MINHA EXPERIÊNCIA NA I CONFERÊNCIA ANARCO-CAPITALISTA:

By Acervo Filosófico

Por: Gabriel Casagrande

Casagrande, professor de Filosofia e autor colaborativo do Acervo Filosófico durante a I Conferência Anarco-capitalista.

Primeiramente, caso não tenha ficado claro com o título, gostaria de ressaltar que o texto a seguir reflete a minha experiência pessoal (em caráter descritivo) com o evento em questão, ocorrido nos dias 27 e 28 de janeiro de 2018. De forma alguma pretendo falar por terceiros ou encerrar a questão tratada aqui. Além disso, irei apontar fatores pessoais que considerei serem de grande engrandecimento à minha pessoa enquanto ser pensante, independente de concordar ou discordar das informações contidas nos discursos. Vale destacar que não sou anarco-capitalista, apenas gosto de estudar as mais variadas vertentes que se intitulam como anárquicas e extrair de cada uma delas conceitos, teorias, táticas, contexto e afins (até porque só se desenvolve senso crítico colocando constantemente as próprias ideias a prova).

Surgido em uma conversa de bar e desenvolvendo-se através de formação de equipe, hangouts e prática, o evento de caráter austro-libertário purista teve como objetivos iniciais a retomada do libertarianismo em seu caráter purista iniciado nos anos 2000 no cenário brasileiro, a criação de comunidades libertárias decorrente da integração entre seus membros e a ocupação de espaços como fator necessário para promoção da ideia a ser defendida.

A escolha de ser realizada na cidade de São Paulo não foi por acaso, São Paulo é o município com o maior número de libertários puristas de acordo com os organizadores. Para retomada do austro-libertarianismo, foram convidados a palestrar/participar de mesas redondas agentes do movimento que estão envolvidos à muito tempo e de maneira intensa, como os irmãos Chiocca e Paulo Kogos. Todo o patrocínio, realização e apoio do evento foi engendrado de maneira privada, primeiramente pelo espaço cedido no auditório Augusto Cuzzo (Faculdades Integradas Campos Salles), como também pela Anarco-tatuaria, Gatinhos Libertários, Blinktrade, Grupo Excelsior Holding, Portal do Bitcoin, Impostoéroubo.com, Juventude Libertária Brasileira, BitStarter, Pecúnia Fomento e Camisetas libertárias, além de contar com doações de interessados.

Credenciais para participar no evento, ocorrido nos dias 27 e 28 de janeiro de 2018.

O crescimento do evento se deu através da criação de banners de divulgação, realização de uma caravana advinda do Rio de Janeiro, inserção de manifestações libertárias artísticas como o Rap de Slammer OG e o Stand-up de Maikon Kuster, além do voluntarismo funcional já citado que, para além das contribuições monetárias, também se deu por divulgação em mídias sociais e afins. Inicialmente o evento possuiria palestras com Paulo Kogos (conservador e autodidata em economia e ciências políticas), Cristiano Chiocca (presidente do Instituto Rothbard, economista, tradutor e empresário), Rodrigo Souza (programador, trabalhou para NYSE e BMF Bovespa), Alexandre Porto (youtuber e pesquisador), Flávio Rebelo (empreendedor, cofundador do Empresários Pela Independência [EPI] e presidente do movimento São Paulo Livre) e Susanne Tempelhof (Fundadora da Bitnation e designada pela WIRED como uma das 10 pessoas mais dedicadas a privacidade e segurança dos usuários do mundo), esta última não ocorreu e, pelo menos para mim, nenhuma informação foi dada sobre. Além disso houve um “hype” de que talvez Hans-Hermann Hoppe (Filósofo e economista) palestraria no evento mas, de acordo com os organizadores, não se atingiu a meta financeira necessária para trazê-lo.

O evento além de ocorrer no espaço físico, também contou com transmissão ao vivo das palestras (mediante pagamento) para os que não puderam se deslocar até São Paulo. Os organizadores afirmaram que há planos para uma segunda conferência.

