ÉTICA HACKER – O Embate de Lógicas e Realidades:

By Acervo Filosófico

Por: Paulo Pedroso

  Ao longo do século XXI, o termo hacker foi se tornando cada vez mais comum, embora os empregos dessa palavra se afastem cada vez mais de seu significado original. Normalmente, um “hacker” é  associado ou interpretado como sendo um ladrão tecnológico que invade sistemas e rouba dados. Porém, a palavra “hack” , na verdade, possui mais de vinte significados nos dicionários americanos (http://www.dictionary.com/browse/hack?s=t). Note-se que, de acordo com as variadas definições, o termo expressa ações diversificadas, que vão desde “cortar algo em pedaços” até “invadir sistemas” (sendo este o significado mais comum). Há, porém, uma definição que interessa mais aos propósitos filosóficos e especialmente, para o propósito desse texto: “modificar, criar ou solucionar algo de maneira “criativa/habilidosa” ou, em suma, criar uma solução alternativa que seja original, mais rápida, mais fácil ou mais simples, ou então, apenas diferente. Sob essa ótica, qualquer especialista que cria soluções alternativas é um hacker e isso nada tem a ver com o mundo tecnológico, pois é possível, por exemplo, hackear a barra de uma calça prendendo-a com um alfinete voltado para dentro, ao invés de usar o método tradicional de costurar, ou então, pensemos numa possível alternativa de gelar uma garrafa, como, por exemplo, enrolá-la em um papel toalha molhado (pronto, temos aqui outra forma de hackear). Enfim, há vários outros hacks possíveis que não tem relação nenhuma com um computador.

Ao longo da história, inúmeros filósofos já se debruçaram sobre os termos “realidade” e “lógica”. Podemos inserir tais termos dentro do contexto desta presente reflexão: consideremos que os hackers são sujeitos que tendem a enxergar sempre outra realidade aos seus arredores e através de sua lógica própria, tentam invadir a realidade alheia e transformá-la de alguma maneira, seja ela intencional ou não. A partir dessa premissa, se faz necessária uma desconstrução dos termos até aqui envolvidos e um breve histórico que contextualiza tais observações. Assim sendo, perguntemos: qual seria a “lógica hacker”? Façamos uma reflexão: a realidade (ou seja, o contexto geral) da chamada geração Y (nascidos entre 1979 e 2000) é diferente da realidade da geração X (entre 1961 e 1978) e da geração Z (nascidos entre 1995 e 2010), pois, afinal, gerações diferentes têm realidades diferentes e lógicas também distintas (ao menos em determinados aspectos). A geração Z está em formação e apresenta algumas incógnitas, porém, o uso habitual da tecnologia criou uma nova lógica e hackear processos (hábitos, práticas, modos de fazer algo) que parece ser cada vez mais presente para tal geração, fato que transforma a realidade e a velocidade das mudanças das que são tão diferentes entre si. Perceba que as gerações coexistem e se relacionam, além de serem cada vez mais curtas e por vezes até simultâneas, alguns tendo filhos aos 40 anos, enquanto outros já são avós com essa idade. E, aliás, a idade e a convivência com outras gerações afeta diretamente a postura e a reação em relação a realidade, a lógica, o trabalho e a sociedade.

 Considerando essa proposta reflexão sobre o embate de gerações, podemos perceber essa nova lógica, isto é, a chamada lógica hacker desta nova geração (geração Z) em algumas facetas, como, por exemplo, no trabalho, uma vez que este deixa de ser aquele habitual castigo, que vem desde a antiguidade (como os doze trabalhos de Hércules) e que antes era aceitável porque rendia bons fins: dinheiro, sustento da família e etc, e passa agora a ser um objetivo, um desafio a ser vencido de uma nova maneira, ao qual se torna necessário um envolvimento, uma diversão, uma satisfação nos meios que geram os fins, sendo que os fins não são somente financeiros, mas também sociais. Porém, diante dessa realidade, as novas gerações, muitas vezes vivem em lugares de comportamento tipicamente industrial, cercadas de pessoas adaptadas a tal comportamento e que lutam para mantê-lo assim: escolas, fábricas, cursos, comércio, mídia… Tudo ainda segue com o comportamento do século passado: lugar fixo, horários definidos, roupas incondizentes, padrões e repetições.  Pensemos também em outros exemplos: se antes, para ouvir uma música era necessário ir a um show ou comprar um vinil, agora o cenário é outro. Para ver um filme era preciso esperar o dia e hora certos, no canal correto, hoje não mais. Entretanto, pensemos no caso de que algumas operações bancárias ainda não podem ser feitas online e exigem presença física em um banco que não estará aberto no seu tempo livre, dentre tantos outros exemplos de comportamento industrial que ainda “emperram” a sociedade. Curioso como se avança em um ponto, enquanto que, simultaneamente, se para em outro.

