PELA TOCA DO COELHO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

(…) “É um vegetal. Não parece, mas é.”

A Duquesa responde: a moral disso é “seja o que você parece ser“. (p. 73).

Alice No País Das Maravilhas – Uma possível interpretação filosófica da obra:

Introdução:

        Alice No País Das Maravilhas (1865) é um livro constantemente reinterpretado e analisado. Não há, portanto, nenhuma novidade em se realizar uma releitura deste clássico, embora sempre possa emergir um novo resultado quando há variações de perspectivas, conhecimentos e interpretações acerca de determinado objeto. O referido livro, desde minha infância, foi preciosamente marcante. Lembro-me de que quando era pequena, divagava enquanto debruçava-me diante desta narrativa tão irracional. Alice, de alguma maneira, sempre me perseguiu, pois seu “mundo das maravilhas” sempre me instigou, por carregar em si tantas surpresas e por quebrar de maneira ilustre qualquer tipo de lei e causa de nossa natureza cotidiana. 

       Tenho duas edições do livro, ambas repletas de glosas. Certo dia, decidi compilá-las e tornar públicas as minhas reflexões sobre a história. O mais importante de todo o processo de escrita e do todo o conteúdo que aqui segue, é que minhas palavras possam agregar algum tipo de conhecimento ao leitor. Claro que o que escrevi é também uma homenagem consciente ao livro e a Lewis Carroll, autor de Alice No País Das Maravilhas. Espero que este texto seja como uma pílula que, ao ser ingerida, possa transportar o leitor para um novo horizonte, repleto de traços e atmosferas inusitadas. Para tais reflexões, usei como base referencial a edição XXX

Alice No País Das Maravilhas – Uma possível interpretação filosófica da obra:

      Logo no primeiro parágrafo da primeira página, é possível perceber que toda a trajetória de Alice, inicia-se com o ato de pensar. Enquanto acompanhava sua irmã num passeio, ficava meditando, já que não possuía outros tipos de atividades ao seu alcance. Este fato pode ser notado logo nas primeiras linhas do livro, no seguinte trecho:  “Assim, refletia com seus botões (…)” (p. 9, 2013). Portanto, o começo da história, que irá servir de desfecho para todo o desenvolvimento do livro, possui a reflexão como elemento central, pois é a partir dela que Alice irá adentrar em um novo universo.

    A Filosofia segue este mesmo rumo: a reflexão que nos induz a conhecer um novo universo, isto é, uma inquietação que nos move para buscas. A dúvida surgida por intermédio do espanto moveu Alice, tal como fez com os primeiros filósofos ocidentais da Grécia Antiga (pré-socráticos) e também com pensadores de períodos posteriores. 

     Na sequência, logo após ter sido absorvida por suas dúvidas, a protagonista evidentemente sente-se entediada: “Estava começando a ficar muito cansada”. (p.9, 2013). Neste estado é que Alice inicia seu ato reflexivo, e é também durante este momento de ócio que, pela primeira vez, surge o emblemático Coelho Branco. Este animal corria apressado e segurava um relógio. Foi ele quem tirou a menina do tédio e a instigou a segui-lo, sendo que ele foi o caminho para o novo universo que Alice estava prestes a conhecer. Talvez, o Coelho possa ser compreendido e/ou interpretado como uma representação dos próprios motivos/fatos que movem qualquer indivíduo para a Filosofia, pois ele surge logo após as primeiras reflexões de Alice. 