Primeira palestra: Cristiano Chiocca.

De acordo com Cristiano, nada é mais libertador que a busca constante pelo conhecimento e, portanto, a decorrente desenvoltura de senso crítico em caráter individual possuindo consequências sociais. Cristiano focou sua palestra em desmantelar o mito do estado ineficiente, usando o conceito de eficiência como sendo o de poder, efetividade, alcance de objetivos postulados previamente. Segundo o economista, ao contrário do discurso comumente visto no meio libertário, o estado é extremamente eficiente, afinal, ao contrário das ilusões românticas acerca do estado que o colocam como ineficiente em setores como saúde, segurança, educação, como se o mesmo possuísse objetivos nobres nessas áreas, a realidade é outra. De acordo com Chiocca dado visto que o objetivo da estrutura estatal é perpetuar a pobreza, a doença, as drogas e a ignorância, é um fato indelével que tal arranjo tem um status triunfal nesses aspectos. Não irei me preocupar em transcrever a palestra do Cristiano, basta dizer que, em resumo, ele apresentou gráficos advindos do governo brasileiro e estadunidense acerca de intervencionismos estatais e suas consequências práticas, dentre eles: Gastos na saúde que só crescem enquanto a qualidade do serviço só decai; gastos no combate a pobreza que crescem ininterruptamente enquanto a pobreza se mantém estável e, antes do intervencionismo estava decaindo; gastos com o esporte que, especificamente no Brasil, mais que dobraram nos últimos dois anos em tempos de recessão financeira; outro acerca da população carcerária sofrer um crescimento absurdo (mais de 500mil encarcerados por ano, nos EUA) desde a proibição das plantas do gênero cannabis; Como também dos gastos exponenciais com a educação estatal brasileira.

Segundo o empresário, a inflação nada mais é do que a proposital desvalorização da moeda por parte do estado (vide “metas de inflação”), decorrente das próprias dívidas criadas através do governo e do uso da expansão de base de crédito como medida paliativa. Nas palavras de Chiocca: “O estado é uma máquina que potencializa os vícios de forma massificada” e “O sistema eleitoral é feito para os piores. A política não é feita para liberdade, mas sim para privilegiar interesses privados.”

Após sua palestra, foi aberta uma sessão de perguntas.[1] A primeira questão foi se eventualmente o estado será insustentável. Cristiano respondeu que a destruição por si só já é insustentável, assim como o governo. Outra pergunta foi acerca do atual estado francês e se o mesmo duraria muito tempo como está, essa pergunta foi respondida com a exposição de que o estado francês já está ruindo mas, assim como qualquer outro, irá fazer a população pagar por isso. Uma questão que foi levantada por outro participante era sobre o ganho do estado com a destruição, de maneira alegórica o palestrante, baseando-se no economista Gustave de Molinari, relacionou o estado como dono de uma fazenda e a população como seu gado sacrificável. Eu mesmo cheguei a questionar Cristiano sobre uma constante confusão que observo nos meios libertários, a de tratar o estado como uma causa, e não como uma consequência da própria relativização ética; Chiocca me respondeu que, de fato, esse é um problema que só pode ser resolvido através da conscientização individual (ou seja, do estudo), e da própria desmistificação de uma suposta ineficiência estatal, assunto esse que era o foco de sua palestra.

Segunda palestra: Rodrigo Souza.

De acordo com o programador, criptomoedas e smart contracts (contratos inteligentes eletrônicos) são excelentes ferramentas de libertação social, chegando inclusive a proferir sentenças como “Bitcoin irá quebrar o estado”. Para ele, boa parte do poder estatal se dá justamente pelo monopólio da moeda que o estado garante para si mesmo enquanto estrutura. Também comentou acerca das vantagens advindas das criptomoedas como a falta de controle estatal, fato este que não ocorre em imóveis, veículos automotores e similares.

Terceira palestra: Paulo Kogos.

