INDÚSTRIA CULTURAL – O ESCLARECIMENTO COMO MISTIFICAÇÃO DAS MASSAS:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

     Este texto consiste em um resumo composto por comentários sobre o “Indústria Cultural – O Esclarecimento Como Mistificação das Massas”, capítulo da obra Dialética do Esclarecimento, escrita em 1947 por Theodor Adorno e Max Horkheimer, membros da Escola de Frankfurt. 

     Inicialmente, postula o texto uma definição para os seguintes setores culturais: cinema, rádio e revista, dizendo que são coerentes em si mesmos e igualmente coerentes em conjunto. Segue com exemplos urbanos que demonstram a maneira pela qual a arte parece estar sendo degenerada pelo capital. Este aspecto é introduzido e apresentado através da exemplificação de um fato que se nota no meio urbano: as construções mais antigas, vistas como cortiços, parecem também ter perdido espaço para modelos de arquiteturas modernas planejadas, em sua grande parte, feitas por corporações empresariais e comerciais. É também neste cenário que se evidencia uma aglomeração pública regida pela produção e pelo consumo, sendo que é por trás deste modelo que se surgirá e se desenvolverá a indústria cultural.

    O conjunto de observações iniciais acima mencionadas conduz-nos, conforme o texto, à seguinte conclusão sobre o modelo cultural do homem: a falsa identidade do universal e do particular. E isto significa que a arte (exemplo: rádio e cinema) não mais se apresenta como algo que pode ser descrito originalmente como arte, mas apenas como meio de expressão que se tornara negócio e que se autodefine como uma indústria, visando favorecimentos econômicos para um determinado nicho de pessoas que a controlam e a programam. Neste contexto, a indústria empenha-se na padronização e produção em série de tais meios de expressão cultural, que são construídos conforme a necessidade dos consumidores e visando regulá-los. Esse processo torna-se, assim, um círculo de manipulação que é construído e controlado por indivíduos que possuem maior força econômica e que exercem poder sobre a sociedade. Além disso, esse procedimento previamente calculado engloba todos os elementos de uma produção cultural, estando presente, desde a simples concepção de um romance até a elaboração de um efeito sonoro.

   A totalidade desse método (que vai desde seu planejamento até sua execução) que é essencial da indústria cultural resulta num inevitável empobrecimento do material estético, uma vez que este é criado (conforme já mencionado acima) exclusivamente para moldar receptores, de acordo intenções de cunho subjetivo. Em suma, a arte é substituída pela fabricação de conteúdos uniformes que alimentam o sistema capitalista conforme interesses particulares, fato este, que desencadeará um monopólio cultural. 

   Além de tais aspectos desse referido esquema da indústria cultural, que é moldado por produtores detentores de poder, participam também outras peças, tal como astros de novela e de cinema e canções e livros de sucesso. Tudo isso resulta em estereótipos culturais que irão se apresentar, por exemplo, nos famosos clichês cinematográficos ou nas canções facilmente memoráveis, formuladas propositalmente por letras e ritmos simples. Às vezes, até mesmo obras de artistas clássicos (no início do texto citam-se como exemplo Tolstói e Beethoven) são deturpadas e transformadas para que possam se encaixar nos moldes propostos pela indústria cultural.

   Nesse referido esquema de padronização, os mínimos detalhes como gags, efeitos e/ou piadas acompanhando imagens e sons são previamente elaborados e possuem fins especificados, pois dentro da indústria cultural, jamais surgem de maneira espontânea.  A ideologia do cinema é o negócio e, por isso, a indústria cultural sempre tem algo a oferecer, mas ao mesmo tempo priva o público de alguma coisa. Assim, a indústria cria certas necessidades em seu público e essas necessidades são apresentadas como se pudessem ser satisfeitas através das mercadorias que a própria indústria produz, ou seja, ela “produz” um problema para “oferecer” uma solução. Contudo, na realidade, estas tais soluções não passam de um prazer “anestésico” e instantâneo que simplesmente visa amortecer a exaustão da rotina capitalista e que atua como um amparo ao fardo do cotidiano.

