O QUE BOWIE VIU DO ESPAÇO?

By Acervo Filosófico

por Bruno Moreira

Este mês completaram-se dois meses que David Bowie veio a falecer. Porém, as muitas homenagens póstumas parecem estar longe de chegar ao fim. De blocos de carnaval a apresentações monumentais em premiações como o Grammy e o Oscar, entre outras, a imagem e a música de Bowie têm sido visitadas e revisitadas; e a cada execução fica mais evidente o fascínio por sua obra, que realmente possui um caráter atemporal.

Até mesmo o seu belo, complexo e derradeiro álbum Black Star tem sido interpretado como uma obra poética justamente sobre a morte do artista. O clipe de Lazarus tem instigado as mais diversas interpretações, e a maioria delas relaciona a faixa e a visceral interpretação de Bowie ao luto que veio a seguir.

Algo de comum aparece, no entanto, na forma com que todos os fãs e artistas que o homenagearam e homenageiam costumam descrever Bowie. Nos vários discursos vistos nos últimos meses, as palavras “vanguarda”, “revolucionário” e “inovador” estão sempre presentes, mostrando talvez o principal ponto de uma carreira que inspirou artistas das mais diversas vertentes, além de pessoas de todos os tipos.

Proponho-me aqui a analisar brevemente – espero – uma obra de Bowie que mostra, de fato, que o mergulho do artista britânico na condição humana é muito mais profundo do que as produções midiáticas mais recentes nos permitem supor. Faz-se necessária aqui uma breve contextualização histórica. Os anos que sucederam a 2.ª Grande Guerra foram caracterizados por um grande impulso da indústria e do comércio, por um frenesi tecnológico e por uma situação há tempos sonhada pelo homem, a qual então se apresentava muito próxima da concretização. A empolgação com a possibilidade real de viagens espaciais tripuladas atingia o imaginário de todos, desde pessoas comuns até incansáveis cientistas; e como não poderia deixar de ser, dos artistas da época. A corrida espacial foi pano de fundo para músicos, cineastas e a mais variada gama de artistas, entre os anos 60 e meados dos anos 70. Dentre as mais famosas e notáveis produções da época que foram influenciadas pelas jornadas estrelares tão sonhadas, destaco aqui Rocket Man, de Sir Elton John, e a fabulosa ’39, do Queen (composição do não menos fabuloso Brian May, guitarrista e doutor em astrofísica pelo Imperial College London). Alerto que esta última merece especial atenção, uma vez que aborda não só a viagem espacial, mas também uma viagem temporal, limite ainda pouco explorado até então (e hoje em dia também). Algumas bandas não produziram apenas uma obra direcionada ao sonho espacial, mas sim toda uma carreira. Mas, na minha humilde opinião, poucos chegaram aos céus com tanta sensibilidade quanto David Bowie em sua Space Oddity. O diálogo entre Ground Control – equivalente a uma “base de controle” – e a nave Major Tom apresenta, ora fortemente, ora de forma sutil, situações em que o homem é confrontado enquanto homem, e não apenas enquanto cientista ou astronauta. E são justamente essas desventuras que me proponho comentar (depois da maior introdução da galáxia…).

Space Oddity

Salientei aqui três situações que considero fundamentais nessa canção, e que revelam uma leitura muito peculiar por parte do cantor em relação à alma humana diante dessa empresa: a condição positivista, em que a ciência se põe a determinar problemas conhecidos ainda apenas nas pranchetas da Nasa; a indústria cultural, que vê nessa (e em qualquer outra) oportunidade a chance de não apenas capitalizar, mas também condicionar pessoas; e por último a angústia, tema muito abordado na filosofia (principalmente no séc. XX, por pensadores como Martin Heidegger e Jean Paul Sartre), que aparece aqui quando o homem se defronta com aquilo que mais se aproxima do nada segundo o nosso pensamento – o espaço nu e infinito.

