IAN CURTIS E SEUS PRAZERES DESCONHECIDOS:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

INTRODUÇÃO:

No dia 18 de maio de 1980, Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division, enforcou-se em sua residência aos 23 anos. Antes do ocorrido assistiu a um filme do genial cineasta alemão Werner Herzog e escutou o álbum The Idiot, de Iggy Pop. Era mais um caso de suicídio envolvendo um músico de sucesso. Certamente você deve estar se perguntado quais foram as causas para esse trágico acontecimento. É impossível afirmar, pois a mente e as emoções Ian não nos pertencem e jamais teremos com dizer por absoluto o que o levou a tirar a própria vida.  Alguns se atrevem a especular a situação proferindo que o vocalista não suportava seus ataques epiléticos. É bem possível que isso o tenha influenciado, mas, repito: não podemos postular nenhuma causa do incidente de maneira absoluta. Dessa forma, Ian Curtis se foi deixando para nós um precioso legado musical caracterizado por imensa sensibilidade e por um lirismo perigosamente denso.

O SENTIMENTALISMO EXISTENCIAL NA OBRA DE IAN CURTIS:

O primeiro álbum de estúdio lançado pelo Joy Division é considerado por muitos com o primeiro disco de Pós-Punk. Isso demonstra grande inovação técnica e criativa. Se não foi o primeiro, certamente um dos primeiros. E há um ponto interessante a ser destacado no posicionamento de Ian diante do contexto que o cercava naquele período: em suas letras, ele abordava questões humanas profundas e intrínsecas, que permeiam pelo coração e consciência de um homem. Isso o diferenciava do que acontecia no período em que sua banda eclodiu porque naquele momento, o Punk era o movimento musical que dominava o mercado e que focava suas letras em problemas urbanos e temas sociais e políticos. Ou seja, Ian Curtis rompeu com essa temática no momento em que impôs seu espírito bayronista como motivação de suas criações artísticas. Essa atitude de Ian significou uma ruptura na história da música e simbolizou as portas de entrada para uma estrada melancólica do Rock And Roll (pós-punk/gótico).

As letras que Ian escrevia eram sombrias e pessimistas aos olhos da maior parte das pessoas que as liam. Lembra-me de Arthur Schopenhauer que, até hoje, é taxado como um filósofo pessimista. Certamente há uma semelhança entre ambos, pois tanto Curtis quanto o pensador, propuseram-se a retratar os lados negros e a dor da existência humana. Eles empenharam-se a sair debaixo da segurança da luz e das proteções que ela nos oferece, e experimentaram explorar corajosamente a miséria e a dor da nossa condição. Reconhecer o lado escuro do se humano os proporcionou associações com o pessimismo. Certa vez, o músico fez uma declaração importante a respeito de suas composições: “Escrevo sobre as diferentes formas que diferentes pessoas lidam com certos problemas, e como essas pessoas podem se adaptar e conviver com eles“. Isto é, Ian Curtis, de fato, reconhecia os problemas que permeavam pelo mundo, e não os negava.

Além dessas observações em sua maneira de escrever, é válido ressaltar que o jovem compositor teve algumas influências para moldar esse perfil. De acordo com uma biografia escrita por sua viúva, ele foi fortemente influenciado por nomes como Nietzsche, Rimbaud, Oscar Wilde, Aldous Huxley, Sartre e Dostoiévski. Ian Curtis foi um híbrido de todos estes ídolos. Parece ter herdado o “amor fati” do primeiro, a aventura do segunda, o sarcasmo de Wilde, a postura reflexiva de Huxley, de Sartre e do escritor russo, certamente uma visão angustiante diante da realidade. Uma série de gênios que formou um outro gênio. Certamente sua retração e sensibilidade emocional fizeram de Curtis mais um artística enigmático e um tanto complexo de ser compreendido. Sua dança no palco era feita com singularidade, repleta de movimentos espalhafatosos e um tanto quanto desengonçados. Era uma forma de ironizar seu pior inimigo: o ataque epilético. Isso é bem nietzschiano.

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Certa vez, o músico fez uma declaração importante a respeito de suas composições: “Escrevo sobre as diferentes formas que diferentes pessoas lidam com certos problemas, e como essas pessoas podem se adaptar e conviver com eles“.

“ISTO NÃO É UM CONCEITO, É UM ENIGMA”:

A imagem da capa de “Unknown Pleasures” é intrigante. Foi feita por Peter Saville e Chris Mathan, mas foi Bernard Sumner quem teve a ideia da imagem. Trata-se de um de gráfico do sinal de rádio captado por um radiotelescópio do pulsar PSR B1919+21, a primeira estrela de nêutrons descoberta. Isto é, a imagem consiste numa visualização monocromática das ondas eletromagnéticas emitidas por uma estrela enquanto ela morria.

Na contracapa do álbum, consta a seguinte sentença: “Isto não é um conceito, é um enigma“. É uma frase que possibilita nossa mente a viajar por inúmeras possibilidades. Talvez seja uma alusão à nossa própria jornada de pensamento. Será que é possível conceituar o mundo ou a tentativa de formular respostas sempre nos levará, inevitavelmente a problematizar algo novo, nos prendendo a dúvidas circulares? É filosófico e bastante intrigante. Para o filósofo Hegel, o mundo poderia ser sistematizado racionalmente. Schopenhauer o criticou colocando em destaque um aspecto que não pode ficar de fora de quaisquer afirmativas quanto ao mundo: a emoção. Portanto, para este último pensador, não podemos simplesmente tentar enquadrar a natureza em um sistema lógico deixando de lado as nossas próprias sensações particulares e experiências sensíveis.

Ou talvez, Ian não tenha tentativo dizer absolutamente nada do que foi mencionado acima. Pode ser sido apenas uma frase… algo relacionado com o cosmos ou com a morte de uma estrela.

 Category: MÚSICA e FILOSOFIA

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