      Na sequência da história, um ato importantíssimo ocorre: Alice vai atrás do animal, e o persegue até entrar em uma toca: “sem nem pensar de que jeito sairia de lá depois” (p. 9, 2013). Lá, a menina despenca num buraco sem saber onde irá chegar. A queda foi longa. Alice, inclusive, chegou a suspeitar que não tivesse fim. Mas “depois de uma queda dessas, não vou me importar nada de levar um tombalhão na escada” (p. 10, 2013). Essa queda pode ser interpretada de maneira simbólica, representando uma dificuldade tão profunda (literalmente ir “ao fundo do poço”) que, após superada, torna o indivíduo mais forte e mais apto a enfrentar outros tipos de obstáculos. Talvez, esta “queda para o fundo de um buraco” possa ser encarada como uma alegoria para os momentos em que nossa realidade é desconstruída, nos fazendo cair para que posteriormente possamos tentar nos reerguer e arquitetar uma nova dimensão existencial. O processo de enfrentamento do desconhecido geralmente consiste numa queda. Literalmente é o caso da personagem Alice, pois ela adentra uma zona desconhecida e imediatamente tomba (sabe-se lá para onde). Esta queda leva a menina para um novo mundo, cheio de novas informações, sendo que, novamente, podemos traçar um paralelo com a Filosofia, vendo está área como um “novo mundo”.

      Quando, finalmente, parou de tombar: “olhou para cima, mas lá estava tudo escuro” (p. 11, 2013), e então encontrou-se num salão cercado por inúmeras portas trancadas. Havia uma chave de ouro que poderia abrir uma das portas e levá-la para algum lugar muito belo, porém esta porta era pequena demais, e Alice não tinha tamanho para atravessar a passagem. Nas palavras da personagem: “Como desejava sair daquele salão escuro” (p. 12, 2013) para adentrar naquele lugar tão encantador que ela avistara pela fechadura. Estas mínimas sequências de fatos fazem com que Alice comece a ter uma concepção diferente da realidade, passando a crer, conforme afirma a personagem, que “raríssimas coisas eram realmente impossíveis”. E para sair do caos, da escuridão e entrar num local tão maravilhoso, Alice precisaria raciocinar e buscar alternativas. A história segue: a menina, ainda no salão, encontra um vidro contendo um líquido. Ela o ingere e o sabor lhe agrada bastante! A substância que Alice tomou a fez encolher e esquecer-se de pegar a chave de ouro. Mas não havia problema, pois em sua frente surgiu um pedaço de bolo que, quando ingerido, teve um efeito contrário ao do líquido: este a fez crescer. Nada estava sendo eficiente para Alice. A chave que tão facilmente lhe abriria portas não estava ao seu alcance. Isso a fez chorar… Mas foram as lágrimas desesperadas da garota que a transportaram para algo que estava além daquele salão escuro, misterioso e soturno. Portanto, o sofrimento das incertezas foi necessário e fundamental para que Alice fosse transportada para outro mundo. 

     Uma curiosa reflexão da personagem Alice chama a atenção logo no início do segundo capítulo. A menina pergunta a si mesma: “Ai, ai! Como tudo está esquisito hoje! E ontem as coisas aconteciam exatamente como de costume. Será que fui trocada durante a noite? Deixe- me pensar: eu era a mesma quando me levantei esta manhã? Tenho uma ligeira lembrança de me sentir um bocadinho diferente. Se não sou a mesma, a próxima pergunta é: “Afinal de contas , quem sou eu? “Ah , este é o grande enigma!” (p. 17, 2013). Esse pensamento lembra a filosofia de Heráclito (535 a.C. – 475 a.C.), filósofo pré-socrático para o qual a natureza encontra-se em constante devir, isto é, em um fluxo constante de alternâncias. O mundo pode parecer estável, mas talvez não o seja, e aparentemente, Alice percebeu sua própria instabilidade. Botelho (p.42, 2013), mencionou o pensamento de Héraclito (535 a.C.- 475 a.C) de uma maneira que pode enquadrar-se com a percepção de mudança que assolou Alice: “O Universo se transforma a todo o momento, de forma incessante; nosso sentidos, por serem limitados, percebem as coisas fixas em si mesmas, mas na verdade tudo está em constante mutação”.

Como é possível SER e NÃO-SER ao mesmo tempo? O mundo é estático ou é movimento?

