância da seção brasileira, a Sociedade Schopenhauer do Brasil, no que tange à produção e divulgação de trabalhos acadêmicos sobre o filósofo alemão. O VIII Colóquio Internacional Schopenhauer, em Curitiba, foi organizado pelo amigo Prof. Dr. Vilmar Debona e pelo cuidadoso Prof. Dr. Edmilson Paschoal, e contou com um número recorde de inscrições para comunicações, o que para nós, que já acompanhamos os ciclos de eventos há algum tempo, é muito tocante. Viu-se repercutir, não apenas as pesquisas já bastante aprofundadas dos palestrantes convidados, mas também as fascinantes propostas de graduandos e pós-graduandos, muitos deles vindos de longe para dialogar e aprender com os demais entusiastas.

2. De quantas edições você já participou e quais foram, respectivamente, os títulos apresentados? 

A minha estreia no Colloquium foi em 2011, na sua quinta edição ocorrida em Florianópolis, onde eu morava e começava o mestrado. Tive a honra de participar da organização do evento, juntamente com o Prof. Dr. Jair Barboza, meu então orientador, e o Prof. Dr. Leo Staudt, quem me despertou a curiosidade pela “metafísica do belo” de Schopenhauer. No mestrado, eu havia acabado de submeter um projeto acerca da “metafísica da música”, tema com o qual me ocupo até hoje, embora não mais tão detidamente. No V Colóquio Internacional Schopenhauer, apresentei a comunicação “Richard Wagner e a filosofia de Schopenhauer”, com a intenção de delimitar alguns aspectos da recepção de algumas ideias de Schopenhauer em um escrito maduro de Richard Wagner, o Festschrift “Beethoven”. Em 2013, quando ocorre a sexta edição do evento, em Fortaleza, eu havia acabado de submeter meu projeto de doutorado ainda sobre a questão da música. Mas a leitura de um pequeno trecho, enigmático, que encerra o Cap. 47 dos chamados Suplementos de O mundo como vontade e como representação, me prendia a atenção, pois reunia “compaixão”, “amor sexual” e “magia” em um único conceito, “simpatia”, sem desenvolver esta conexão. Como uma espécie de código a ser decifrado, aquele trecho parecia ter sido inserido propositalmente sem desenvolvimento, desenvolvimento este que eu, já imerso na mística schopenhaueriana, encarreguei-me de explicitar a partir da comunicação “Schopenhauer: magia, visão de espíritos e a possibilidade de uma identidade metafísica dos fenômenos a partir do conceito de simpatia”, apresentada no VI Colóquio Internacional. Este calhou de ser, por força do tema, o objeto de minha tese de doutorado, defendida no início de 2017. Em 2015, não pude participar do VII Colóquio Internacional, mas em 2017, recentemente, fui convidado, como palestrante, para falar sobre “Schopenhauer e a Magia”, assunto de um dos capítulos de minha tese. Na tese, apresento dois fascinantes textos de Schopenhauer ainda muito pouco explorados: um capítulo de Sobre a vontade na natureza intitulado “Magnetismo animal e Magia”, e outro, capítulo dos Parerga e Paralipomena, chamado “Ensaio sobre a visão de espíritos e o que se relaciona com ela”. O primeiro já conta com uma tradução para o português, pela L&M Pocket, traduzido pelo amigo Gabriel Valladão Silva.

3. Quando e como foi o seu primeiro contato com a filosofia de Schopenhauer? O que, em especial, te atrai no filósofo alemão? 

