O SUICÍDIO NAS FILOSOFIAS DE CAMUS E DE SARTRE:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi e Pedro Bracciali

INTRODUÇÃO:

O objetivo deste texto é desenvolver argumentos sobre o tema suicídio, a partir das circunstâncias que conduzem o indivíduo a cometê-lo, como fatores externos, em contraponto a decisão autônoma, sendo esta muito discutida na reflexão filosófica. Não se pretende responder o porquê dos atos cometidos de suicídio, mas levantar a questão sobre o ponto de vista da ética e do valor da vida. Para isso foram pesquisados o pensamento dos filósofos: Albert Camus e Jean-Paul Sartre.

O SUICÍDIO VISTO POR SUAS CAUSAS:

O comportamento suicida pode ser analisado a partir de diversos estudos das ciências humanas. Para a saúde, o número de mortes por suicídio é um problema sério conforme aponta a Organização Mundial da Saúde – OMS, que através do Ministério da Saúde – MS do Brasil disponibiliza em seu site um manual de Prevenção do Suicídio (BRASIL, 2006), dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Dados estatísticos contidos nesse documento, embora defasados, mostram a dimensão desse problema social no país:

  • Na faixa etária entre 15 e 35 anos, o suicídio está entre as três maiores causas de morte;
  • Em indivíduos entre 15 e 44 anos, o suicídio é a sexta causa de incapacitação;
  • Nos últimos 45 anos, a mortalidade global por suicídio vem migrando em participação percentual do grupo dos mais idosos para o de indivíduos mais jovens (15 a 45 anos);
  • O Brasil encontra-se no grupo de países com taxas baixas de suicídio. Essas taxas variam de 3,9 a 4,5 para cada 100 habitantes a cada ano. Entretanto por ser um país populoso, está entre os dez países com maiores números de suicídio;
  • Embora o Brasil apresente uma taxa geral considerada baixa pela OMS, alguns estados brasileiros já apresentam taxas comparáveis aos países apontados como de frequência de média a elevada;
  • Nesses estados, os índices seguem a mesma tendência de ascensão e apresentam um coeficiente para o sexo masculino de 3,7 para 1 feminino;
  • Os estados do Sul e Centro-Oeste apresentam os maiores índices de suicídio, 8,16 e 6,25, respectivamente;
  • Os registros oficiais sobre tentativas de suicídio são mais escassos e menos confiáveis.

Dessa forma, as questões psicológicas e psiquiátricas interferem, determinantemente, na predisposição ao suicídio. Ademais, outros fatores extra individuo exercem, igualmente, influencia decisiva. Um estudo de caso sobre suicídio escrito pelo sociólogo francês E. Durkheeim mostrou o quanto um ato individual é também o resultado do meio social que o cerca. Segundo ele, os indivíduos têm um certo nível de integração com os seus grupos – o que ele chama de integração social. Níveis que foge da normalidade dessa integração social poderiam resultar num aumento das taxas de suicídio: os níveis de baixa integração social resultam numa sociedade desorganizada, levando o indivíduo ao suicídio como uma última alternativa; os níveis de alta integração fazem as pessoas preferirem destruir a si próprias do que viver sob grande controle da sociedade. Essa conclusão tem fundamento nas taxas de suicídio por ele avaliadas:

  • Taxas de suicídio são maiores entre os solteiros, viúvos e divorciados do que entre os casados;
  • São maiores entre pessoas que não tem filhos;
  • São maiores entre protestantes do que entre católicos e judeus;
  • O indivíduo portador da “ideia do suicídio”, na maioria das vezes, quase sempre não sobrevive.

As razões têm as seguintes explicações complementares de Durkheeim: comunidades católicas tendem a ser um pouco mais integradas que as protestantes, com laços familiares mais próximos. De forma similar, pessoas casadas e/ou com filhos são menos propensas a cometer suicídio, pois elas têm mais motivos para viver.

Com o propósito ainda de averiguar as causas de suicídio, acrescenta-se o que Durkheim diferenciou como três tipos de suicídio:

Suicídio egoísta: O egoísmo é um estado que se caracteriza por baixa integração social. Existem poucos laços sociais para impedir que o indivíduo se mate. Este é o caso, por exemplo, entre os divorciados após o fim de um relacionamento afetivo com outro indivíduo.

Suicídio altruísta ou filantrópico: esse tipo de suicido acontece como uma forma de sacrifício, e pode ocorrer de duas formas diferentes:

1) onde indivíduos se veem sem importância ou oprimidos pela sociedade e preferem cometer suicídio. Ele viu isto acontecer em sociedades “primitivas” ou “antigas”, mas também em regimentos militares muito tradicionais, como guardas imperiais ou de elite, na sociedade contemporânea;

2) onde indivíduos veem o mundo social sem importância e sacrificariam a si próprios por um grande ideal. Durkheim viu isto acontecer em religiões orientais. Alguns sociólogos contemporâneos seguem essa análise para explicar os kamikazes e os homens-bomba.

Suicídio anômico: A anomia é um estado onde existe uma fraca regulação social entre as normas da sociedade e o indivíduo, mais frequentemente trazidas por mudanças dramáticas nas circunstâncias econômicas e/ou sociais. Este tipo de suicídio acontece quando as normas sociais e leis que governam a sociedade não correspondem com os objetivos de vida do indivíduo. Uma vez que o indivíduo não se identifica com as normas da sociedade, o suicídio passa a ser uma alternativa de escapar.

O SUICÍDIO COMO REFLEXÃO FILOSÓFICA:

O suicídio é o ponto de partida de O Mito de Sísifo, principal obra filosófica de Albert Camus. O primeiro capítulo do ensaio, intitulado “O absurdo e o suicídio”, inicia-se com a seguinte colocação a respeito do tema: “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois”. (CAMUS, 2010, p. 19).