O segundo capítulo tem início com a personagem Alice juntando-se a um grupo de animais que encontrava-se reunido numa praia, na qual a garota havia ido parar após ter adentrado pela pequena porta (aliás, ressalte-se novamente: ela adentrou neste novo mundo por intermédio de suas lágrimas). Os animais preparavam-se para uma corrida. Eis aqui que surge um fato curioso! Vejamos as regras desta corrida: traça-se no chão um “círculo”. Esta é a primeira instrução. Mas esclarece-se tratar-se de uma “espécie de círculo” porque a forma exata não tem importância. Passagem interessante se levarmos em conta que o autor do livro era matemático. Há de se especular sobre o que seria uma “forma exata”. Na Matemática, é certamente um elemento fundamental. Não falamos em “meio quadrado”, pois se esta forma for considerada, já não será um quadrado, pois um quadrado (de maneira conceitual) é um todo determinado por certos preceitos particulares. Suponho que a menção a um “círculo sem forma exata” seja um convite à aura que seguirá todo o conteúdo restante do livro e dos capítulos seguintes: não há previsão, não há exatidão, não existe um formato exato, não existe lógica neste universo. E a lógica deve ser abandonada ali, logo na entrada, logo nas primeiras páginas que começam a narrar as aventuras de Alice.

      Neste capítulo, a personagem inicia sua busca pela saída do País Das Maravilhas. Logo nas primeiras linhas, Alice encontra uma garrafa contendo um líquido. Ela sente-se insegura, com medo de ingerir a bebida e novamente ficar oscilando de tamanho, conforme lhe ocorreu no capítulo inicial da história. Porém, a menina decide encarar sua insegurança e ingere o líquido contido no recipiente. Antes de colocá-la na boca, exclama para si: “Sei que alguma coisa interessante sempre acontece” (pg. 31, 2013). E de fato, algo interessante aconteceu: desta vez, o efeito foi contrário e Alice careceu ao invés de diminuir. Aconteceu-lhe exatamente o contrário do que era o esperado. Realmente, por vezes, os fatos presentes não tem conexão (ao menos não necessariamente) com os fatos futuros, e aqui talvez reside o problema de se fazer afirmações a priori (isto é, falar da experiência antes que a mesma ocorra). Em relação ao ocorrido, a menina declarou: “Chego quase a desejar não ter descido por aquela toca do coelho… no entanto… no entanto… é bastante interessante este tipo de vida” (p.32, 2013). Esta fala da personagem faz-me pensar: talvez a mente dela já tenha expandido tanto, que ela não consiga mais voltar. Certa vez, algum filósofo disse que “quanto maior o conhecimento, maior será o sofrimento”. É possível que muitas áreas do saber, e em especial a Filosofia, possam causar certas inquietações interiores. Contudo, uma vez que nos desacorrentamos e “saímos da caverna” (conforme o mito platônico), mesmo que retornemos para dentro, as coisas jamais serão como antes. Parece, portanto, que certas angústias podem acontecer quando a obtenção do conhecimento nos transporta para além do simples senso comum. Uma vez ultrapassado esse limite (do comum) e “abertas novas portas para novos mundos”, não há mais volta, só há expansão e crescimento. O conhecimento, dizem, é a única coisa que nos acompanha durante toda a vida (além da morte e da passagem do tempo).  

      Logo depois da passagem acima mencionada, a personagem, cheia de incertezas, profere uma frase curiosa: “É muito interessante esse tipo de vida…”. Esse trecho do livro lembra-me de conhecida frase de Sócrates (69 a.C. -, 399 a.C.): “Só sei que nada sei”, pois não há conclusões para Alice em sua jornada fantástica por entre os caminhos do novo mundo que se abriu para ela. A menina, assim como talvez todos os seres humanos, devido a suas capacidades intelectivas, tenta postular um sentido lógico para o que lhe ocorre e busca sintetizar de maneira claramente compreensível o que, a cada segundo, desencadeia-se irracionalmente ao seu redor. Entretanto, é possível que essa inclinação humana de atribuição de sentido jamais resulte em nada, tal qual aparenta ser o sentimento que Alice tem pela falta de respostas para suas buscas. Neste trecho, podemos traçar um paralelo da situação da menina com a filosofia da condição absurda na qual o homem vive, proposta por Albert Camus (1913 —1960) para descrever a busca incessante, na qual todos os rumos e fatos são, no fundo, insignificantes e ocos, e para os quais os fins não existem, e suas procuras apenas tornam o homem exausto em sua existência. E se estivermos tentando atribuir significado à um mundo cuja natureza é o acaso? Não é possível e tampouco plausível que neguemos a possibilidade que não haja propósito para a existência humana. Ainda nesta parte do livro, curiosamente a protagonista reclama que fica imaginando o que ocorrerá com ela, mas suas reflexões não chegam a nenhuma conclusão (o que, inevitavelmente, me lembra da máxima socrática: “só sei que nada sei”).