De todo o espectro de qualidades que podemos encontrar na filosofia de Schopenhauer, talvez aquela que mais tenha me chamado a atenção seja a postura radicalmente crítica em relação ao mundo. Antes de tudo, o fato do filósofo ter levado a sério a tese kantiana da distinção entre “fenômeno” e “coisa em si”, que está longe de se restringir à discussão técnica. Schopenhauer vai longe, a ponto de reconhecer essa distinção antes mesmo que ela pudesse ter sido formulada, quando afirma, por exemplo, que o sentido da distinção (originalmente idealista, portanto moderna) pode ser reconhecida nos diálogos platônicos ou no pensamento hindu. Conservando-se as especificidades teóricas de Platão, Kant, e o pensamento hindu, o importante da diferença entre coisa em si/essência e fenômeno/aparência reside no fato vivenciável e reflexível de que há muito mais coisas na terra além daquelas que podemos explicar por meio do raciocínio fundamento-consequência. Significa dizer que estamos rodeados por um mar de incompreensibilidades, pelo qual a filosofia talvez nunca ofereça um passeio seguro. Esse outro aspecto do pessimismo schopenhaueriano, o filosófico em sentido estrito (além do ético-metafísico, do sofrimento como condição inexorável da existência), pode ser interpretado a partir de um ponto de vista libertador: o remédio para os problemas filosóficos pode não ser encontrado na filosofia, enquanto discurso especulativo (speculum é em latim “espelho”, uma imagem bastante adequada ao que Schopenhauer entende por filosofia, um “espelhamento em conceitos da realidade”). A filosofia, nesse sentido, apenas apresenta os problemas, ou “sintomas”, do mundo, por meio dos conceitos (como uma imagem em uma radiografia), mas precisa apontar para um domínio exterior a ela se pretende alcançar alguma solução.

4. No Colóquio de 2017, você expôs uma pesquisa intitulada “Schopenhauer e a Magia”. Poderia nos contar um pouco sobre essa pesquisa? 

Este tema se insere em minha pesquisa de doutorado, defendida em 2017, cujo título é “Metafísica prática em Schopenhauer”. De maneira geral, pode-se dizer que o meu objetivo era compreender o lugar do sobrenatural na filosofia de Schopenhauer. O próprio filósofo faz uso da expressão “metafísica prática” no contexto da magia. Sim, o Schopenhauer possui um capítulo de sua obra intitulado “Magnetismo animal e magia”, está em Sobre a vontade na natureza (1836). Além dele, outro que mencionei, intitulado “Sobre a visão de espíritos”, que está nos Parerga e Paralipomena (1851), em que a expressão “metafísica prática” reaparece. Resumidamente, a “metafísica prática” é uma espécie de correlato prático da “metafísica teórica” que é expressa no discurso filosófico, ou seja, aquilo que é desenvolvido em O mundo como vontade e como representação. Dizer que existe uma correlação prática, ou mesmo experimental (assim também denomina Schopenhauer essa metafísica prática) para a filosofia, significa dizer que existe um tipo de comprovação atestável empiricamente da tese que afirma a unidade da essência, que subjaz a pluralidade das aparências, das experiências, dos fenômenos. Existiria, assim, uma simpatia interna aos indivíduos que compõem essa pluralidade que permitiria uma espécie de reconhecimento, um contato, da ordem do oculto e do invisível. Ora, precisamente essa é a prerrogativa da magia, desde os tempos mais remotos, a de evidenciar um tipo de conexão entre os fenômenos que não é apreensível por meios sensíveis, visuais, por exemplo. Por essa razão, frequentemente se define a magia como “ação à distância”, e também por isso a magia é o paradigma a partir do qual toda a Ciência pode se afirmar no sentido completamente oposto.

5. Ao que me parece (embora não seja justo generalizar), existe certa resistência ou até mesmo recusa acadêmica em relação ao sobrenatural. Como você percebe esse fato? O que pensa a respeito?

Boa parte da resistência das pessoas (cientistas e não cientistas) em relação à possibilidade do sobrenatural tem origem em um clima de ceticismo que inaugura o pensamento moderno, sobretudo a partir do século XVII. O estabelecimento de um método comum para as ciências, e o desenvolvimento da chamada Ciência moderna, conferiu uma credibilidade ao conhecimento objetivo e observável que até hoje parece difícil de questionar. Todavia há algo de mais profundo no que diz respeito a essa incredulidade em relação aos fenômenos sobrenaturais, e máxima baconiana “conhecimento é poder” é tanto o veneno quanto o antídoto dessa atitude. A partir do século XX, fortalece-se a ideia de que por detrás de todo conhecimento aceito como modelo de explicação da realidade existe um poder que determina o nível de aceitação desse conhecimento. Esse poder, ligado a interesses políticos, econômicos, históricos, etc., elimina, em sua dinâmica, a possibilidade de explicações concorrentes, e impede, por sua natureza autoritária e hegemônica, também toda a possibilidade do sobrenatural. Em seu sentido social, a expressão “sobrenatural” indica, portanto, todo conhecimento que escapa a possibilidade de sua compreensão a partir dos conhecimentos vigentes em determinada sociedade. O crítico do pensamento acerca da ciência moderna, como é Schopenhauer, conclui com Bacon, não a exploração desenfreada da natureza para serventia do cientista, mas sim a falibilidade da pretensão da Ciência moderna em substituir as práticas e conhecimentos não oficiais.

