O DESESPERO HUMANO:

By Acervo Filosófico

Por: João Arruda

Quem há que não tenha dúvidas? Poucas ou muitas, não há quem não as tenha. Tenho somente escrito e pensado em tom interrogativo, pois é somente isso que tenho conseguido: ter dúvidas. Sou rodeado por elas, mas não as deixo serem findadas rapidamente, as deixo como companheiras que me martelam deveras. Não as sacio com a primeira hipótese que me vem à mão, deixo que as próprias dúvidas duvidem o quanto for possível das hipóteses e que vença a realidade. Esta luta demora muito, ou quase sempre a dúvida ganha.

E quem há que não tenha dúvidas? Um homem sem dúvidas é um néscio, ébrio, apático, pronto pra ser enterrado; e não é porque não as tenha, é porque as esconde com todas as suas forças sob a consciência. Assim como não há quem não têm dúvidas, não há quem esteja livre do desespero, seja aquele que esconde a dúvida, seja aquele que a olha de frente, seja aquele aberto ao infinito, seja aquele totalmente fechado a ele; seja aquele que quer ser ele próprio ou aquele que quer ser outro, ou até aquele que ignora ter um eu. Kierkegaard há muito tempo escreveu sobre a universalidade do desespero e não deixou dúvidas enquanto a isso. Não há homem que, confessando pra si próprio toda a sua história e se autoanalisando, não ache no imo peito uma “inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer. (KIERKGAARD, 2010, p.37). O homem traz latente em si essa enfermidade, e que em algum momento de sua vida ele percebe lampejos de sua presença, e as dúvidas que atormentam-nos também fazem parte desses lampejos. Até aqueles que ignoram deveras qualquer manifestação dessa doença do eu é desesperado, pois não ter consciência de o ser é precisamente uma forma de desespero.

Não há homem que, confessando pra si próprio toda a sua história e se autoanalisando, não ache no imo peito uma “inquietação, uma perturbação, uma desarmonia (…)

Tomando o conceito de Kierkegaard do eu, que é o orientar-se da relação para a própria interioridade, esta relação é a que existe no homem: “O homem é uma síntese de infinito e de finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade, é, em suma, uma síntese.” (KIERKGAARD, 2010, p.25). Na simples síntese desses termos, ainda não há eu; há quando a própria relação entra como um terceiro elemento e cada um desses termos se relaciona com a relação. Esta relação é estabelecida ou por si ou por outro, e estas duas formas de estabelecimento da relação tem como consequência duas formas de desespero: se a relação do eu for estabelecida por ele próprio, há o desespero de não querermos ser nós próprios; se foi estabelecida por outro, há este desespero: a vontade desesperada de sermos nós próprios. A grosso modo, está mostrado o conceito de Kierkegaard sobre o eu, o qual é o sustentáculo do desespero.

O desespero é considerado por Kierkegaard como a doença mortal. Doença está que, bem longe de se morrer dela, ou de que o tormento se esvaneça com o último suspiro da carne, “a sua tortura, pelo contrário, está em não poder morrer, como se debate na agonia o moribundo sem poder acabar.” (KIERKGAARD, 2010, p.31). E quem há que, percebendo-se rodeado pelo caos, não sentiu uma luz dentro de si que ao mesmo tempo clareia a escuridão e te queima? O apóstolo João já nós dizia, no prólogo do seu evangelho, verbalizando seu juízo inspirado pelo Logos Divino: “et lux in tenebris lucet, et tenebrae eam non comprehenderunt – E a luz nas trevas brilha, e as trevas não a contém. Eis que, essa luz que no evangelho é Jesus Cristo, aqui nessa imagem torna-se o eu: “Assim como um punhal não serve para matar pensamentos, assim também o desespero, verme imortal, fogo inextinguível, não devora a eternidade do eu.” (KIERKGAARD, 2010, p.31). Pois que a treva do desespero nunca contém a luz do eu.

Importante salientar é que um homem sem vontade é um homem sem eu, e também que entre a consciência e a vontade há uma proporcionalidade de medida: quantos mais a consciência cresce, mais vontade cresce e vice e versa. Pois bem, há quem ignore ser espírito, e se fecha à uma cosmovisão na qual só existe o sensual e o imediato. Estes são os homens que estão longe de considerar como supremo bem a relação com a verdade, e que estão longe de concordar com Sócrates que a pior das infelicidades é estar em erro. Estes são os que, pedantes com cargos sociais e toda sorte de bens matérias, ignoram por completo a existência de uma luz eterna dentro de si. “Porque a sua vida só conhece as categorias dos sentidos, o agradável e o desagradável, e manda passear o espírito, a verdade etc.” (KIERKGAARD, 2010, p.61). O que atormenta estes homens também é desespero, segundo Kierkegaard, a saber: “O desespero que se ignora ou a ignorância desesperada por ter um eu, um eu eterno. O desesperado que ignora sê-lo está muito mais longe da salvação, mesmo que o seu desespero seja o menos intenso, porque com a ignorância fica muito mais distante de destruir ou de transformar o desespero; como há de curar-se alguém que não se reconhece doente? Este desespero que se ignora é a forma mais frequente do mundo: no mundo no sentido cristão, constitui precisamente esta espécie de desespero. Está fadado ao desespero todo “homem que não se conhece como espírito ou cujo eu interior não tomou em Deus consciência de si próprio.” (KIERKGAARD, 2010, p.64).

Tomando o desespero abstratamente, há dois extremos do desespero, a sua inconsciência total e a sua completa consciência, e há tonalidades entre essas. Subindo em tonalidade para a consciência, sobe também a intensidade do desespero, mas este é o começo do caminho para a sua salvação, não há outro.
Contudo, vejo que há sempre o desespero quando um lado da balança, da constante tensão da vida humana, pesa mais que outro, assim a síntese não sai equilibrada. Na tensão da categoria de infinito e finito, se o homem pender somente pra um lado, esquecendo-se do outro, ele cai no desespero; pois que “o eu é um síntese de finito que delimita e de infinito que ilimita.” (KIERKGAARD, 2010, p.47). Se não houver o finito que balize o infinito, o homem se perde no puramente imaginário, assim, esquecendo-se que seus pés prendem-se ao chão duro e seco do finito; e quando o homem fecha-se ao finito, ele nega a sua própria humanidade a qual o diferencia dos outros animais, que é essa abertura à infinidade. Esse estreitar-se ao finito, “não se trata aqui, naturalmente, senão de estreiteza e de indigência morais.” (KIERKGAARD, 2010, p.50). Na tensão entre a categoria do possível e da necessidade acontece o mesmo: a necessidade, o campo do possível, exerce a função de reter. E assim acontece o desespero quando não há equilíbrio entre as diferentes categorias de tensões que existem na existência humana.

Assim, acho que é cumprido o papel deste texto, que é o de nada mais que instigar o leitor à leitura desta obra, a saber: “O Desespero Humano” de Kiekergaard, e apresentar-lhe os conceitos básicos deste, deixando buracos propositais, pois que é premeditada fazer-lhe curiosidade que o leve à leitura completa; outro papel: abrir-lhe brecha nos olhos para este campo de assuntos existenciais o qual faz-se necessário e mui interessante, desde que o leitor não se prive do que torna-lhe humano. Há de prestar atenção em suas dúvidas e saber que se as têm é porque há um eu a criá-las, há um espírito precisando ser ouvido e alimentado. Ouves tu próprio, ó descendente de Adão!

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

KIERKEGAARD, Soren. O Desespero Humano. Editora: Unesp, 2010.

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