 A realidade muda, mas há uma sequência histórica que aparentemente se repete: primeiro a sociedade se transforma e a geração anterior não consegue mais brecar essa mudança, em seguida, muda o mercado que adapta seus produtos ao contexto dessa nova sociedade e, com a sociedade aprendendo a viver nesse novo mercado, por fim muda-se a lógica de uma geração/sociedade. (Mudança: sociedade > mercado > lógica). No entanto, essas três alterações, embora sejam sequenciais, não são instantâneas. Leva-se tempo certo para isso ocorrer, embora se antes pudéssemos definir um períodos histórico com mil anos de duração (como, por exemplo, a Idade Média), hoje, em contrapartida, as gerações duram aproximadamente 30 anos. As mudanças são cada vez mais rápidas e algumas gerações coexistem, fazendo com que algumas gerações intermediárias fiquem “presas” entre outras duas e a realidade e a lógica levem mais tempo pra mudar do que a própria sociedade em si.

Podemos ainda pensar que cada transformação nos meios de produção ou cada surgimento de nova tecnologia altera o modo de vida de uma civilização: agricultura, pecuária, revolução industrial e vários outros aspectos e situações são afetados. E as mudanças dificilmente são aceitas de maneira positiva e passiva, pois consistem em algo que geralmente “assusta” o ser humano, tirando-o de sua zona de conforto e, nesse quadro, os mais velhos tendem a resistir o quanto podem às novas realidades. Assim aconteceu, por exemplo, com as lâmpadas, quando substituíram as velas, com a fotografia em relação aos quadros, com o cinema em relação ao teatro, telefone com cartas e, se atualizarmos as referências para os dias de hoje, notamos a mesma situação se repetindo: blockbuster e Netflix, táxis e Ubers, hotéis e Trivago… As tecnologias modificam-se… a sociedade, ao que parece, nem tanto (ou levam algum tempo para acompanhar esse fluxo).

 Conforme exploramos anteriormente, vemos que desenvolvimento tecnológico afeta diretamente a realidade das pessoas, abrindo novos horizontes para o bem ou para mal, e após a adequação de quais tecnologias se adaptam e de quais são aceitas, surge então uma nova lógica. Vemos hoje, que o mundo físico e mecânico passaram a ter uma cópia digital, uma cópia da realidade, porém, agora em um dispositivo tecnológico, por exemplo, portfólios, documentos scaneados, avatares, carimbos, assinaturas digitais e tantas outras coisas disponíveis no celular, no computador ou quaisquer outros aparatos tecnológico. Quando essa nova realidade digital se tornar aceita, o mundo se transformará novamente e surgirá um mundo virtual e imaterial, no qual a realidade “não é”, mas pode ser, tem potência ser. Uma transferência bancária, por exemplo, não move fisicamente dinheiro daqui até ali, nesse caso o dinheiro não é, mas tem potência de ser e essa moeda pode não ser física (papel ou moeda), podendo ser uma moeda virtual, como o bitcoin, que não existe fisicamente, mas tem potência de ser.

  Até o século XXI podia se dizer que a “realidade é” e completar com qualquer adjetivo, como exemplo, a realidade é a revolução industrial, a realidade é violenta… em breve, contudo, esse “era” não “será”, apenas “poderá ser”, pois se tratará de uma realidade virtual e virtual significa aquilo que tem potência de ser, mas não necessariamente é e assim passaremos de fase mais uma vez, antes do mundo físico para o digital, agora do digital para o virtual. Para exemplificar: os filmes eram físicos, eram rolos, fitas, CDs, DVDs e deles surgiu uma cópia digital, isto é, um arquivo que poderia estar em um computador ou simplesmente em um pen drive. Mas nesses dois estágios existe ainda algo físico que serve de cópia da realidade original… Agora não mais: o virtual é transmitido via streaming e não há arquivo em computador algum, não existe download, não existe cópia, os dados estão na nuvem e podem deixar de existir. Sob esse contexto, a realidade física não existe, mas tem potência para existir.