6. Até que ponto e como podemos relacionar a filosofia com o sobrenatural, uma vez que a primeira, de uma forma ou de outra, apoia-se na razão e a segunda, por sua vez, se afasta do racional?

Se, por um lado, o sobrenatural possui uma definição social, em oposição à ciência e à religião, ou seja, em oposição ao conhecimento hegemônico, por outro, defendo um sentido filosófico, o qual particularmente me interessa, para esse termo. “Sobrenatural” diz respeito ao que está “além da natureza”, precisamente um dos sentidos adotados pela expressão “metafísica”, de origem grega, que, literalmente, indica também um “meta/além da “physis/natureza”. Outra expressão utilizada é “paranormal”, que equivale ao mesmo sentido “de “metafísica”. Digo isso para mostrar o quão o discurso filosófico já apela, muitas vezes, a um domínio sobrenatural e oculto da experiência sem se dar conta disso. Ademais, muitos conceitos filosóficos como “intuição”, “contemplação”, “desvelamento”, e até mesmo “verdade”, carregam em si pensamentos dignos dos manuais mais sombrios de magia. Quando Schopenhauer diz que “estamos rodeados por um mar de incompreensibilidades”, ele está sendo rigorosamente um filósofo, que é capaz de se espantar com os fenômenos mais simples e inofensivos da vida, como é a germinação de uma semente. Sim, existe algo de mágico em tudo, é o seu ensinamento final.

7. Em sua pesquisa, há uma menção sobre a afinidade de Schopenhauer para com a Homeopatia. Poderia comentar um pouco sobre isso? 

Este aspecto é particularmente interessante, e talvez aquele que melhor encontre interlocução com a atualidade, no que se refere ao tema da magia. Quando falamos em “alopatia” e, seu contrário, a “homeopatia”, estão em jogo dois princípios de cura: um segundo o qual a restituição do organismo parte dele mesmo, no uso de suas próprias forças, a partir de uma intervenção familiar à da substância causadora da doença (“homeopatia” em grego resulta da junção de “homo/mesmo” e “pathos/ doença”), enquanto que na “alopatia”, metodologia usual pela medicina oficial, a cura ocorre a partir de uma intervenção estranha à doença (“alopatia” remete etimologicamente à junção de “allos/diferente” e “pathos/doença”). Grosso modo, pode-se dizer que no primeiro caso o foco é o reestabelecimento do organismo a partir das causas de uma doença, enquanto que no segundo caso o foco é o controle dos efeitos, ou sintomas, por meio de medicamentos: quando o problema é a inflamação, a solução é um anti-inflamatório, quando problema é a depressão, a solução é o antidepressivo. O debate, no meio científico, acerca desses dois princípios norteadores das ciências médicas, rende, até hoje, calorosas discussões (veja, por exemplo, o interessante debate travado em 2017 entre os pesquisadores Clarice Vaz de Oliveira, Beny Spira e Lucas Franco Pacheco, que pode ser acessado pelos seguintes links: http://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/ensino-de-homeopatia-veterinaria-e-deficiente-afirma-pesquisadora/ ; http://jornal.usp.br/artigos/a-homeopatia-e-uma-farsa-criminosa/ ; http://doutorlucashomeopatia.com.br/2017/05/17/resposta-geneticista-da-usp-homeopatia-funciona/ ; http://jornal.usp.br/artigos/uma-resposta-da-homeopatia-a-beny-spira/ ). Conforme eu comento em meu artigo Schopenhauer e a magia, publicado na Revista Voluntas, Schopenhauer declara-se filiado à homeopatia, na medida em que acredita ser a mesma vontade, em um indivíduo, tanto o motor das doenças quanto o de suas curas, mas não deixa de fazer a ressalva de que sua filiação à homeopatia não implica, necessariamente, no abandono da alopatia, senão a adoção de uma postura crítica em relação às suas práticas.