Kogos focou sua palestra na questão da privatização (não em caráter legalista, mas sim, transferir de fato a aplicação e manutenção de tal serviço aos indivíduos, propriamente dito) da segurança. De acordo com o palestrante, há dois tipos de policial estatal que se dão como maioria: O tipo que busca autoafirmação pela autoridade concedida pelo estado ao mesmo e o que busca estabilidade financeira e social; em ambos os casos são personalidades nocivas à se conferir qualquer autoridade. Segundo Kogos, o maior inimigo dos policiais que fogem desses dois arquétipos, ou seja, dos policiais minoritários que realmente buscam a segurança da população, é a corregedoria.

Para Paulo, Hobbes errou ao afirmar que sem o estado leviatã haveria guerra, pois é justamente da guerra que se alimenta o estado. De acordo com o palestrante, num mundo entendido por Hobbes como “de selvageria”, ao menos nenhum monopólio psicossocial de controle se legitima. Kogos também comentou do separatismo como forma de resistência, além de ter referenciado Hannah Arendt e seu conceito de banalidade do mal, decorrente do legalismo estatal. Também citou Montesquieu com a frase “Não há tirania mais cruel do que aquela perpetrada sob o escudo da lei em nome da justiça.”; Thomas Sowell com a frase “Se você não está preparado para usar a força em defesa da civilização, esteja preparado para aceitar a barbárie.”; e Thomas Paine com a frase “As piores tiranias se dão pelas melhores causas”.

Kogos dividiu sua palestra em tópicos, sendo o primeiro deles acerca do que é a segurança pública. Primeiramente apontou dois tipos de falha moral cometidas pelo governo “em prol da segurança”, sendo estas o uso da força contra agentes pacíficos e a abstenção do uso da força para proteção de inocentes. Logo após comentou sobre a consequência do “estado policial” que, na prática, desenvolve uma prisão à céu aberto, constantemente se contradizendo ao oferecer segurança em troca da liberdade dos civis. Os civis, é claro, ficam sem ambos.

Após isso falou sobre a etiologia, ou seja, o estudo das causas, da segurança. A causa final é a justiça, a formal são os arranjos institucionais, a eficiente é a demanda e, por fim, a material consiste nos recursos econômicos. Depois de discorrer de maneira abreviada sobre cada uma dessas quatro causas, o palestrante expõe uma teleologia (estudo das finalidades) da segurança pública; da cooperação autointeressada (Thomas Paine) à punição altruística (Ernst Fehr) sem deixar de lado a caridade e o afeto (G. K. Chesterton). De acordo com Kogos, a segurança pública real consiste no desempenho societal em manter resguardada de ameaças a capacidade de seus membros de exercer seus interesses legítimos.

O segundo tópico é focado na contradição hobbesiana e na natureza criminosa do estado, introduzindo o tema com uma frase célebre do filólogo e filósofo Nietzsche: “O governo é o mais frio dos monstros. Mente friamente: “Eu sou o povo”. Tudo o que o governo diz é mentira e tudo que ele tem foi roubado.”. Paulo inicia seu discurso apontando a contradição que existe em um monopólio de força resguardar a si mesmo o “direito” de ser o monopólio da segurança. Citando o paradoxo de Zenão, o palestrante entende que temos a liberdade de tirar a liberdade de quem nos tira liberdade. Adiante, expõe que a polícia estatal nada mais é que uma “anti-polícia”, ou seja, cumpre o papel oposto daquilo que supostamente deveria realizar. Se embasando novamente em Molinari, mostra a dicotomia entre interesse do consumidor em uma prestação de serviços descentralizada contra o interesse do produtor, em um monopólio artificializado do setor em questão, além de expor algumas implicações éticas e econômicas de tal monopólio (Hoppe). Kogos comenta também sobre os centros de gravidade artificiais decorrentes de tal administração, citando o exemplo recente do estado do Espirito Santo onde, após desarmar a população e prometer segurança, o estado ao se abster devido a greves, colocou a população em um estado de violência totalmente intensificado devido à falta de recursos possíveis de defesa para a maior parte da população. A polícia estatal nada mais faz do que proibir a produção de polícia.