 Com todas essas mudanças no pensamento, mais coisas também precisavam mudar e os hackers tem sempre o desejo de modificar o pensamento para se adequarem ao mundo externo que, por sua vez, já se encontra tão modificado, sendo que a maneira mais simples de analisar e alterar o pensamento de uma sociedade é através do trabalho, pois, de certa forma, é ele que define a realidade de um povo. Historicamente, o trabalho costuma ser encarado sob perspectivas negativas (por exemplo, pensemos novamente nos Doze Trabalhos de Hércules, na situação dos escravos ou vassalos, etc). Contudo, ele é capaz de alterar a realidade quase que completamente. Até o século XX, foi uma obrigação ou um meio para o fim e nada mais. Já no século XXI, o hacker não se contenta em trabalhar em algo repetitivo, não recompensante, mesmo que isso lhe sirva de sustento e, dessa forma, os meios se tornam mais importante que os fins, inclusive podendo estes levar a diferentes fins dos que previamente planejados. Se antes, o salário (fim) era o objetivo e pouco importava o que se fazia no trabalho (meio) agora a situação se inverteu e os desafios no trabalho (meio) e a realização profissional, dão significado à recompensa (fim) que pode ser o dinheiro ou ascensão social, integração a um grupo ou projeto.

  Em meio à novas tecnologias, o cérebro se desenvolve de maneira diferente e, novamente, seja para o bem ou para o mal, os meios antes singulares agora convergiram e os estímulos são simultâneos: se há um tempo atrás, a hora de assistir televisão era apenas, de fato, dedicada para se assistir televisão, e a família largava seus afazeres e se reunia para exclusivamente ver TV, hoje, entretanto, geralmente há mais de uma TV por casa e várias delas apresentam opções (tal como mosaico/multi-tela) que permitem que o espectador assista mais de um canal ao mesmo tempo, sendo que, normalmente, há também o caso do telespectador que, simultaneamente assiste algo enquanto acessa as redes sociais e/ou ouve músicas em seu aparelho móvel. Com algum treino (e repetição e tempo) o cérebro desse indivíduo consegue absorver os estímulos simultâneos de todas essas atividades. Esse é o chamado “cérebro multitask”.

 Com tantos estímulos, era de se esperar gerações cada vez mais bem informadas e cada vez mais criativas, contudo, aparentemente isso ainda não ocorreu. A sociedade, em geral, ainda não entende os hábitos e as lógicas da nova geração e o mundo parece não estar adaptado para eles. Os membros dessa geração, por sua vez, não tem a disciplina necessária para usufruir todas as suas possibilidades, e esses jovens e adolescentes se encontram espremidos entre a geração anterior e seus moldes industriais e a geração mais nova (geração α, nascidos após a geração Z, após 2010), mas já desprendida das tradições, já nascida em meio às novas tecnologias e sem o saudosismo de ter acompanhado a evolução das mesmas.

  Enfim, notamos que certos padrões do século XX persistem em “emperrar” o século XXI: horário pra entrar, comer e sair, seja numa escola, empresa ou cadeia. A biologia de todos tem que se conformar com um cronograma inventado antes da existência da energia elétrica, começar a trabalhar ao nascer do sol e parar ao seu por. Muitos ainda tem um local específico de trabalho, que pode minar a criatividade, ser estressante ou logisticamente desgastante, em meios a respingos de Home Office, roupas e uniformes que destoam com a realidade climática de vários países.  Contra tudo isso, o hacker ainda luta para invadir a realidade e transformá-la com soluções criativas. O hacker quer fazer e quer ser visto fazendo. O fruto do seu trabalho lhe rende conexões sociais e contato com outras pessoas que também trabalham com o que gostam e as proporciona prazer.

  Parte determinante da lógica de uma sociedade vem da educação, que teoricamente deve ser libertadora e isenta, mas quem a governa tem interesse em direcionar a educação para um fim quase sempre mais econômico do que social, mais técnico que do que humano, mais voltado para a manutenção do sistema do que para sua renovação. É possível hackear a escola e o conhecimento em si, e algumas técnicas já começam a “pipocar” e já tem até nome: hackschooling, uma mistura de cultura hacker com aprendizagem, na qual, de maneira interessante e criativa, com auxílio de tecnologia e com práticas e “experiências de campo” busca-se uma educação diversificada e que nosso sistema talvez ainda não esteja preparado, tão pouco interessado para aplicar  (segue um link a respeito do tema – https://www.youtube.com/watch?v=h11u3vtcpaY).

 Realidade e lógica são termos filosóficos que irão se aproximar de novos significados quando misturados ao termo hacker e assim, surgirá um novo período, que já poderia ter se iniciado com essa nova geração (Z), mas ainda se arrasta com a tradições da sociedade dita moderna e, dessa forma, o século XX ainda prende o XXI antes dessa nova fratura de realidade, mas os hackers estão por aí e hackear ou “transformar”, “criar soluções práticas” para a realidade é apenas questão de tempo.

 

 Category: FILOSOFEI

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