O SISTEMA RELIGIOSO DE RUDOLF AUCKEN:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

  O filósofo alemão Rudolf Eucken, dedica a parte inicial de sua obra magma “O Sentido e o Valor da Vida” (1908), para refletir sobre o sistema religioso. Tal reflexão é parte de um capítulo intitulado “Os Antigos Sistemas de Vida”, no qual também é analisado o sistema de vida provindo do Idealismo Imanente. Na sequência do livro e da investigação acerca dos elementos citados, Eucken aborda também o que seriam os novos sistemas de vida (como, por exemplo, o Naturalismo), embora esse texto tenha como foco, especificamente a análise da visão do pensador em relação à religião.

  Na introdução do livro, Eucken diz que o ser humano sempre carregou consigo uma busca por atribuição de sentido à vida, embora, desde os tempos antigos até a modernidade, esses sentidos tenham sido construídos de maneira essencialmente distintas, sendo que é justa e especialmente no passado que residia a inclinação do homem para com o mundo espiritual, enquanto que na modernidade, o sentido da vida volta-se à experiência sensível e, naturalmente, afasta-se do celestial. Abaixo, o leitor poderá se deparar com alguns dos principais aspectos abordados do tópico “Sistemas Religiosos”, que é abordado logo na primeira parte do livro. 

                 O filósofo alemão Rudolf Eucken.

O Sistema Religioso seria um sistema de vida que relaciona o homem terreno ao espírito superior. Esse entrelaçamento entre divino e terreno “nasceu dos abalos da existência humana”. (EUCKEN, p.67, 1971) e o Cristianismo, principal expoente dessa sistematização, é vencedor de uma era na qual o ser humano buscava algo que o preenchesse internamente e que, de alguma maneira, tornasse sua vida melhor. Nesse contexto, ao lançar o homem para os céus, o Cristianismo aproximou as pessoas e proporcionou-as paz, fazendo com que elas se voltassem especialmente para o mundo espiritual, e deixassem o mundo visível em segundo plano. Eucken compreende que a religião tornou-se essencialmente um refúgio para uma consciência perturbada por dúvidas e por uma busca por atribuição de sentido existencial. A conexão com Deus engrandecia o ser humano, tornava-o seguro e fazia com que ele se sentisse parte da perfeição divina (o que poderia justificar até mesmo os erros) e se reconhecesse como um componente necessário da engrenagem de um projeto macro-cósmico.  

  Porém, apesar de todo o poder da religião, o filósofo observa que com o passar do tempo, após uma longa trajetória de glórias, esta via de salvação se enfraqueceu e sua influência sobre o homem, consequentemente reduziu-se: ” (…) a religião não pode mais dar um apoio sólido ao homem, não pode governar a vida nem determinar seu sentido e seu valor”. (EUCKEN, p.71, 1971). Essa mudança pela qual a religião passou ocorreu pelo fato de que na modernidade, o homem readquire confiança em si próprio, e isso o faz nutrir esperanças e entusiasmos para com o mundo externo: “Enquanto as tarefas do trabalho temporal, com sua variedade e seus êxitos inebriantes faziam esquecer a preocupação com a salvação da alma, a situação da religião deslocava-se totalmente: do centro da vida ela era cada vez mais repelida para a periferia (…)”. (EUCKEN, p.70, 1971). Quando acontece o fortalecimento interior do homem e o consequente deslocamento de objeto para atribuição de um sentido, o corpo religioso também começa a ser questionado, encarado sob perspectivas meramente antropológicas, além de ser visto como um caminho problemática e errôneo através do qual o ser humano busca concentrar-se numa vida posterior, abandonando o aperfeiçoamento da época presente (curioso como esse trecho de Eucken lembra a filosofia nietzschiana, suponho que talvez seja mesmo uma referência indireta). Contudo, apesar desse abalo, o filósofo nota que a religião continua sendo um meio de atribuição de sentido e transmissão de valores à vida (mesmo durante a contemporaneidade e muito embora não seja mais o imperial). Como podemos notar sem grandes dificuldades, o quadro de nosso mundo parece continuar seguindo esse mesmo rumo: a religião perde espaço, mas permanece presente. 

 Ao longo do livro, conforme citado anteriormente, Eucken volta-se à outras formas de interpretação do mundo. Após analisar a religião, reflete também a respeito do Idealismo Imanente, o Naturalismo, questões de civilização social e civilização individual, o homem e o universo e outros vários tópicos. “O Sentido e o Valor da Vida” rendeu (merecidamente) ao filósofo de Aurich o prêmio Nobel de Literatura de 1908. Essa obra, embora não seja muito popular no Brasil, definitivamente merece ser lida por suas abordagens reflexivas sobre os variados modelos de comportamento e ideologia existentes ao longo dos tempos, como tentativas de encontrar um valor no mundo e atribuir sentido à vida. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

EUCKEN, Rudolf. O Sentido e o Valor da Vida. Editora: Opera Mundi. Rio de Janeiro, RJ. 1971.

Related articles

Leave a Reply