O terceiro tópico tratou da incompetência seletiva da polícia estatal, sendo algumas de suas causas: O incentivos burocráticos, onde há maior preocupação com formalidades legalistas do que com a proteção da população per se; Os riscos não cobertos, ou seja, missões de alto risco com pouco ou nenhum retorno (de ordem econômica ou não); O viés métrico da demanda, que em caráter artificial consiste na mera numeração e distribuição (burocrática e prática) do que deveria ou não ser feito pelo corpo policial. O palestrante cita o exemplo grego de César e suas duas guardas reais (uma para se caso a outra falhasse e vice-versa), além de citar o caso McElroy onde um indivíduo cometia crimes de maneira impune e, somente após a população se revoltar e assassiná-lo, a polícia deu atenção ao caso. Após isso mostrou o percentual de homicídios resolvidos nos EUA de 1965 até 2013, mostrando uma ininterrupta decadência (de 90% em 1965 para 65% em 2013). Para Kogos isso não é surpresa alguma, tendo em vista que o monopolista sempre tenta racionar a oferta e não resolver os problemas da demanda. Ele ainda cita St. Agostinho: “Uma lei injusta não é lei alguma”. Após isso, comenta brevemente sobre as origens históricas do juspositivismo castrense, fonte da tirania policial. Iniciado em 1570 a.C. com Amozé I no Egito antigo, se deu pela monopolização da segurança pelo governo vigente, que antes era descentralizada; Depois, com Edward II em 1285 d.C. comentando brevemente sobre o estatudo de winchester e o juiz de paz; Até chegar em 1829, onde se deu o surgimento do que entendemos como polícia moderna, através do London Metropolitan Police Act. Findando o tópico com uma pergunta respondida por Robert Higgs: Existem bons policias? De acordo com Higgs, não.

O quarto tópico foi sobre a simbiose entre o estado e outros bandidos. Referenciando Antonio Gramsci, o palestrante comenta sobre o poder armado paralelo, “precisamos de um poder armado paralelo para desestabilizar as bases sociais.”. Além de trazer para discussão  Herbert Marcuse e sua legitimação cultural do delito, ou seja, a afinidade social para com o crime, colocando bandidos no lugar de vítimas, transferindo assim a imoralidade do indivíduo em questão para toda a sociedade à qual ele está inserido, inclusive mostrando reportagens recentes com títulos semelhantes à “Um bandido foi assaltar X e trocou tiros com a polícia, a vítima foi mortalmente ferida por um dos agentes policiais.”. O palestrante entende que dentre outros, os principais efeitos de uma sociedade “pró-bandidagem” são vícios sociais (como também apontado por Chiocca) e totalitarismo estatal. Porém, Kogos afirma que isso não é surpresa alguma, afinal, uma sociedade que tolera uma entidade como o estado, também irá tolerar entidades compostas por bandidos “comuns”. Paulo Kogos havia conversado comigo na hora do almoço e comentado sobre minha pergunta (acerca do estado como consequência, e não causa), na palestra, novamente levantou o tema e tratou da ética libertária, fazendo o adendo de que todo projeto totalitário visa destruir a(s) identidade(s) de seu alvo sociocultural.

Quarta palestra: Flávio Rebello.

