FEDRO (parte 1):

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Introdução: 

   Fedro, provavelmente escrito em torno de 370 a.C é um importante diálogo platônico entre os personagens Sócrates e Fedro. Ao longo da obra, Platão discorre sobre vários assuntos, tal como o amor, a natureza da alma, a metempsicose, a retórica e outros. Este texto tem como finalidade apresentar um resumo do livro e, para tal, foi feita uma separação dos principais tópicos abordados na obra, que se encontram aqui dispostos como: sobre o AMOR, sobre a ALMA, sobre a RETÓRICA e sobre a ESCRITA. Nesta primeira parte, portanto, são expostos os dois primeiros tópicos, isto é, sobre o Amor e sobre a Alma, respectivamente. Em breve a segunda parte será postada nesta mesma coluna (“Obras Comentadas”).

Sobre o AMOR: 

   Sócrates e Fedro se encontram, e este último conta que recentemente estivera na companhia de Lísias, orador ateniense que fez um notável discurso sobre o amor. Fedro e Sócrates, então, começam a caminhar e Fedro decide ler o referido discurso feito por Lísias. 

   Inicialmente, é apresentada uma comparação entre o amante e não-amante, que mostra que o primeiro possui inúmeras desvantagens em relação ao segundo, como, por exemplo, sentir arrependimento quando não deseja mais seu objeto de paixão, tornar-se descontrolado, desajuizado e insensato (sendo capaz de admitir tal estado) e etc. Por outro lado, o não-amante é um indivíduo controlado, regulado e sensato em relação aos seus sentimentos, sabendo conter-se e agir da melhor forma. Outro problema do amante: se aborrece muito facilmente, tendo medo de perder o objeto amado e, consequentemente, tenta fazer com que seu amado afaste-se de algumas pessoas que representem algum tipo de ameaça. Além disso, observa que muitos amantes baseiam seus atos unicamente em desejos físicos antes de conhecerem o próprio caráter das pessoas de tal forma que, se o desejo físico acaba, por vezes, nem mesmo haveria interessado aumente em ter alguma amizade com o amado. 

  Fedro, então, ao finalizar a leitura do discurso proferido por Lísias, pede a opinião de Sócrates, demonstrando estar curioso para saber o que ele pensa a respeito do que foi exposto. Sócrates atende ao pedido de Fedro e diz que se atentou especialmente ao aspecto retórico do discurso e que Lísias parece ter sido repetitivo em sua reflexão. Diz também que é capaz de proferir uma nova abordagem, diferente e até mesmo superior à reflexão acerca do assunto, mas adverte que, em comparação à Lísias, é um amador em relação ao tema que discutem. 

  O discurso que Sócrates inicia, conforme ele próprio esclarece, pretende analisar se um rapaz deve ceder sua amizade a outro que esteja apaixonado por ele ou a um que não esteja.

  Para iniciar a reflexão e discorrer sobre o assunto, o filósofo propõe, inicialmente, encontrar uma definição adequada para o amor, e que possa servir como ponto de partida e referência ao restante do discurso, sendo que através de tal definição, buscará compreender se o amor gera danos ou benefícios. Sócrates diz que o amor é um desejo (uma busca pelo belo), embora os não-amantes também movam-se sempre em direção ao belo. Na sequência, diz que todo homem é governado e conduzido por dois princípios internos, sendo um o desejo inato pelo prazer e o outro a opinião que se adquire de buscar sempre o que é melhor. Esses princípios geram duas distintas consequências: autocontrole (quando a opinião, por intermédio da razão, conduz para o que é melhor) e excesso (quando o desejo arrasta irracionalmente rumo aos prazeres). Através deste raciocínio, Sócrates estabelece uma definição concisa sobre o amor: “Desejo que sobrepuja a opinião racional que se empenha na direção do correto e que é impulsionado rumo ao gosto da beleza e, ademais, é intensamente compelido pelos outros desejos (apetites) que lhes são afins rumo à beleza corpórea – esse desejo, quando conquistador da vitória, extrai seu nome desse próprio impulso – e é chamado de amor”. (p.32, 2012). 

   Nas circunstâncias da definição sobre o amor que foram expostas acima, Sócrates observa o quanto o amante tende a sentir ciúmes de seu amado, mantendo este último sempre distante de algumas companhias, sendo que, parte delas, poderiam ser vantajosas. Dessa forma, o amante mantém o seu amado afastado de seus bens mais caros, mais benéficos, e mais sagrados, pela possibilidade de que algumas dessas pessoas possam atrapalhar e/ou interfere na aquisição da companhia do amado.  

Pintura de Delacroix (1798-1863) que mostra Sócrates (sentado, vestindo uma roupa vermelha) e seu daemon (figura angelical, flutuando acima do filósofo).

Sócrates concluiu, portanto, que é mais vantajoso aceitar a companhia de um não-amante racional (com inteligência e bom senso) ao invés de um amante dominado pelo amor sensual e pela loucura, sendo que este pode ser prejudicial: “Tal como o lobo acolhe com amizade o cordeiro, assim age como amigo o amante com seu amado”. (p. 39). 