   As pessoas, em algum momento, inevitavelmente acabam sendo influenciadas ou modeladas pelos produtos da indústria cultural porque elas sempre estão tendo contato com os mesmos, e assim são envolvidas e/ou persuadidas pela estética de dominação e parecem conformar-se com as influências ideológicas que as atingem. Por consumidores, entenda-se aqui os trabalhadores e os empregados, os lavradores e os pequenos burgueses que são acorrentados pela rotina do sistema capitalista e que são os dominados, subordinados e bombardeados pelas mesmices culturais que lhes são constantemente impostas pelos detentores do poder. Este quadro torna essas pessoas alienadas e as faz consumir frequentemente aquilo que lhes é fornecido e que visa apenas massificá-las e elas irão, através da absorção dos produtos oferecidos, favorecer e alimentar o sistema da indústria cultural. Além disso, a alienação tende, essencialmente a induz suas “vítimas” à perda da autonomia, pois a indústria não pretende condicionar os indivíduos a serem reflexivos; ela almeja somente que eles sigam devida e constantemente aquilo que lhes é imposto e, assim, a “arte” que a indústria cultural fornece torna-se a “arte do não raciocínio”, da “perda da identidade”, do “sujeito programado”, do “homem domesticado”.

 A indústria cultural é a indústria da “diversão”, sendo que a diversão é seu parâmetro de controle social. Mas para entreter seu público-alvo, é necessário que esse público se dedique cada vez mais a uma exaustiva rotina capitalista. Assim, o cansaço rotineiro irá guiá-lo para essa suposta diversão proporcionada pela “indústria do prazer”, pois as pessoas voltam-se para ela acreditando que encontrarão felicidade e por isso elas “insistem na ideologia que as escraviza” (p. 63). Isso tudo é de conhecimento daqueles que movem a indústria e, portanto, ela visa propositalmente a distração de seu público, e por isso o texto classifica este tipo de diversão que ela fabrica como uma “diversão organizada” (p.65), pois ela é premeditada conforme as necessidades que o sistema socioeconômico cria no público. Cita-se, por exemplo, uma dona de casa que é capaz de encontrar refúgio no cinema ou então o uso calculado de técnicas que visam levar o espectador a acreditar que o próprio mundo real é uma extensão do cinema e isso transforma os filmes em “teatros de ilusões”.  Outro exemplo que o texto fornece são as produções fílmicas que carecem de qualquer tipo de sentido inteligível (como, por exemplo, os gêneros de romance, cartoon, policial e, atualmente, até mesmo os filmes de animação) e que, portanto, isenta o espectador de esforços intelectuais. Portanto, considerando as observações acima, nota-se que a massa convive com uma espécie de “diversão forçada”, uma vez que essa “diversão cultural” é planejada previamente e é intencional. Através destas construções, a “arte” torna-se apenas objeto de entretenimento e de relaxamento.

   Essa indústria é sempre insistente, repete inúmeras vezes para o espectador imagens (estáticas ou não) de objetos que visam despertar desejo no público, como “o busto no suéter e o torso nu do herói desportivo” (p.66). Para isso, usa-se constantemente o mesmo tipo de recurso e de conteúdo, arquitetando uma reprodução mecanizada do belo que é propagado sempre de maneira bem-sucedida (às vezes, mostrado por de estrelas de Hollywood). Através deste esquema, a indústria irá criar e dirigir as necessidades do consumidor.  Assim, concluí-se que “belo é tudo o que a câmera produz” (p.71). E essa indústria, através de todo esse emaranhado de planejamentos, ações e resultados, conforme visa “combater o sujeito pensante” (p.71). Em certas ocasiões, o belo é transformado em humor e assim tende a persuadir o público através do riso ou da gargalhada, de tal forma que as pessoas costumam acreditar que os produtos (que são configuradas pelo humor) são meios que propiciam felicidade e prazer, satisfação e que, em certas ocasiões, tornam-se até mesmo uma forma de refúgio.  Além desta questão do belo, outro exemplo de mecanismo ilusório que o texto oferece é a ideia de especializações do conhecimento, que se fazem fortemente presentes no sistema capitalista e que parecem ser as únicas que importam. A arte possui uma característica ideológica na medida em que coloca formas reais do existente como algo absoluto, e por sua vez, a indústria cultural coloca a limitação como algo absoluto, visando o monopólio cultural e para isso, mantém o mecanismo de oferta e procura concentrado nas mãos dos dominantes que reproduzem sempre o mesmo tipo de mercadoria. São mencionados como exemplo alguns traços que compõe essa mencionada padronização do entretenimento: cineastas parecem preocupar-se unicamente em adaptar suas obras com base em best-sellers, geralmente desprezando outros gêneros textuais, uma vez que seu objetivo seja render lucro em bilheterias e os best-sellers sejam o melhor caminho para realização desta meta.