8. Penso que, assim como a magia, a Homeopatia também é constante alvo de críticas negativas e rejeições por parte da comunidade acadêmica/científica. Qual seria a justificativa para isso?

Em primeiro lugar porque a Homeopatia, como boa parte das práticas de cura chamadas de alternativas, desobedecem, em geral, dois pressupostos fundamentais que norteiam a atividade do cientista moderno: a objetividade lógica (e metodológica) e a objetividade empírica (de observação) dos seus fenômenos. Ainda que esse modelo de cientista não seja ingênuo a ponto de acreditar na absoluta realidade de sua observação empírica (essa questão sequer se coloca), a observação e o estabelecimento de uma metodologia de comprovação de hipóteses parecem pressupostos invioláveis em seu labor. Ocorre que a eficácia de boa parte das práticas alternativas muitas vezes escapa a possibilidade de uma prova empírica nos moldes das ciências, diminuindo a crença nos seus resultados. Segundo constata Schopenhauer, parece ser justamente a crença envolvida na eficácia dos resultados da magia o fator mais determinante na eficácia dos seus resultados, de modo que “se muitos agissem conjuntamente em um poder mágico, a natureza poderia ser transformada em paraíso”. Mais interessante ainda é aplicar este raciocínio na dinâmica de convencimentos das ciências: nossas convicções às vezes são tão alheias às provas típicas das ciências, que eventualmente até mesmo a certeza de que “a terra não é plana” pode ser alvo de desconfianças.

9. Em seu artigo, constantemente você menciona a respeito de Mesmer, cujas práticas foram encaradas por Schopenhauer como uma prova da existência e expressão da Vontade. Como Mesmer era visto no cenário europeu quando começou a praticar suas curas e como ele é visto atualmente?

Ilustração de Mesmer magnetizando uma paciente.

Franz Anton Mesmer é o criador da prática de cura conhecida como “magnetismo animal”, ou simplesmente “mesmerismo”. O pressuposto de Mesmer, defendido em sua tese de doutorado, era o de que haveria uma interação entre os corpos animais análoga àquela dos corpos celestes entre si, que faz com que, por exemplo, o posicionamento dos astros influenciem no fluxo e refluxo das marés terrestres. Também os corpos animais (aos quais se incluem o humano) estariam alheios a desequilíbrios do fluxo do que Mesmer chamava de “fluido vital”. Assim, as doenças, como enxaqueca ou epilepsia, consistiriam em uma contenção ou evasão do fluido vital em um determinado organismo. Mesmer funcionava como uma espécie de “fio terra” para os doentes, possibilitando a restituição do fluido vital dos seus pacientes. Inicialmente Mesmer levava a analogia a sério, e se utilizava de barras de ferro para executar a cura, mas com o tempo foi se dando conta, em suas pesquisas, de que a barra de ferro poderia ser, a rigor, substituída por outros equipamentos e, até mesmo, pelo mero “passe”, o toque, ou a sugestão verbal. Neste momento é que Schopenhauer identifica o verdadeiro agente do magnetismo animal: a crença no magnetiseur, o magnetizador. Segundo Schopenhauer, a crença no agente magnético e, por consequência, na eficácia do procedimento, permitiria um afrouxamento de nossas capacidades racionais, restritivas, criando uma espécie de vaso comunicador entre a vontade individual e a vontade universal, com o que o impossível se tornaria possível. Mesmer foi muito bem recebido pelo Espiritismo e pela Psicologia moderna, e ajudou a desenvolver a prática da hipnose, hoje reconhecida no âmbito da Ciência oficial. Mas em seu tempo sofreu processos da Academia francesa, além do descrédito na medicina, apesar do seu enorme sucesso popular, e dos inúmeros registros de cura por ele efetuadas.

