O ANEL DE GIGES – PLATÃO:

By Acervo Filosófico
Por Juliana Vannucchi

    A História do Anel de Giges é um texto presente nos Livros II e III da obra A República, de Platão. Trata-se de um diálogo entre Glauco e Sócrates, no qual ambos refletem sobre a justiça e a injustiça. É válido mencionar que este referido tema que tange o contexto do texto em questão, é objeto de reflexão desde o Livro I, e também segue sendo abordado em alguns momentos, ao longo do Livro II.  Glauco pretende mostrar para Sócrates que a justiça e a injustiça caminham sempre juntas. Além disso, quer refletir sobre como ambas agem diante dos impulsos causados pela paixão. Para apresentar esta ideia, utiliza-se de um recurso imaginário, que é uma história cujo personagem central é Giges. 

   Abaixo, segue um resumo do relato de Glauco e também da sequência do texto que sustenta o restante do diálogo até o final do Livro II, III. 

Certa vez, Giges estava trabalhando como pastor para Creso, um antepassado seu que na ocasião era rei da Lídia. De repente, um terremoto acompanhado de uma tempestade tomaram conta do ambiente, e a violência de tais eventos naturais rompeu o solo, abrindo uma fissura. Curioso, Giges desceu pela fenda e acabou por deparar-se com muitas coisas encantadoras. Dentre as quais, havia um cavalo de bronze oco com certas aberturas. Espiando por uma das tais aberturas, viu um cadáver nu que possuía um anel de outro em um de seus dedos. Giges pegou o referido objeto, e então retornou para a superfície. Conforme ocorria todo mês, os pastores se reuniram para prestar contas ao rei. E como de, Giges, com o anel em um de seus dedos, preparou-se para participar de tal ato. Em certo momento, ele virou o engaste do anel para dentro da mão e tornou-se invisível. Intrigado, girou-o para a direção contrária e tornou-se visível novamente. Giges fez alguns testes com o anel e passou a dominar seu poder. A partir disso, escondido, começou a frequentar o palácio e tornou-se amante da rainha, com quem assassinou o rei, tomando o poder para si. 

  Glauco, após finalizar a história, reflete: se houvesse dois anéis como o da narrativa, e um fosse dado ao homem justo e outro ao injusto, ambos iriam, igualmente, tirar vantagens de várias situações conforme fosse suas vontades. Portanto, justo e injusto caminhariam junto e justiça não seria praticada por espontaneidade ou por possuir alguma recompensa em si mesma, mas apenas por necessidade.  Glauco afirma também que o homem sempre acredita que a injustiça é mais útil do que a justiça. O homem injusto deve ser hábil tão qual é um artista e deve cautelosamente e passando despercebido. Não deva errar, mas se o fizer, precisa contornar o fato. Há de ser corajoso e persuasivo em suas ações. Se alguém, por ventura o desmascarar, então o injusto estará sendo medíocre, pois o cúmulo da injustiça seria parecer justo sem de fato o ser.  Por outro lado, o homem justo é aquele que sempre é nobre e simples, sendo bom, e não apenas parecendo o ser. Supondo que este tipo de indivíduo tenha fama de ser injusto, ele deve resiste à má fama e continuar firme até o momento de sua morte. Considerando estes dois perfis opostos cujas finalidades e modos de agir estão determinados, é possível saber qual dos dois tipos de homem é mais feliz. 

    Sócrates intervém elogiando Glauco que ressalta suas as observações, assegurando que essas declarações, na realidade, não pertencem a si, mas sim aos homens que “exaltam a injustiça em detrimento da justiça” (PLATÃO, 2006, p. 53), pois o homem justo sofre de muitos males que o fazem perceber que não vale a pena querer, de fato ser justo, mas somente parecê-lo. O injusto, em contrapartida, age de maneira honesta e conduz sua vida de maneira real, não pelas aparências. Assim, terá uma reputação melhor e conquistará sempre aquilo que lhe apetece, tal como bons contratos na sociedade, as mulheres que escolher ter, domínio da cidade, etc. Glauco finaliza sua reflexão com a seguinte frase: “Por isso, Sócrates, os partidários da injustiça afinaram que os deuses e os homens asseguram ao injusto uma existência melhor que ao justo”. (PLATÃO, 2006, p.53). 

   Conforme esclarecido no primeiro parágrafo, as reflexões sobre o tema continuam a desdobrar-se. A narrativa exposto por Glauco é intrigante e pode levantar muitos questionamentos. Quando somos justos, será que estamos agindo por vontade própria, ou somente conforme somos conduzidos a agir para preservar uma imagem? Seria a justiça uma hipocrisia? A natureza do ser humano é justa ou injusta? Como p homem age quando há diante de si, a oportunidade de obter algum tipo de vantagem? 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

Platão. A República. São Paulo: Escala Educacional, 2006. (Parte 1). Coleção: “Série Filosofar”. Tradução de Ciro Mioranza.

 

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