  A publicidade insere-se no esquema da indústria cultural como uma ferramenta poderosa, essencial e indispensável para alimentar e manter o funcionamento do monopólio cultural e de sua reprodução mecânica. Através de suas mais variadas formas de linguagem irá se adequar e se comunicar com o seu público-alvo, emitindo as mensagens que os detentores de poder almejam que seus receptores recebam. Assim, os anúncios de comunicação tornam-se um mecanismo de manipulação e controle. É válido mencionar que a publicidade não precisa, necessariamente, que se público reflita, indague ou raciocine, sobre as mensagens que ela transmite: ela precisa, antes de mais nada, que seu alvo seja convencido ou persuadido pelas mensagens que ela expõe. Esta maneira pela qual a propaganda atua, assemelha-se à essência pela qual a própria indústria cultural se constitui.

  É mencionada ainda maneira pela qual uma corporação ou uma ideologia pode triunfar e conquistar seus objetivos, propagando-se através da indústria cultural e, neste trecho, o texto cita-se como exemplo a ascensão do regime nazista efetuado pelo ditador Adolf Hitler, que foi conquista pelos méritos de uma potente e persuasiva propaganda nazista, elaborada especialmente por Goebbels.

  A propaganda, portanto, seria um truque de exibição de mercadorias e ideologias. Geralmente utiliza-se das modas rápidas (denominadas fads), de best-sellers, músicas populares (chamadas originalmente de popular songs), anúncios inseridos em locais públicos (cobertos por letreiros e logotipos) ou pode aparecer, por exemplo, maquiada através de astros de cinema (tal como nos plugs, em que geralmente as câmeras aproximam-se do rosto de uma atriz ou ator para que eles recomendem algum produto), ou ainda de outras maneiras. A publicidade usa-se da idealização e assume, por intermédio de uma de suas várias formas de linguagem, o papel de difundir o totalitarismo ideológico, isto é, de apresentar ao público (disfarçadamente) aquilo que uma minoria monopolizadora deseja que este público receba, assimile e, por fim, consuma. Outros meios também são usados para manifestação da indústria cultural, sendo adaptados pela publicidade. Um exemplo são os trailers de filmes, biografias baratas, romances-reportagem, canções de sucesso e outros.

   No final do texto, há uma abordagem sobre a linguagem como ferramenta da indústria cultural. As palavras e expressões são um dos mecanismos, um dos “truques” dos quais se dispõe a publicidade e que, muitas vezes, após serem usados em comerciais (independente do formato: escrito, visual, auditivo, ou uma combinações, etc), são reproduzidos cegamente por inúmeras pessoas que, por vezes, nem ao menos sabem seus significados e este fato, por vezes, pode se transformar em um fenômeno global. Dessa forma, as palavras não apenas podem ser reproduzidas, mas também usadas para despertar desejos e/ou interesses e até mesmo para propor e/ou impor certas ideologias (quando o texto expõe sobre esta possibilidade de proposta ideológica que pode ser realizada através da linguagem, novamente cita o Regime Nazista que se instaurou dessa maneira). 

   De maneira geral, é pode-se compreender que o esclarecimento que outrora pretendia livrar os homens do medo e colocá-los na posição de senhor foi substituído pela mistificação das massas, que consiste em um fenômeno social executado pela economia burguesa, que é detentora do poder e que busca dominar e regrar as massas conforme seus interesses particulares. O contexto para que isso ocorra é a dicotomia econômica presente na base do sistema capitalista, que insere somente uma classe social na posição de “senhor”, que é aquele que possui conhecimento e capacidade de exercer seu poder. Do lado oposto, encontram-se aqueles que devem absorver as imposições que os “senhores” propõem através das mercadorias geradas pela indústria cultural.

Considerações:

   A mistificação das massas pode ser compreendida como a construção planejada de certas expressões culturais que banalizam a arte, e a substituem por produtos que carregam objetivos específicos daqueles que os arquitetam., sendo que estes são os detentores do poder econômico. Esse tipo de cultura que é desenvolvida para certas finalidades, destina-se e disponibiliza-se para as massas que, conforme a assimila, tende-se a alienar-se, perder sua autonomia e satisfazer os interesses daqueles que se encontram por trás da indústria cultural.

  É possível perceber que as principais abordagens contidas ao longo do texto ainda se fazem presentes, pois diariamente as pessoas, de alguma forma, consomem algum dos variados produtos culturais gerados pela referida indústria. Os autores desta obra parecem, portanto, terem feito não apenas uma leitura do contexto em que viviam, mas também de uma situação que iria se concretizar futuramente.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

Dialética do Esclarecimento – Fragmentos Filosóficos. ADORNO, Theodore. HORKHEIMER, Max. 1947.

 Category: FILOSOFEI

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