10. Qual é a importância de se estudar e/ou expor o tema “Schopenhauer e a Magia”? 

Estou convicto de que o objetivo de Schopenhauer ao falar da magia é não apenas, embora também seja, a crítica das pretensões absolutizantes e ingênuas da Ciência moderna, na tentativa de frear uma nova inquisição que agora ocorreria nas academias. O objetivo de Schopenhauer também não era o de provar a existência de fenômenos sobrenaturais, pois tampouco as provas lhe diziam respeito. Seu objetivo, sim, era o de mostrar quão sobrenaturais podem ser os eventos já existentes cotidianamente no mundo, e revelar o quão próximas estão as riquezas que a humanidade aprendeu desde cedo a procurar para além das nuvens.

11. Gostaria de aproveitar a oportunidade para explorar a questão estética. Qual é o significado do gênio para Schopenhauer? Podemos dizer que qualquer indivíduo possui certo grau de genialidade, ou tal característica é um dom pertencente a poucos?

Schopenhauer responderia afirmativamente a ambas as questões. A genialidade, do seu ponto de vista, é tão rara quanto cotidiana, pois poucas vezes atinge graus suficientes para a produção artística. Apesar disso, diz o filósofo, “todos possuem um grau de genialidade”, que permite a qualquer um a capacidade de, pelo menos, admirar aquelas raras obras dos grandes gênios da humanidade, os grandes artistas.

12. Para Schopenhauer, existe diferença entre “Belo” e “bonito”. Poderia explicar um pouco sobre as divergências entre tais termos?

A Estética desenvolveu-se, desde Baumgarten, destilando a beleza do pensamento filosófico, de modo a encontrar, finalmente, um lugar próprio entre as discussões mais nobres. Finalmente em Kant, a reflexão filosófica passou a conceber o “belo” ele mesmo, independente de quaisquer interferências de outras experiências humanas. Isso chegou a um nível tão elevado de destilação da beleza que o seu ajuizamento passou a se definir a partir de seu “desinteresse” estético, isto é, desvinculou-se de quaisquer juízos que não dissessem respeito unicamente à experiência da beleza. Com base nesse raciocínio, Kant desconfiava dos juízos estéticos de beleza emitidos diante dos corpos excitantes, de frutas e alimentos, dentre outros, pois eles estimulariam, por assim dizer, outros interesses que não o do mero ajuizamento do belo. Também Schopenhauer é herdeiro dessa concepção, denomina o sujeito da contemplação estética de “puro sujeito de conhecimento destituído de vontade”, e o objeto contemplado de “Ideia”, em sentido platônico, isto é, forma eterna, imutável, arquétipo não sensível (pelos sentidos corpóreos) da realidade sensível.

13. Por fim, para Schopenhauer, qual é o papel da arte no mundo?

Eu diria que “democratizar o conhecimento”. Quando pensamos em “estética” ou em “arte”, em geral, estamos atentos às impressões que um objeto estético ou artístico provoca no espectador, isto é, no efeito psico-fisiológico da impressão estética. Para Schopenhauer o efeito possui uma origem epistemológica, ligada ao conhecimento puro das Ideias. As Ideias, platônicas, são os arquétipos da realidade empírica do mundo, os atos mais originários da vontade, objetos mais imediatos da coisa em si, ou seja, a realidade em sua condição de maior pureza, maior clareza. A arte é um meio privilegiado para o conhecimento das Ideias porque lida com um tipo de conhecimento que prescinde das formas condicionantes do Princípio de razão, isto é, “tempo”, “espaço” e da “causalidade”, e por isso permite um acesso mais direto ao real, em todos os seus aspectos. Não seria essa, afinal, uma maneira de democratização do conhecimento?

14. Como você percebe o estudo, interesse e pesquisas das obras de Schopenhauer no atual cenário brasileiro?

A pesquisa acadêmica sobre a filosofia de Schopenhauer no Brasil tem crescido de forma muito qualificada. Tenho acompanhado em eventos e através dos trabalhos e publicações dos alunos, e percebo que já precisamos de algo mais que uma Kombi para transportar esses pesquisadores (me refiro a uma piada que ouvi certa vez do amigo Ruy de Carvalho, reconhecido pesquisador de Schopenhauer, quando se referia ao número de schopenhauerianos). A comunidade de pesquisadores brasileiros de Schopenhauer já é reconhecida mundialmente, e, como eu disse, já promove um dos maiores e mais relevantes eventos sobre a filosofia de Schopenhauer do mundo. Espero, pessoalmente, que este número só aumente, e que em breve tenhamos ótimos trabalhos em circulação nos ambientes acadêmicos de filosofia, a despeito do insucesso de Schopenhauer nas academias de seu tempo.

