O ABSURDO COMO TEMA DO ÁLBUM DRUSBA:

By Acervo Filosófico

por Juliana Vannucchi

Camus foi um dos pensadores mais importantes da contemporaneidade. Foi filósofo, dramaturgo e romancista. Nasceu em Mondovi (Argélia) no dia 7 de novembro de 1913 e faleceu em Villeblevin (França) em 4 de janeiro de 1960. Destacou-se pela intensidade e qualidade de suas obras literárias, chegando inclusive, a receber um Prêmio Nobel de Literatura em 1957. Um dos legados mais relevantes do pensador foi um ensaio filosófico chamado “O Mito de Sísifo”, lançado na França em 1942. Nesta obra, Camus desenvolve a teoria do Absurdo, que busca analisar a existência de um possível sentido para a vida. O autor inicia seu livro com uma célebre frase reflexiva: “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não ser vivida é responder á pergunta fundamental da Filosofia”. Essa passagem nos levar a indagações e meditações profundas sobre a possibilidade da existência de um valor ou um sentido para a vida. E caso esse sentido não exista, então estamos inseridos num contexto absurdo, insignificante e efêmero e, portanto, será que vale a pena continuarmos vivos? Devemos desistir dessa existência vazia ou é possível encontrarmos felicidade nessa inevitável tragédia cotidiana?

No capítulo final do livro, o leitor depara-se com uma comparação feita pelo autor entre o absurdo da vida humana e a situação de Sísifo, personagem da mitologia grega, que é condenado a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, sendo que, todas as vezes que se aproxima do topo, a pedra rola novamente para baixo e invalida o duro esforço despendido. Essa repetição pela qual o personagem está condenado pode ser comparada com a nossa condição cotidiana.

Composta por Karolina Escarlatina (voz e baixo) e Zaf (teclados, e-drums e guitarra), a banda nacional Escarlatina Obsessiva tem sido destaque no cenário underground dos últimos anos. Em dezembro de 2015, esses lançaram seu mais recente álbum, o Drusba. “Drusba” é um título intrigante! O que significaria essa palavra? Muitos fãs tem se esforçado para compreender. Mas o segredo está oculto na ordem inversa da palavra que, se escrita ao contrário, significa “absurd” (absurdo). D-R-U-S-B-A: A-B-S-U-R-D. E de onde veio essa ideia? A inspiração veio da filosofia do pensador Albert Camus, mencionada acima, e a condição absurda da existência humana foi o tema principal do álbum mencionado. Conforme comentou Zaf: “o disco é um sanduíche de Sísifo, e o livro foi muito importante para a criação do contexto.

Um dos maiores destaques do Drusba foi a faixa “Marcello”, que rapidamente se popularizou nas redes sociais. Zaf, autor da letra, contou: “A música Marcello, como todas, é também desenvolvida sobre este fundamento (Absurdismo/Mito de Sísifo), e desenvolve este tema a partir do ponto de vista do tédio, da “noite da vontade”, do absurdo da temporalidade, e da insignificância da vida humana”.  O compositor contou que leu O Mito de Sísifo há cerca de três anos atrás e que ficou impressionado com o pensamento de Camus sobre o absurdo como única via de compreensão da realidade. Ele também explicou o título da canção, que é uma referência ao ator italiano Marcello Mastroianni: “A relação com Marcello Mastroianni, além de algumas características sonoras da música que remetem aos temas de Nino Rota nos filmes de Fellini, vem também da citação que ele (Marcello) faz a respeito de um conto de Kafka, em uma entrevista já no fim de sua vida, em que ele faz a analogia entre a caminhada da existência, com a morte presente, visível no horizonte, e a curta jornada de um viajante a uma aldeia que sempre parecia longe, mas estava sempre visível, ameaçadora e próxima demais”.  Além disso, Marcello possui inspiração num conto de Voltaire chamado “Micrômegas”. Nessa história, um alienígena gigante vem ao planeta Terra e se depara com um navio cheio de seres humanos, com os quais estabelece um diálogo filosófico. “A gigante conversa com os humanos sobre a insignificância humana e seus limites intransponíveis”, comentou Zaf.

Mas não é somente na referida música que existe essa influência. O compositor explicou que usou a ideia da “grandeza absurda” no “’crescendo” da primeira faixa (Drusba) e da última música (The Absurd Man/ em português: O Homem Absurdo) e que também usou, nas três partes distintas destas duas músicas, a referência a 3 estágios, conforme a análise que Camus faz do “The Possessed” do Dostoiévski: o homem que crê, o homem que duvida, e o homem que cria Deuses).

A banda disponibilizou todas as faixas do álbum para download em seu site oficial e pretende lançar material físico em janeiro de 2015. Provavelmente será o álbum mais filosófico de 2016. Vale muito a pena explorar a complexidade de Drusba, viajar em suas melodias e refletir sobre suas letras.

Escarlatina Obsessiva:

Site oficial: http://www.escarlatinaobsessiva.com/

Página no Facebook: https://www.facebook.com/escarlatinaobsessiva

Canal no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCDRqi7izbhiazOcgGx4Jx1Q

 Category: MÚSICA e FILOSOFIA

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