Ciência, corrida espacial e outras doideiras

Space Oddity começa com o lançamento da nave Major Tom ao espaço. É a conclusão de um projeto exaustivamente estudado que propõe, de forma segura e familiar, algo nunca antes feito – a nave tem como destino um lugar nunca antes visitado. Pareceria loucura se se dissesse que Deus iria guiá-la, mas a infalível ciência dá o selo de segurança necessário para dar a essa obscura experiência o caráter de totalmente confiável. Lá está o solitário piloto ouvindo suas últimas instruções, e a famigerada e angustiante contagem regressiva. É o auge da ciência. É o herói saído dos quadrinhos. É um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a ciência aristotélica em direção ao domínio da natureza. O ponto curioso desse primeiro momento fica por conta da mensagem da Ground Control ao piloto, que deixa de lado momentaneamente a autoridade da ciência para soltar um “check ignition and may God’s love be with you…” (“verifique a ignição e que o amor de Deus esteja com você”). Talvez este seja um bom momento para fazer as pazes entre ciência e religião.

…and the papers want to know whose shirts you wear…

Não me lembro da primeira vez em que ouvi essa música, mas me lembro de que, na primeira vez em que meu pobre inglês me permitiu compreendê-la, chamou-me a atenção esta frase: “…e os jornais querem saber de quem são as camisetas que você veste”. De imediato, atribuí a aparente falta de nexo ao meu inglês “joelsantanístico”; porém, percebi pouco tempo depois que a frase dizia exatamente o que queria dizer. Quer dizer que um homem solitário viaja pela maior odisseia espacial jamais vista, e os jornais querem saber de quem são suas camisetas? Sim. Exato. Hoje me parece tão claro! Cumpádi Washington, naquele momento, me diria: “sabe de nada, inocente”! Impossível não lembrar dos estudos de Adorno e Horkheimer sobre a indústria cultural, praticamente um manual sobre o assunto. Todavia, observemos o contexto histórico da canção de Bowie. Entre as tecnologias que mais se desenvolveram no período da guerra está a da propaganda. Utilizada como poderosa ferramenta de controle pelos nazistas (assista Bastardos Inglórios), ela conheceu seu apogeu em solo norte-americano; e os norte-americanos esparramaram sua cultura de forma hegemônica pelo mundo do pós-guerra. A corrida espacial, em certo ponto, consistia mais em mostrar quem aparentava estar ganhando do que em observar quem estava de fato mais avançado. Basta ver a quantidade de teorias que acusam de farsa a visita dos americanos à lua, teorias essas muito vivas até hoje.

Quando o homem solitário pousava a Major Tom em solo desconhecido, cientistas, engenheiros aeroespaciais e astronautas se encantavam com a concretização de um árduo trabalho; os pobres mortais se encantavam com o herói realizando um dos sonhos mais antigos do homem; e a mídia se encantava com a sempre fecunda oportunidade de transformar sonhos em cifras.

Can you hear me?

“O planeta terra é azul e não há nada que eu possa fazer”. Acredito que aí a angústia começa a tomar corpo dentro do enredo. Quando li sobre o conceito kantiano de sublime, lembrei-me desse ponto. Aquele homenzinho, dentro de uma lata, flutuando no espaço entre estrelas, vendo, impotente, aquela esfera azul… Pensei nos exemplos utilizados para diferenciar o sublime do belo. Percebi que o sublime é angustiante. Seja pela falta de palavras para descrever o fenômeno, seja pelo impacto sensível ou físico, seja pela iminência de algo incontrolável, a angústia se impõe como um predicado constante. Em certo momento, o piloto da Major Tom se vê sem rumo, desprovido dos controles eletrônicos de navegação e perdendo o contato com a sala de controle. Pede que digam à sua esposa que ele a ama muito. Um desesperado controlador pergunta insistentemente: “Você pode me ouvir? Você pode me ouvir? Você pode…” A harmonia, com acordes escolhidos cuidadosamente, eleva o grau de desespero do momento, sendo suavemente interrompida por um campo harmônico tranquilizador e um piloto que já aceita o inevitável confronto com a imensidão que o cerca: “Planet Earth is blue and there’s nothing I can do.”

 Category: MÚSICA e FILOSOFIA

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