15. Para finalizar, por favor, compartilhe conosco uma frase que tenha marcado sua vida (pode, ou não, estar relacionada com Filosofia).

Schopenhauer ensinou-me a atribuir um valor maior ao famoso dito de Shakespeare: There are more things in Heaven and Earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy (Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia).  (Shakespeare, Hamlet)

Perguntas colaborativas enviadas por leitores do site:

1. Gostaria que o entrevistado desse sua opinião sobre o Saggio sulla visione degli spiriti. (por: Yuri Motta, Marília/SP).

Yuri, este é, certamente, um dos textos mais fascinantes de Schopenhauer, por diversas razões, e algumas delas eu até já expus aqui nesta entrevista. O escrito se chama “Sobre a visão de espíritos e o que se relaciona com ela” (Versuch über das Geistersehn und was damit zusammenhängt), e apresenta uma interessante explicação para as visões de espíritos a partir de sua filosofia, com base em uma investigação acerca dos sonhos. Depois de uma análise detida aos tipos de sonhos, Schopenhauer mostra como estes fenômenos relacionados às visões de espíritos poderiam ser possíveis por meio de um afrouxamento da razão em vigília análogo ao que acontece nos períodos de sono, em que a redução das funções vitais permitiria, por assim dizer, um acesso mais profundo ao âmago de nossa consciência. Recomendo muito a leitura!

2. No sentimento do belo “… o predomínio do conhecimento puro se exerce sem luta, a beleza do objeto, isto é, sua constituição, facilitando o conhecimento de sua ideia, afastando a vontade e o conhecimento das relações que coroam seus serviços sem oposição…” Já no sentimento de sublime “… o conhecimento puro é conquistado primeiramente por meio de uma libertação violenta das relações do objeto com a vontade reconhecidas como desfavoráveis, por meio de uma elevação livre e consciente acima da vontade e do conhecimento a ela referido…”. Gostaria que explicasse melhor a diferença entre os dois. (por: Karolina, São Tomé das Letras/MG).

O Naufrágio (1805), William Turner.

Karolina, imagine que você está em um museu, diante do quadro “Naufrágio” de William Turner, contemplando a potência da natureza que coloca seus tripulantes e passageiros em perigo. Agora imagine se você é quem está na cena, em meio aquele desespero. Conseguiria contemplar a cena com a mesma facilidade?  Diferentemente do belo, o sublime parece sempre nos chamar para uma experiência limite entre a segurança do contemplador sereno e a tensão diante de um evento grandioso ou perigoso, e esse limite diz respeito à capacidade de se conseguir contemplar essas cenas sem sucumbir pelo horror ou pelo medo. Em termos musicais, é a diferença entre sentir o imediato e doce efeito dos sons de uma melodia de um violino, sem, no entanto, ser a própria corda esticada que responde a gritos a brutalidade do arco que lhe rasga ao meio.

3. Um tema que acho bem intrigante em Schopenhauer e que estou começando a estudar são os sonhos premonitórios. Você poderia discorrer um pouco respeito deste tópico? Muito obrigada! (por: Sílvia Vannucchi, Sorocaba/SP).

Schopenhauer acreditava em sonhos premonitórios e relata alguns episódios em que ele teve essa experiência. Em um desses episódios, Schopenhauer conta que havia sonhado com um amigo de infância, morto aos 10 anos, que, todavia, reaparecia neste sonho já adulto. Schopenhauer chama a atenção para o fato de que havia muito tempo que não lembrava desse “companheiro de brinquedos”, morto ainda na infância, e que este homem, já adulto se identificava pelo nome de seu amigo e lhe dava boas-vindas a um campo totalmente desconhecido. Pouco tempo depois a cólera invade a Alemanha e Schopenhauer decide deixar Berlim, ao rememorar daquele sonho, julgando ser um presságio. Ironicamente, lhe é noticiada a morte de Hegel três meses depois, vítima da terrível epidemia. Este e outros fatos fazem Schopenhauer desenvolver uma teoria dos sonhos, compatível com sua filosofia, que explica a possibilidade dos sonhos premonitórios, mas também outros fenômenos sobrenaturais, como a visão de espíritos, a telepatia, etc. A base dessa teoria reside na relação da realidade na vigília com a realidade no sono: segundo ele, a realidade é um livro que, quando em vigília, é folheado ordenadamente, página por página, mas quando no sono, pode ser folheado sem ordem, avançar a uma página muito a frente, como também páginas atrás, sem qualquer compromisso cronológico. Assim, sonhos premonitórios seriam como que páginas avançadas, da mesma forma que os sonhos com antepassados ou parentes mortos seriam como folhear as páginas já lidas.

