O ANJO DE BENJAMIN:

By Acervo Filosófico

Por Pedro Bracciali

Walter Benjamin (1892 – 1940) comprou o desenho de um anjo: obra de Paul Klee por transfer de óleo e aquarela em papel. Foi em Munique no ano de 1921, e ele manteve-o consigo até a sua morte, quando então suas posses após o termino da guerra foram passadas para o amigo e filósofo da Escola de Frankfurt, Theodor W. Adorno (1903 – 1969). Este por sua vez conservou o desenho até a sua morte também e, posteriormente, a posse do quadro transferiu-se para outro amigo em comum, o erudito do misticismo judaico Gershom Scholem (1897-1982) e, finalmente, após sua morte, a viúva doou a obra para o Museu de Israel no ano de 1987 [1]. Nesse período, o Angelus Novus, como ficou denominado, ficou sem evidência no trabalho de Paul Klee, e só mais tarde se tornou uma das obras mais importantes no legado do artista, devido ao histórico de ter passado pelas mãos de dois dos mais importantes filósofos da modernidade. Criou-se uma ‘aura’ na obra de arte, por certo.

Pode assim, Benjamin, admirar o Angelus Novus por longo período e deixar-se levar por questionamentos nem sempre otimistas, estabelecendo uma dialética entre a intuição mística judaica e a racionalidade. O contemplar estético conduz mesmo a esse perguntar de espanto: o que é isso, esse anjo? A estética tem essa força que conduz aos altos caminhos do espiritual! Na sua nona tese “Sobre o Conceito de História”, Benjamin, que possuiu a tela por muitos anos escreveu: [2 p. 226]

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. ”

A história constitui-se de uma cadeia de acontecimentos que apenas se repetem. Ela não promove no presente a força suficiente para uma renovação e o futuro desvela-se sempre como se fosse um evento do passado. O anjo da história tem o aspecto do Angelus Novus, com os seus olhos esbugalhados ele tem uma visão consciente dos fatos passados e vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de despertar os mortos, mas não pode. Uma tempestade do paraíso impede-o e impulsiona-o também de costas para o futuro. O futuro que ele não enxerga. O que é isso, a história?

O progresso reclama sempre mais corpos, pessoas dignas de dó que passam a vida num inferno de trabalho para poder consumir. Pessoas que se somam a uma multidão triste, num mundo cinza e sem natureza. Tudo porque sem os indivíduos em números cada vez maior o progresso sem alma para, e esse tipo de mundo morre. O que é isso, o progresso?

Em carta enviada a Benjamin em 1933, Scholem descreve em poema o mesmo anjo de Klee. Parte desse poema serve de epígrafe à nona tese: [3 p. 136]

Pendo digno da parede / sem olhar a ninguém / Enviado fui do céu / E cá estou anjo-homem.
O humano em mim é bom / mas não me interessa / Sirvo ao bem supremo / e de rosto não preciso.
O mundo de onde venho / é mensurado, profundo e claro. / E o princípio que me sustenta / aparece aqui em seu resplendor.
Em meu coração a cidade / à qual Deus me enviou / O anjo com este signo / não sucumbe aos seus encantos.
Asa preste a voar / voltaria de bom grado / pois ao ficar uma vida inteira / muito feliz não seria.
Meu olho é negro e pleno / meu olhar nunca se esvazia / sei o que tenho de anunciar / e sei muitas coisas mais. ”
Não sou símbolo / significo o que sou / Você gira em vão o anel mágico / eu não tenho sentido. (SCHOLEM, 1993, p. 119)

Walter Benedix Schönflies Benjamin suicidou-se em 26 de setembro 1940 por uma overdose de morfina, em Portbou, quando empreendia uma fuga dramática da França para a Espanha através dos Pirineus. Narra-se que a polícia espanhola o reteve, juntamente, com um pequeno grupo de refugiados, após a invasão alemã na França. No hotel, temendo ser entregue à Gestapo, preferiu outra solução. Nesse momento derradeiro, sua saúde já estava seriamente comprometida, contudo a vida tem dessas coisas: narra-se também que no dia seguinte as autoridades liberaram a passagem do grupo, que seguiu o seu caminho – Benjamin ficou. Foi sepultado num cemitério local e alguns anos depois não restaram mais indícios de seu túmulo. Sem sepultura e sem documento, tornou-se cidadão do mundo, por conta de que sua cidadania alemã lhe foi destituída em 1939, ao tempo em que não conseguiu a naturalização francesa. [4]

REFERÊNCIAS:

[1] KLEE, Paul. Angelus Novus. Museu de Israel. Jerusalem. Ano de criação 1920. Oil transfer and watercolor on paper 31.8 x 24.2 cm. Public Domain. Disponível em: <http://www.imj.org.il/node/192356#>. Acesso em 02 jun 2017.

 [2] BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história in: Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. 3 ed. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 222 – 232. Tradução de Sergio Paulo Rouanet, prefácio de Jeanne Marie Gagnebin.

 [3] BAPTISTA, Mauro Rocha. Sobre anjos e folhas secas: em torno do Angelus Novus de Paul Klee. HORIZONTE, Belo Horizonte, p. 136, mai. 2009. ISSN 2175-5841. Disponível em: <http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/427>. Acesso em: 02 Jun. 2017.

[4] NÚCLEO BRASILEIRO DE ESTUDOS WALTER BENJAMIN (NBEWB) (Brasil) (Org.). Biografia. 2007. Fonte citada: Márcio Seligmann-Silva. (Org.). Leituras de Walter Benjamin. 1 ed. São Paulo: FAPESP e Anna Blume, 1999, v. 1, p. 201-208, 2ª edição. Disponível em:          <http://www.uesc.br/nucleos/nbewb/biografia.html>. Acesso em: 15 set. 2016.

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