No dia seguinte, a conferência se iniciou com uma conversa com o historiador Flávio Rebello, seguida da palestra, proferida pelo mesmo. Para Flávio, o estado vicia, destrói a mente das pessoas através da manutenção de suas próprias dependências. Fazendo uma comparação alegórica com o crack, Rebello entende que o brutalismo não é um bom caminho à ser seguido quando se busca a liberdade, afinal, como a droga pesada que é o estatismo, sua ausência pode causar crises de abstinência. O discurso do historiador possuía uma forte tendência dicotômica entre esquerda-direita no aspecto político e, apesar de se autoafirmar anarquista, seu discurso o entregou como liberal utilitarista, usando constantemente o apelo à funcionalidade e não a ética propriamente dita; Com a separação de São Paulo, para o empresário, o estado “só” cuidaria da educação e da segurança. “O Brasil é um país inviável”, disse, “É artificial em termos políticos, econômicos e culturais”. Durante sua palestra apresentou dados do governo acerca dos tributos de SP, o estado sozinho é responsável por 49% do orçamento federal, sem receber sequer 1/10 de retorno. Também comparou a situação do estado com a Escócia, Catalunha e Quebec de maneira superficial. Outra constatação proferida pelo palestrante foi que “São Paulo é uma nação de direita presa em um país de esquerda” e que movimentos de massificação intelectual acerca do separatismo são uma boa forma de produzir um gradualismo liberal eficiente (os presentes visivelmente não gostaram dos aspectos liberais e graduais). Seu discurso também possuía algumas contradições como afirmar que São Paulo seria livre de impostos ao mesmo tempo em que possuiria um “estado mínimo”, além da esperança democrática de que caso o governo de São Paulo fosse “tomado por esquerdistas” (em seus termos) era só as pessoas votarem para tirá-los de lá.

Quinta palestra: Alexandre Porto.

Porto focou sua palestra nos fundamentos do anarco-capitalismo, de acordo com o pesquisador o anarco-capitalismo (em sua vertente jusnaturalista) é uma teoria político-jurídica que visa determinar a lei correta, ou seja, a lei natural. Já em sua vertente utilitarista, como proposta por David Friedman, busca determinar a lei mais eficiente para o indivíduo e, consequentemente, para a sociedade como um todo. Alexandre referenciou Descartes e seu “Cogito, Ergo Sum” para introduzir suas reflexões acerca dos axiomas, ou seja, demonstrações sintéticas a priori, como definidas por Immanuel Kant. De acordo com o palestrante, os axiomas não são deduções lógicas, mas sim afirmações que são sempre verdadeiras, disso ele discorreu sobre quatro verdades, sendo elas: “Proposições existem”, “Eu faço proposições”, “Eu sou um ser consciente, pois proposições são estados da consciência”, “Eu ajo”. De acordo com ele, o “eu” só pode se ver na linguagem e quando alguém afirma que o ser humano age, este mesmo está constatando a posteriori tal afirmação, logo não se trata de um axioma. Para Porto, a formulação de meios e fins se dá em escala de preferência e a economia é justamente o estudo da valorização de meios e fins do indivíduo. Após isso começou a discorrer como se forma a valoração, em suas palavras, “O valor que as pessoas dão aos meios e fins é totalmente subjetivo” e proferindo um espantalho acerca da teoria de valor-trabalho marxista, afirmando que a mesma era totalmente objetiva. Após isso, deixou claro que entende o cálculo de preços por lucro como uma boa ferramenta na previsão de demandas naturais, afinal, pelo axioma da ação, compreende-se que recursos escassos são o meio da mesma se manifestar e que se todos os meios estivessem disponíveis não haveria ação alguma, mas sim, onipotência. A ação se utiliza de bens econômicos, como já dito, e é baseada na crença do indivíduo acerca de suas próprias preferências temporais. Se a ação é o uso de recursos escassos para alcançar fins e se o uso de meios escassos por vários indivíduos causa conflitos, logo se faz necessária a criação de leis (não de cunho estatal) para administração de tais recursos. De acordo com Alexandre, o conceito de auto-propriedade como entendido no anarco-capitalismo se aplica a todas as outras teorias econômicas e jurídicas.