4. Eu queria perguntar a respeito do pessimismo: por que Schopenhauer é considerado um filósofo pessimista, embora ele ofereça fugas para isso (como, por exemplo, a música, que consiste num escape – ainda que temporário – das angústias)? (por: Gabriel Marinho, São João de Meriti/RJ).

Penso que esses rótulos de “pessimista” ou “otimista” apenas funcionam relativamente, ou seja, Schopenhauer só pode ser considerado um pessimista relativamente a um filósofo otimista. Ora, só pode ser pessimismo acreditar que a vida é sofrimento para quem acredita poder ser a vida um mar de rosas, não é mesmo? Para quem não acredita que a vida possa ser muito mais do que uma luta constante pela sobrevivência e satisfação dos desejos, a visão filosófica de Schopenhauer é, antes, realista. Apenas diante dos otimistas, a quem Schopenhauer faz questão de se opor, a sua filosofia pode ser considerada pessimista, pois este rótulo carrega sempre, inconscientemente, a esperança de um mundo que poderia ser melhor – como se o filósofo fosse capaz de interferir nisso. Será que consegue? – De qualquer modo, mesmo sendo essa filosofia demasiado realista, ela não nos poupa de certos momentos de alívio e de recreio, é o caso da arte. Quem acompanha as trágicas descrições existencialistas de Schopenhauer sobre o quão melhor seria não ter nascido, se espanta ao ler as encantadoras descrições acerca das experiências com a bela natureza e com as belas artes. 

5. O mundo de cada indivíduo resume-se em suas representações? (por: Alessandro Oliviei, Tatuí/SP).

A proposta defendida por Schopenhauer é a de que o mundo se apresenta para cada indivíduo enquanto representação, a partir das formas que constituem nosso modo de apreensão da realidade, mas também se apresenta enquanto vontade, por meio de outro tipo de conhecimento, ligado à direção interior, e não ao exterior, da consciência. O mundo como representação e o mundo como vontade são as duas faces de um mesmo mundo, mas revelam aspectos irredutíveis da realidade que promovem um conflito constante em diversos níveis de experiência: da ciência à arte, da ética à mística.

6. Como a filosofia de Platão repercute em Schopenhauer, o que os aproxima e o que os distancia? (por: Pedro Bracciali, Itu/SP).

Uma resposta adequada a essa questão demandaria uma pesquisa mais qualificada a respeito da influência do platonismo em Schopenhauer. O próprio Schopenhauer é quem pressupõe o conhecimento prévio da filosofia de Platão já no primeiro Prefácio ao Mundo como vontade e como representação, juntamente com a filosofia de Kant e o pensamento dos Vedas. Resumidamente, Schopenhauer atribui a Platão a distinção metafísica entre “essência” e “aparência”, bem como a teoria das Ideias, fundamento da “metafísica do belo”. Mas também a doutrina da “palingenesia”, uma correção à teoria da metempsicose platônica, presta tributo a Platão, bem como a conhecida concepção do amor (Eros), que Platão desenvolve no Banquete e no Fedro, que exerceu forte influência na concepção de Schopenhauer do amor sexual.

Apoio: Alessandro Olivieri.

Agradecimentos especiais: Luan Corrêa da Silva e todos os leitores que contribuíram enviando perguntas complementares.

Link para os trabalhos de Luan:

https://uece.academia.edu/LuanCorr%C3%

 Category: ESPECIAIS

Related articles

Leave a Reply