Primeiramente, é preciso contextualizar esta abordagem do texto com conceito do “Absurdismo”, aspecto filosófico central que tange o restante da obra, pois conforme diz o próprio autor: “o tema deste ensaio é justamente a relação entre o absurdo e o suicídio” (CAMUS, 2010, p. 22). No decorrer do texto, Camus ressalta os aspectos pessimistas e os tormentos da existência, concluindo que a vida cotidiana do homem é absurda. Para ele alguns indivíduos são capazes de perceber essa insignificância da condição humana e, então se sentem angustiados e, neste momento seus espíritos se rebelam contra o mundo. Este seria o “sentimento do Absurdo”, e o homem que o percebe, é aquele que é herói de si próprio e que, conforme afirma Camus, é o sujeito que “contempla seu tormento”, sendo alguém capaz de encontrar a felicidade na tragédia e abraçar com perseverança os fardos de sua vivência.

Portanto, partindo do princípio de que um homem é capaz de notar o vazio da existência, o filósofo indaga qual seria o sentido de este indivíduo continuar vivo. Mas, conforme mencionado anteriormente, é preciso lembrar que o absurdista não nega a vida, pois “do sentimento do absurdo, nasce a felicidade”. (CAMUS, 2010, p. 24). Isto significa que o sujeito pode ter consciência dos assombros que o cercam, mas ainda assim, encarar com paixão essa escuridão. Dentro deste quadro, o pensador diz que o suicídio, até então, sempre foi tratado meramente sob o âmbito social, sendo que em sua filosofia, Camus empenha-se a fazer o contrário disso, abordando-o sob a esfera da individualidade do pensamento, ou seja, da maneira como cada mente em particular se relaciona com o mundo.

O autor afirma que na maior parte dos casos, as pessoas tiram sua própria vida sem reflexão, e de maneira descontrolada e impulsiva. Se houve reflexão, raramente (embora não seja descartável) haverá suicídio, pois se matar é “confessar que formos superados pela vida ou que não a entendemos” (CAMUS, 2010, p. 21). E essa superação se dá na medida em que o homem sente o absurdo, e opta pela morte como válvula de escape. Contudo, para o filósofo, não enxergar sentido na vida não significa que ela não deva ser vivida. Ele indaga: “será que o absurdo exige que escapamos dela, pela esperança ou pelo suicídio?” (CAMUS, 2010, p. 24).

Jean Paul-Sartre tem no existencialismo o fundamento do seu pensamento. Para ele, o suicídio é um erro por se tratar de um ato de liberdade que impossibilita todos os atos futuros de liberdade. “Assim, a morte jamais é aquilo que dá à vida seu sentido: pelo contrário, é aquilo que, por princípio, suprime da vida toda significação” (SARTRE, 2007, p. 661). Se há de morrer, esclarece ele, a vida carece de sentido porque seus problemas não recebem qualquer solução e a própria significação dos problemas permanece indeterminada. O suicídio não pode ser considerado, para a vida, um fim do qual o sujeito seria o próprio fundamento. Sendo um ato da vida, requer uma significação que só o porvir pode lhe dar; mas, como é o último ato da vida, recusa a si mesmo esse porvir; assim, mantém-se totalmente indeterminado. O projeto rumo a morte é compreensível, mas não o projeto rumo a própria morte como possibilidade indeterminada de não mais realizar presença no mundo, pois tal projeto seria destruição de todos os projetos. (SARTRE, 2007, p. 662)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BELÉM, Euler de França. A revolução Russa de Stálin devorou Maiakóvski. Revista Bula: Literatura e jornalismo cultural, Brasília, 10 dez. 2008. Disponível em: <http://acervo.revistabula.com/posts/livros/revolucao-russa-de-stalin-devorou-maiakovski>. Acesso em: 10 maio 2016.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Área Técnica de Saúde Mental. Prevenção do Suicídio: manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. 76 p. Organização Pan-americana da Saúde; Universidade Estadual de Campinas UNICAMP.                                                    Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_editoracao.pdf>. Acesso em: 05 abr. 2016.

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 6. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010. 158 p. Tradução de Ari Roitman, Paulina Watch.

DEBATE: Psiquiatria hoje. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Psiquiatria Abp, v. 2, n. 1, jan-fev de 2010. Bimestral. Disponível em:         <http://www.abp.org.br/download/PSQDebates_7_Janeiro_Fevereiro_light.pdf>. Acesso em: 10 maio 2016.

GERBER, Nancy. Afterwords: Letters on the Death of Virginia Woolf (review). Feminist Teacher, Baltimore, Maryland USA, v. 19, n. 3, p.258-260, 2009. Johns Hopkins University Press. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1353/ftr.0.0058>. Acesso em: 09 maio 2016.

MAR ADENTRO. Direção de Alejandro Amenábar. Produção de Alejandro Amenábar e Fernando Bovaira. Intérpretes: Marta Larralde, Javier Bardem, Belén Rueda. Roteiro: Mateo Gil. Espanha: [s.i.], 2004. (120 min.), son., color. Legendado. Coprodução francoitaliana.

PUENTE, Fernando Rey (Org.). Os Filósofos e o Suicídio. Belo Horizonte: Ufmg, 2008. 193 p.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. 784 p. Tradução e Notas de Paulo Perdigão.

TAVERNISE, Sabrina. Número de Suicídios nos Estados Unidos é o mais alto em 30 anos. Folha de S.Paulo. São Paulo, 27 abr. 2016. Mundo. The New York Times 22/04/2016. Tradução de Paulo Migliacci. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/04/1763764-numero-de-suicidios-nos-estados-unidos-e-o-mais-alto-em-30-anos.shtml>. Acesso em: 22 abr. 2016.

 

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