Após sua palestra foi aberta uma sessão de perguntas. A primeira pergunta era sobre o conflito entre ser o próprio corpo contra ser dono do próprio corpo, qual das duas vertentes era a que estava de acordo com a ética libertária e porque ela seria mais coerente em relação à outra. Porto respondeu que o uso do corpo como meio da ação automaticamente torna o próprio corpo passível de conflitos, ou seja, terceiros quererem usar o corpo de determinado agente contra sua vontade. “Dono” aqui se dá em caráter de tomada de decisões últimas acerca do corpo em questão. Após essa pergunta, perguntaram ao palestrante sobre a ética hoppeana enquanto dever, como ela se aplicava? Em resposta, argumentou que entende a ética hoppeana como dever moral, a partir da linguagem se derivam as ações, embasando-se em Habermas. Por fim, eu mesmo perguntei se Porto havia lido “O Capital” de Marx e se ele percebia que a afirmação de que Marx considerava o valor trabalho como sendo totalmente objetivo era um espantalho dado as seções três e quatro da dita obra, que tratam especificamente de como Marx entende a formação de valores, inclusive lembrei que Marx possuía bases econômicas semelhantes às dos liberais (Smith e Ricardo, por exemplo), além de sua filosofia ter se baseado, dentre outros autores, na dialética de Hegel. Logo que fiz minha pergunta senti certa hostilização por uma parte da plateia, especificamente de um rapaz que me fez algumas perguntas sem me deixar respondê-las inicialmente[2]. Até que outro rapaz fez uma observação sobre a incompletude da teoria marxista acerca do termo, não negando que realmente há elementos subjetivos e objetivos na questão do valor trabalho, e respondi que aquela sim era uma crítica válida. Em outro momento após a palestra, Porto me agradeceu pela observação e comentamos que a dialética é realmente “muito bacana” (em minhas palavras).

Mesa redonda: Papel dos jovens na difusão do libertarianismo.

Iniciada com Rafael Seixista, contou sua experiência com o movimento libertário que se iniciou em 2014, apontou o problema da massificação da filosofia que desencadeia jargões, memes e afins. Para Rafael as conferências são excelentes para reunir público e promover o debate de ideias, ainda ressaltou a vantagem dos jovens devido à vitalidade dos mesmos. Na sequência Fernando Chiocca comentou que no mesmo ano que Rafael começou a ser ativo no movimento, ele estava deixando de ser. Fernando se iniciou no libertarianismo no início dos anos 2000, sendo influenciado por seu irmão, Cristiano. Ambos usavam o Mises Institute dos Estados Unidos como principal fonte de referência seja com relação à artigos ou obras completas. Inspirados no Mises Institute estadunidense, criaram o Instituto Mises Brasil, além de terem organizado diversas reuniões entre adeptos da ideia, convocando pessoas como Lee Rockwell, Thomas Woods e David Friedman. Também fundaram o Liber, mas se arrependem disso. Cristiano Chiocca afirmou estar feliz com a renovação que o movimento libertário brasileiro estava trazendo, ou seja, feliz com os novos adeptos da ideia e surpreso com a quantidade de pessoas que foram até a conferência. De acordo com Chiocca, o caminho do libertarianismo te abre para as artes, filosofia e conhecimentos em geral; através da desmistificação do estado e de sua política. Para ele, os jovens devem se engajar em debates, mas antes devem se elevar intelectualmente para tal, fazendo inclusive uma alegoria com o Disputatio Medieval e com as artes marciais orientais onde, num combate, ambos os adversários tem o intuito de crescer e contribuir para o crescimento de seu adversário.

Sexta Palestra: Paulo Kogos.

