ENTREVISTA: João Lira, vice diretor da escola indígena de Iguape:

By Acervo Filosófico
  1. Em seu dia-a-dia, o que você ainda mantém da tradição indígena, e quanto a cultura provinda da civilização te afeta?

   A nossa rotina em aldeia é falada somente na língua materna guarani, tanto entre as crianças e adultos. Todas as noites frequentamos a casa de reza, cantando e dançando. O que nos influencia da cultura dominante são aspectos da alimentação e uso aparelhos tecnológicos, como celulares e TVs.

  1. Qual é a importância de se manter vivos os hábitos indígenas?

   A importância de manter vivos os hábitos e as tradições serve para manutenção da cultura indígena, pois os mais jovens das comunidades precisam continuar praticando as suas raízes, suas línguas e suas crenças, porque é nisto que constitui a identidade de um povo.

  1. Poderia relatar um pouco sobre a história da tribo na cidade de Iguape?

     Itapuã, tradução da palavra a “pedra fincada”. Em 2005, a área foi ocupada pela primeira vez por uma família cujo chefe era o Acidio, e no ano de 2007 a família do Marcílio, o atual cacique, chegou no local e o Acidio mudou-se para o Bairro Icapara, local onde mora até os dias de hoje com a sua família. Na aldeia Itapuã, hoje, há 16 famílias e no total 75 pessoas, além de 16 casas, um postinho de saúde e a escola. Lá, há energia elétrica, mas não há água encanada e nem banheiros. A comunidade é muito carente e a maior parte das famílias não possui renda. Algumas ganham o “Bolsa Família”, programa do Governo Federal. As comunidades vivem da agricultura de subsistência, e da venda de artesanato, como palmito e plantas como orquídeas, que geralmente são vendidos nas feiras livres ou em outros locais venda, como na beira de estrada, ponto em que fazem a exposição de trabalhos. O meio ambiente da aldeia é bem preservado! Há muita mata e caças como, por exemplo, paca tatu, ouriço, porco-do-mato, queixada, bugio, jacu e cutia. E encontra-se muito material para artesanato como taquara, cipó-em-be,  embira e etc.

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  1. Acha que o governo brasileiro, em geral, da aos índios a devida importância?

   Acredito que a importância da existência dos povos indígena em geral e pela preservação da natureza é pela vida, os maiores centros de área coberta de verde ainda se encontram em terras indígena. Na visão dos governantes, os indígenas são empecilho ao desenvolvimento e ao progresso, principalmente quando se possui interesse em construir grandes hidrelétricas, pois o considera-se importante o bem da maioria da população brasileira e, nesse caso, não se dá o devido valor às comunidade indígenas. Pode expulsar-nos das suas aldeias e inundar grandes áreas de mata… Etc.

  1. Poderia comentar um pouco sobre as crenças de sua tribo?Como vocês interpretam o mundo?

   Para nós tudo na natureza está interligado. Na visão indígena nós pertencemos a Ela, por isso os indígenas respeitam muito a natureza. Para cortar madeira, por exemplo, tem que ser na lua certa para não criar blocas.  Acreditamos que todos os biomas possuem os seus deuses protetores, então para atividades como caça ou banhos em cachoeiras, é preciso pedir permissão aos seus deuses… Geralmente os indígenas não são materialistas, pois o valor mais importante é a vida no meio ambiente, onde viver não consiste em acumular a riqueza de bens materiais, e a única herança para os índios é deixar a natureza intacta para geração futura. A mesma terra que me alimentou irá alimentar os meus filhos…

  1. Vocês praticam algum tipo de ritual religioso? Se sim, como é?

    O ritual religioso que os guarani mbya praticam até hoje, consiste no batismo para receber o nome indígena. Acontece todo ano, geralmente no mês de janeiro. No calendário indígena guarani o ano se divide dois períodos: tempo frio (ara ymã) e tempo quente (ara pyau), e as crianças são batizadas no ara pyau, mas apenas depois de completar dois anos…

  1. Como você acredita que será o futuro dos índios no Brasil?

 O futuro é muito incerto para os índios brasileiros. A primeira questão a ser considerada é a ameaça à existência do povo e comunidade indígenas e o PEC 215, um projeto de emenda constitucional, no qual a lei prevê que as demarcações futuras irão  passar pelo congresso nacional, onde os deputados poderão aprovar ou não. As terras já demarcadas não poderão ser revisadas, mas não dizem se é para ampliar ou diminui. Até o momento, quem homologa terras indígenas, é o Presidente da República. O PEC está parado por enquanto, mas já havia passado pela comissão especial…

  1. Sua tribo possui contato com outras de diferentes localidades? Existe ou já existiu alguma rivalidade?

  Antigamente havia muita rivalidade entre etnias, mas na atualidade isso mudou muito por questão da necessidade de se fazer união para podermos lutar pelos nosso direito, em busca de um bem comum para todos nós. Aqui no estado de São Paulo há 5 etnias aldeadas. São estas: Guarani Mbya,Terena, Kaingang, Krenak e Tupi-Guarani. Todas se comunicam entre si, além de realizarem intercâmbio cultural. Há também outros grupo étnicos nos centros urbanos da cidade de São Paulo.

  1. Gostaria que nos relatasse um pouco sobre sua língua nativa…

O tronco linguístico que o guarani mbya fala é o Tupi-Guarani. O povo guarani possui 3 subgrupos, que são: Guarani Mbya, Guarani Nhandeva e Guarani Kaiowa. E há também vários outros povos que falam a língua Tupi.

  1. Você acredita que sociedade não-indigena, possui alguns costume herdados pelos índios?É possível notar?

Sim. O banho diário, por exemplo. Quando os europeus chegaram ao Brasil, avistaram os indígenas sem roupas banhando-se nos rios, e ficaram assustados com esse comportamento. Da mesma maneira os índios se assustaram quando viram os homens barbudos, todos vestidos e cheirando mal. Imagina pessoas passarem meses no mar, sem banhos e trocas de roupa? Historicamente, sabemos, que os banhos não são parte da cultura dos europeus. Tanto é verdade que a França produz melhores perfumes! Além disso, na alimentação e no consumo de raízes também influenciamos, por exemplo: a mandioca, a batata-doce, o churrasco no sul e o chimarrão, são todos heranças indígenas.

 

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 Category: ENTREVISTAS

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