ESTUPRO – Reflexões sobre uma realidade cotidiana:

By Acervo Filosófico

Por Paulo Pedroso

É uma dura realidade, mas a violência sexual é parte do cotidiano dos brasileiros e inúmeras pesquisas apontam dados alarmantes este assunto, umas mais outras menos, dependendo de quem “encomendou” a pesquisa e de como ela foi feita. Dados estatísticos no Brasil nem sempre costumam ser confiáveis… Mas isto à parte, usarei e explorarei  dados das pesquisas para reforçar a gravidade do tema.

Vejamos alguns diversificados informativos: dados apontam que uma a cada cinco mulheres com menos de dezoito anos já sofreu ou vai sofrer violência sexual (OMS).  Em metade dos casos registrados houve agressão por parte de seu próprio parceiro. Uma outra pesquisa mostra que 85% das mulheres tem medo de sofrer agressão sexual (Datafolha). Sites, em sua maioria de cunho feminista, apontam TODO homem como potencial estuprador e cada qual explica isso a sua maneira.  Outras fontes mais contidas, apontam que um em cada quatro homens representa uma ameaça sexual, mesmo que seja aquela “cantada vulgar” que frequentemente ocorre pelas ruas, sem envolver agressão física. 

Todas estas informações já aparentam ser terríveis…  Mas a situação piora: uma pesquisa mostra que um em cada três brasileiros acredita que de alguma forma a culpa é da mulher… Pense bem : “teoricamente” ,  neste caso, as pessoas dão a entender que a mulher é culpada até que se prove que ela não causou o estupro de si mesma… Não parece haver lógica aristotélica que mostre sentido nesse comportamento. Ressalte-se que, se comparado a outros países, o Brasil é um país conservador: armas, drogas, aborto, etc. Esse fato reflete também em como a cultura enxerga homens, mulheres e a relação entre esses, e tanto homens quanto mulheres, geralmente têm seu comportamento afetado em relação à sexualidade. Aliás, 42% dos homens acreditam que mulheres que “não se dão ao respeito” são estupradas, e 32% das mulheres concordam. Aliás, algumas mulheres acreditam que outras são realmente culpadas por serem estupradas, e curiosamente essas mesmas mulheres fazem parte de85% de mulheres que têm medo de sofrer violência. Será que elas também “não se dão ao respeito”? Culpando as vítimas, as explicações interferem nas liberdades individuais, que são e foram prezadas por tantos filósofos ao longo dos tempos. As explicações, normalmente, além da habitual  “não se dar ao respeito”  são o uso de roupas curtas, horários, mulheres que saem sozinhas, mulheres de vida sexual ativa, danças, flertes… Dentre uma infinidade de hipóteses, e qualquer argumento parece válido para culpar a vítima ou, ao menos, suavizar a culpa do agressor. Os dados apontam ainda um fato socioespacial, nos lugares de níveis econômicos mais baixos e de nível educacional mais baixo, o número de pessoas que culpam a vítima sobe consideravelmente.  Em meio a esta dura realidade, outro ponto válido de se destacar é a idade: pessoas com mais de 40 anos tendem a culpar mais as vítimas e seus comportamentos, ao contrário das pessoas com menos de dezoito anos, que acreditam que a mulher deve ter liberdade para se comportar como queira sem ser ameaçada e violentada e acreditam que homens devem ser educados a respeitar as mulheres e trata-las como semelhantes, talvez a nova geração traga um pingo de esperança a esse triste cenário histórico.

estupro

O que poderiam ganhar as pessoas que culpam a vítima? Qual seria o propósito de defender estupradores, criminosos que, muitas vezes são desprezados mesmo entre criminosos, pois recebem “tratamento diferenciado” nas penitenciárias? A cultura patriarcal dominante no Brasil remete  nossas origens, o ocidente carrega a herança da sociedade patriarcal grega e o conservadorismo potencializa tal fato.

Um ponto de concordância entre homens e mulheres que notei em pesquisas de fontes diversificadas, é que muitos acreditam que nossas leis “protegem” os estupradores e, mesmo os que, em entrevistas e/ou depoimentos culpam as vítimas, muitas vezes entendem também que as leis suavizam a culpa do próprio estuprador.

Parece que atualmente o mundo conspira a favor da violência, fato tal que gerou o famigerado termo “cultura do estupro”. De início digo: o termo é ruim, foi mal designado e a palavra cultura tem um impacto muito grande e um significado muito amplo, de forma que ao dizermos “cultura do estupro” podemos abrir margem para interpretações variadas.  Trataremos aqui cultura do estupro como: favorecimento do comportamento de violência sexual, culpabilizando a vítima e suavizando para o agressor.  

Agora, voltando-nos especificamente ao Brasil, notamos que o termo acima mencionado, foi empregado em demasia e com certa irresponsabilidade, percebemos também pelos dados acima, que existe insatisfação e manifestações quanto ao estupro, além da crença de que há certas leis que facilitam e beneficiam estupradores. Mas não podemos nos esquecer de considerar o resto do mundo, em diferentes culturas o estupro é visto de maneira diferente. Em países da África e da Ásia, o estupro é legalizado em alguns casos, ou até mesmo é forma de punição por um crime. Em alguns outros países, se um homem estuprar uma mulher não casada, a pena para seu ato é casar-se com ela… Observe que a PUNIÇÃO é ficar para o resto da vida com sua vítima. Parece absurdo, mas a lei foi obviamente feita pensando em homens, o centro da sociedade de tal país.

Resta-nos continuar refletindo e questionando o assunto, além de sempre nos restarem resquícios de esperança para que toda e qualquer forma de violência seja combatida e superada.

 

 Category: FILOSOFEI

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