Em sua segunda palestra no evento, Kogos continuou a tratar da privatização, como já explicado, da segurança. De acordo com o palestrante, nós enquanto subjugados pela polícia estatal não temos segurança, afinal, no monopólio da segurança, é impossível que haja segurança contra o monopólio. Citando o presidente e inventor Benjamin Franklin, Kogos concorda que a “Desconfiança e a cautela são os pais da segurança” e ainda faz o adendo de que esse discurso se perde quando a massa trata a segurança do monopólio como benesse. Após isso, Paulo faz uma distinção sobre bens de ordem econômica negativa e positiva, sendo o primeiro a fim de evitar “desutilidades” e o segundo a fim de produzir utilidades; A segurança se enquadra como serviço de ordem econômica negativa. Segundo o pesquisador, quando possuímos um monopólio de segurança artificializado, o nível ordenado de segurança, a produção social de defesas, a moralidade, a cultura e o próprio ordenamento social se encontram ameaçados constantemente; afinal, não há qualquer incentivo real para tal monopólio prover quaisquer demandas atreladas a sua própria existência, mas sim realizar a vontade de seus produtores. Como já dito, e agora reforçado, “O monopólio só atende demandas de grupos de interesse, e não das massas” (Thomas J. DiLorenzo). Também foi levantada a questão psicológica com o “paradoxo de Kalashnikov” que consiste em “Quanto maior a sensação de segurança, menor a importância que as pessoas atribuem a ela”. Em termos simples, os vícios políticos estão intimamente atrelados a tal controle, enquanto um monopólio não precisa de fato prover a segurança, mas sim criar a sensação de proteção para aqueles que estão sendo manipulados. Paulo afirma que três fatores são determinantes no momento de se avaliar a segurança como um fim: A fonte moral de tal segurança, a fonte material de tal segurança e, por fim, o princípio da precaucionariedade ou simplesmente princípio da precaução. Após citar uma frase de Nicolás Gómez Davilla[3], Kogos apresenta algumas alternativas de segurança perante o monopólio, seguindo de exemplos históricos de cada uma delas. A primeira consiste em milícias civis/vigilantismo (auto-explicativo); a segunda em um arranjo de segurança orgânica institucional como elaborada por Hans-Hermann Hoppe; a terceira como sendo uma academia de polícia (lembrando, não monopolizada) semelhante à “residência” na medicina; a quarta na forma de seguradoras e assinaturas como proposto por David Friedman; a quinta através de contratos subsidiários que, particularmente, entendi como um caráter semelhante ao da auto-gestão como mencionado por Kropotkin ao analisar algumas comunas livres medievais; a sexta através de freelancers (caçadores de recompensas); e o último modelo citado (mas não o último possível) foi de consórcios com ganhos de escala. Para Kogos, nesses arranjos até o mais pobre teria acesso a segurança, seja em níveis “menores” como na primeira alternativa apresentada (vigilantismo), seja em níveis maiores, como vendendo a “recompensa” como forma de pagamento, assim como hoje podem vender os lucros de causa em alguns sistemas jurídicos.

Por fim, Paulo Kogos encerra sua palestra citando exemplos históricos onde a segurança descentralizada, mesmo quando permeada em sociedades monopolizadas, teve o papel de segurança de seus cidadãos, sendo eles: Atlantic Station Subscription Patrols  (EUA, sec. XX); Scuderie detetive LeCocq (Brasil, 1965 – 1985), esse especificamente, Kogos admite não ser um exemplo muito bom, apesar de ter conseguido exterminar criminosos reais, por ser uma iniciativa que se desprendeu do próprio monopólio, também exterminou inocentes. Surgiu com a morte de Milton Le Cocq, realizada pelo “Cara de Cavalo”, um policial corrupto que defendia bicheiros de serem roubados no jogo do bicho. Cara de Cavalo cobrava “impostos” dos bicheiros, Scuderie matou gente que até parecia com o Cara de Cavalo. Cara de Cavalo matou Le Cocq e seu “esquadrão” caçou (com efetividade) Cara de Cavalo, assassinando-o; Land Clubs (EUA, sec. XIX), tendo como referencial teórico a obra de Terry Anderson (Not so wild west), surgiu como um comitê de vigilância, pioneiros se juntavam e criavam procedimentos para resolução de conflitos, principalmente acerca de terras, cobravam taxas de arbitragem e quase sempre resolviam os problemas em acordos mútuos, a violência era usada somente como último recurso. Em Abilene, houve 2 anos consecutivos sem homicídios (até a vinda dos oficiais governamentais). O comitê de São Francisco antes contava com 100 mortes em seis meses, depois, apenas duas mortes em três anos; Schutteris (Holanda, sec. XVI), milícia composta de cidadãos de boa renda, armava a si mesma com equipamentos  para defesa pessoal e comunitária; Borh (Inglaterra, sec. XI), se resume a grupos voluntários que representavem seguros, deu lugar ao Frankenpledge devido a centralização realizada por William, “o conquistador”, organizando a sociedade em centros administrativos mandatórios, sem incentivos; Althing (Islândia, 930 – 1262), como assembleias, possuía incentivo de pegar os bandidos para sua própria sobrevivência. Os pobres podiam vendem seu direito a indenização para adquirirem o serviço caso não pudessem pagar. Se utilizavam também do ostracismo social contra dissidentes. Além de ter evitado guerras, tal sistema estabeleceu pacificamente o cristianismo, acabando com práticas de infanticídio tribais e relacionados; e por fim, Brehon (Irlanda, da idade do bronze até o século XVII), sistema baseado no tradicionalismo, preço de honra e costumes locais. Aplicação da lei praticamente inexistente, preocupava-se majoritariamente com a justiça natural, economizando assim recursos e estabelecendo mais facilmente a segurança. Esse sistema foi derrubado pelas perseguições de Cromwell.

