O ESTUDO DA FILOSOFIA:

By Acervo Filosófico

Por Paulo Pedroso:

      Geralmente, após se interessar por Filosofia e romper as barreiras necessárias para engatinhar dentro desta área, muitas pessoas caem em armadilhas, sendo que uma das principais delas é tentar ler conteúdos que alguma outra pessoa já iniciada nos estudos filosóficos está lendo. Acredite: isso não é uma boa ideia. Alguns livros, das mais diversas áreas, são conhecidos pela complexidade escrita e/ou temática e, no caso da Filosofia, não são poucos que possuem tais traços, aliás, a maioria é dessa forma. Por várias razões, como, por exemplo, se desafiar ou tentar impressionar alguém, algumas pessoas  “pulam” direto para livros muito complexos que exigem um grau avançado de conhecimento em Filosofia. Porém, é interessante e recomendável que antes de aprofundamentos, haja pré-conhecimentos de vários conceitos básicos e essenciais para um possível entendimento de alguns termos mais complexos.

Outra armadilha bastante comum além da que foi citada no parágrafo inicial, é nunca sair da superfície dos estudos filosóficos. Isso acontece quando um indivíduo lê algum autor que, por sua vez, leu/estudou certos filósofos, mas não lê as obras originais de tais pensadores. Definitivamente, não vale a pena ler apenas comentaristas. Conforme certa vez escreveu Schopenhauer: “Ler o que outros escreveram sobre Filosofia ao invés de ler obras originais, é o que mesmo que querer que mastiguem nossa própria comida”. Além disso, por vezes, o interessado nos estudos da área lê publicações reflexivas sobre temas diversos, familiarizando-se com títulos como “A Filosofia Por Trás da Matrix”, “A Filosofia dos Filmes da Marvel”, “Filosofia em Picasso”, entre tantos outros, que são o limite do Marketing e são tipicamente títulos “isca”. Além dessas reflexões, há também os livros tidos como profunda filosofia, mas que na verdade são apenas paliativos para a “vontade de filosofar”, dentre estes o mais famoso é sem dúvida, O Mundo de Sofia.

Dado este breve panorama sobre obstáculos e armadilhas vamos aos títulos, para diferentes níveis de profundidade conforme seu tempo e interesse:

  1. Fundamentos da Filosofia, de Gilberto Cotrim e Mirna Fernandes: 

   O mais básico e mais didático de todos, em edição única esse livro é uma das opções que as escolas públicas recebem para o ensino de filosofia. Apresenta como opção tanto o método histórico cronológico, como o temático. Pode ser facilmente adquirido em Diretorias de ensino ou com algum ex-aluno do ensino médio, a cada três anos ganha uma nova edição, mas pouca coisa muda além da capa. Por ser um livro didático apresenta reflexões, textos de apoio e exercícios que podem ser usados ou ignorados conforme o interesse. É bom para pesquisas básicas e até mesmo aleatórias, escolher um capítulo e adicionar algo a seu repertório.

  1. A História da Filosofia Ocidental, de Bertrand Russell: 

   Normalmente dividido em três volumes, embora algumas edições apresentem quatro. Mas há também um volume único, e é possível encontrá-lo (versão digital) em sites de compartilhamentos e trocas de livros. Esta obra usa o método tradicional de estudo de filosofia, que é o método histórico cronológico em que os conceitos se desenvolvem de maneira linear e as ideias posteriores, ou se baseiam nas anteriores ou as negam.  É menos pedagógico do que os autores contemporâneos, mas é mais crítico. Essa obra é capaz de ir além do básico até um nível intermediário, embora ainda careca da complexidade de livros específicos e/ou avançados.

Russell opina bastante e faz inúmeras análises, não se limitando apenas em oferecer conceitos e contextualizá-los. Embora tenha sido escrito no século XIX, não aborda nada sobre filosofia contemporânea, partindo dos pré-socráticos e estendendo-se até a filosofia moderna. O volume sobre filosofia medieval é o mais curto. Vale citar uma crítica feita a Russell por muitos contemporâneos: muitos consideram que este pensador nem sempre é imparcial como devem ser os filósofos. Russell parece apresentar certo desdém para com as religiões e suas interferências na filosofia. A filosofia medieval, também conhecida como filosofia católica é especificamente abordada de maneira mais crítica e negativa.

  1. História da Filosofia – Giovanni Reale & Dario Antiseri: 

   Algumas edições têm sete volumes, outras nove e não são livros curtos, sendo que a extensão revela sua profundidade e completude. Embora seja complicado, é possível encontrar os volumes avulsos na internet. Porém, para os amantes das versões físicas, sinto informar que não custa pouco. 

   Há uma grande distinção entre algumas edições desse livro que fazem uma diferença significativa: as mais qualificadas, possuem páginas ao final de cada capítulo, que são normalmente azuis, e contém notas sobres os autores e seu modo de pensar, além de trechos de textos originais dos autores ali tratados. Fique atento a este detalhe se pretende comprar algum. Essas últimas páginas valorizam as obras. 

   O livro, de maneira geral é bem técnico, com poucas ilustrações e possui parágrafos e textos longos. Contém temas, assuntos, análises, comparações e se aprofunda em cada ideia, carregando, ao final de cada capítulo, contextualizações, comparações, quadros sintóticos e diagramas. Este livro é indicado para quem busca se aprofundar, indo do básico ao avançado.

   Alguns estudiosos da Filosofia criticam os métodos usados nesses livros. Há de se dizer que a história da filosofia é uma base para se aprofundar em outros conceitos, então não se deve limitar o estudo da história da filosofia apenas em tais livros, sem se aprofundar nos temas pertinentes a cada época.

    Depois de estudar o nível básico, adquirido conceitos suficientes e prática suficiente para não apenas ler filosofia, mas também absorvê-la e aprende-la, naturalmente, tende-se a abrir-se um leque de opções, sendo a maioria mais complexa (como citado no começo desse texto): a Filosofia Política, a Filosofia da Ciência, Epistemologia, cultura e sociedade, mundo pós-moderno, o mundo fenomênico Kantiano, Ontologia em Nietzsche, etc.  Além disso, há algumas conexões com outras áreas, tal como a Ciência, a Sociologia, a Psicologia e até mesmo a Informática e outras. 

   Além da recomendação desses livros, para aqueles que pretendem ir além do básico, existe uma recomendação que parece exagerada de início, mas se justifica ao longo do processo: aprender outros idiomas, mesmo que basicamente, pois isso facilita a compreensão de termos em seu léxico original. A etimologia faz diferença em alguns casos, seja em estudo de termos gregos, latinos, alemães, franceses ou ingleses.

  Se, por acaso, você se interessou por uma obra complexa ou avançada, tentou ler e não conseguiu e consequentemente desanimou-se, isso pode ter acontecido por pular algumas das etapas mencionadas nesse texto. Sugiro que busque aprender técnicas de como ler mais adequadamente textos filosóficos, e que procure, inicialmente, livros mais básicos como os aqui citados anteriormente, para que, depois, desafie-se a reler alguma obra que em algum sentido, inicialmente pareceu complexa. 

 Category: INDICAÇÕES

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