  Contudo, pouco após finalizar o discurso e estabelecer sua consideração final, enquanto caminhava ao lado de Fedro, sentiu a presença e manifestação de seu daimon e, então, refez a conclusão sobre seu discurso, dizendo que tanto ele quanto Lísias foram horríveis e vergonhosos ao desconsiderar a generosidade que pode surgir através do amor, e essa nova conclusão a que Sócrates chega por interferência e correção do daimon se dá, especialmente, pelo fato de que o filósofo percebe que Eros (amor sensual) é um Deus e que seu discurso anterior o apresentou de maneira negativa, sendo isso contraditório, uma vez que um ser de origem divina não pode ser mau.

  Dessa forma, propõe-se a fazer uma nova reflexão, partindo do princípio de que a loucura que provém do amor é algo positivo e benéfico ao ser humano, pois sua origem é divina (Eros), conforme esclarece: “Devo declarar que é falso o discurso que ensina que quando o apaixonando se disponibiliza deve-se dar preferência ao que não está apaixonado, sob alegação de que o apaixonado está fora de seu juízo, enquanto o não amante está no seu juízo perfeito”. (p.45, 2012). 

 Sobre a ALMA – Parelha Alada: 

   Na sequência, após Sócrates, sob influência direta de seu daimón, reformular sua posição acerca do amor, o assunto do livro altera um pouco os rumos e dá espaço para outro tema (embora, de certa forma, continua contextualizado com a temática inicial, isto é, com o amor). Sócrates dispõe-se a tentar compreender a natureza da alma humana e da alma divina e surge, neste ponto, as seguintes observações:

A alma é imortal (uma vez que possui movimento próprio). 

Automotor (aquilo que se move é o princípio do movimento).

Um corpo que possui movimento dentro de si é, por conseguinte, o que possui alma.

A alma assume formas diferentes em diversas ocasiões (metempsicose). 

O ser vivo é um todo que é composto de alma e corpo

   Após fazer as pontuações acima, diz que a alma é divida em três partes: uma parelha de dois cavalos alados (um bom e um mau) e um condutor. Nesse sentido, há duas distinções:

– “cavalo alado e condutor dos deuses” > bons, de boa ascendência.

– “cavalo alado e condutor dos demais” > raça miscigenada.

   Portanto, a alma assemelha-se a um condutor que possui dois cavalos, sendo um de raça nobre e o outro o contrário. O cavalo da direita representa o autocontrole e o pudor e o da esquerda é pesado e insolente. 

Platão acredita que antes de habitar um corpo físico, a alma contemplava o Mundo das Ideias.

É importante esclarecer que a função das asas é “se erguerem para o alto carregando o que é pesado ao lugar onde a raça dos deuses habita” (p.51). Esse local consiste numa região além do céu que só é visível pela inteligência:  “Um intelecto divino, uma vez nutrido pela inteligência e o conhecimento puro, e o intelecto de cada alma capaz de receber o que lhe é apropriado, regozija-se em contemplar a realidade durante um período de tempo, e através de sua observação da verdade é nutrido e tornado feliz até que o movimento circular o recoloque no mesmo lugar”. (p.53, 2012).

  Através desse movimento, todas as almas contemplam o absoluto, isto é, as verdades imutáveis, aquilo que é eterno. Veem as coisas que são e não as coisas que parecem ser. Porém, as possuem visões diferentes dessa região, sendo que aquelas que  contemplaram por mais tempo encarnam no corpo humano de um amante da sabedoria (ou seja, filósofo) ou de um amante da beleza ou da música. As outras almas encarnam das seguintes maneiras:

  1. Rei ou Comandante Militar.
  2. Política, administrador doméstico ou financista.
  3. Um esforçado treinador de atletismo ou médico
  4. Profeta.
  5. Poeta ou outro artista de arte imitativo
  6. Artesão ou agricultor
  7. Sofista ou partidário do povo
  8. Tirano

   Para uma alma recuperar suas asas, leva cerca 10 mil anos, sendo que apenas o filósofo é capaz de recuperá-las antes desse tempo. Esse ciclo envolve o processo de julgamento das almas sendo que parte delas: “… ao encerrarem sua primeira vida, são submetidas a julgamento é uma vez julgadas, algumas partem para os postos correcionais sob a Terra e cumprem sua pena, enquanto as outras, tornadas leves, são erguidas pela justiça a uma região celestial, onde passam a viver de uma maneira digna da vida que viveram sob forma humana”. (p. 56, 2012). 

  A contemplação que a alma fez terá um reflexo direto no amor, e isso ocorrerá através de um sentido específico (visão), da seguinte forma: ao ver um objeto belo, duas coisas podem ocorrer, dependendo de como foi a observação que a alma fez do Mundo das Ideias. Para aqueles que admiraram muitas realidades, um jovem belo é reverenciado, pois ele traz recordações da beleza absoluta, e então, as penas de suas asas são irrigadas e aquecidas pelo belo, sendo que a plumagem começa a crescer e, dessa maneira, por tais circunstâncias, concluí-se que o amor é um estado de alma. Aos que pouco tiveram contato com as formas absolutas, não há a mínima contemplação ou reverência do belo, apenas uma entrega cega ao prazer carnal, à luxúria e à geração de filhos. 

*Aqui termina a parte um, em breve haverá será publicada a sequência do texto, que abordará a Retórica e a Escrita.

 Category: OBRAS COMENTADAS:

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