Concluindo, não posso afirmar pelos outros presentes, mas pelo menos para mim a conferência foi extremamente agregadora. A única crítica negativa recai sobre a distribuição dos horários das palestras, mas nada grave. Também, como havia comentado no início do texto, houve stand-up e rap, mas não considerei relevante comentar mais a fundo sobre esses aspectos. Fiquei decepcionado com o fato de Hans-Hermann Hoppe não ter ido, afinal, foi o que inicialmente me motivou a ir (devido à minha dissertação para o mestrado, onde uso, dentre vários outros, o referido autor). A organização do evento está de parabéns em relação ao conteúdo  abordado e à escolha dos palestrantes, que eram desde gradualistas até brutalistas, promovendo debates saudáveis entre adeptos do austro-libertarianismo. Tenho certeza que o evento terá novas edições e que contará com um público cada vez maior, seja de adeptos, seja de contras. O importante é o debate de ideias, a desenvoltura do senso crítico e o respeito ao próximo, três coisas que presenciei no evento.

[1] Gostaria de deixar claro que nem todas as perguntas contidas nesse texto considerei serem “relevantes”, apenas irei expor algumas que creio merecerem destaque e de maneira resumida.

[2] Após a palestra, alguns colegas que fiz durante o evento me contaram de um boato que rolou falando que eu era marxista.

[3] “O homem amadurece quando ele para de acreditar que a política resolverá seus problemas”.

 

 Category: ESPECIAIS FILOSOFEI

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6 Comments

  1. Reply

    Cara, esse texto foi muito digno. Muito rico e informativo. Agora vc tem um seguidor! Abração

    1. Acervo Filosófico
      Reply

      Olá! Tudo bem, Ignácio? Agradeço pelo elogio, seja sempre muito bem-vindo ao Acervo Filosófico! Um grande abraço!

  2. Reply

    Excelente análise. Rica de detalhes e conteúdo informativo. Havia lido ontem mas não tinha comentado aqui ainda…
    Sua presença e questionamentos foram muito importantes para nós, esperamos contar com você num próximo evento! E chame seus colegas do acervo filosófico também, será um prazer recebê-los em nosso evento! =)
    Quem sabe não trazemos o Hoppe num próximo? Vamos nos esforçar pra isso.
    Um abraço, professor!

    1. Acervo Filosófico
      Reply

      Oi, Arthur! Tudo bem? Agradecemos pela leitura e pelo comentário! Que bom que você gostou do conteúdo! Seja sempre bem-vindo no Acervo, valeu pelo convite! Um grande abraço!

  3. Reply

    Muito bom o texto, bem informativo e imparcial, conheci o site agora e com certeza o seguirei, abraço!

    1. Acervo Filosófico
      Reply

      Olá, Diego! Tudo bem? Agradecemos pelo elogio. Que bom você gostou do texto, seja sempre bem-vindo ao Acervo Filosófico. Você pode nos acompanhar pelas redes sociais, estamos no Instagram, Twitter e YouTube, e estamos sempre postando as novidades do site! Abraços! Até mais!

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