      Alice, ainda nos capítulos três e quatro, prossegue com seu objetivo de sair do País Das Maravilhas, e este mesmo objetivo seguirá com a personagem durante todo o restante do livro. No capítulo 5, há um dos trechos mais emblemáticos e marcantes da história, que é o encontro da menina com uma lagarta. Antes de prosseguir, já farei algumas pontuações: a lagarta possui uma simbologia forte e em várias culturas representa a ideia de metamorfose/transformação. Coincidentemente, essa é a essência que tange o íntimo de Alice durante a história, já que a menina está sempre alternando seu tamanho e suas concepções (estas observações já foram pontuadas anteriormente). 

     Em seu primeiro contato com a lagarta, o inseto questiona a menina: “- Quem é você?”. Essa pergunta normalmente é arrebatadora porque em grande parte das vezes acreditamos que nos conhecemos o suficiente para respondê-la, embora poucos minutos de reflexão já sejam capazes de mostrar como somos grandes desconhecidos de nós próprios. A pergunta da lagarta e minha breve reflexão podem ser relacionadas com a célebre inscrição contida no Oráculo de Delfos (Grécia) que diz: “conhece-te a ti mesmo e conhecera aos deuses e ao universo”. Esta frase trata-se de uma antiga sugestão da validade do autoconhecimento para assim podermos, se possível, ter contato com a amplitude cósmica. Assim, há uma sugestão hermética da existência de uma relação entre microcosmo e macrocosmo, cujos contrastes se complementam para que possamos atingir uma compreensão do todo. E eis que Alice dá uma resposta emblemática para a lagarta sobre quem é: “Eu mal sei, Sir, neste exato momento… Pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então” (p. 38, 2013). A lagarta surpreende-se com esta resposta e questiona a menina sobre o que exatamente que ela está querendo dizer. Alice retruca: “Receio não poder me explicar (…) eu mesma não consigo entender. Ser de tantos tamanhos diferentes num dia é perturbador” (p. 18, 2013). Heráclito foi um importante filósofo grego do período Pré-socrático.  Em seu pensamento (já mencionado anteriormente), defendeu a ideia do devir, o vir-a-ser, que representa a constante mudança pela qual os homens a natureza passam momentaneamente, e também a harmonia existente entre essa alternância de opostos. O devir, base de seu pensamento filosófico, é também um dos principais expoentes da história, uma vez que Alice está sempre se transformando em algo novo e, consequentemente, não consegue postular certezas sobre a realidade que a cerca (afinal, como ter certeza sobre algo que está sempre se modificando? Será que é possível? Até que ponto é pode-se postular certezas sobre algo inconstante?).

     Logo adiante, a lagarta novamente indaga “quem é Alice”. A menina, irritada, diz que talvez o inseto devesse se apresentar primeiro antes de fazer tal pergunta. E então a garotinha recebe mais uma questão emblemática da lagarta: “Por quê?”. Esta é uma indagação que move o pensamento filosófico, que representa o espanto, a dúvida, a não aceitação de cotidiano padronizado e de suas supostas verdades estabelecidas. Na própria sequência do livro, surge uma frase interessante para caracterizar a indagação da lagarta: “Aqui estava uma pergunta desconcertante” (p. 39). A mudança, conforme a seguinte expressão da personagem, proporciona insegurança: “Eu sou uma menininha, respondeu Alice bastante insegura, lembrando-se do número de mudanças que sofrera naquele dia”. (pg. 43). “No começo aquilo pareceu bastante estranho; mas se acostumou…” (p. 44, 2013). “Como todas essas mudanças desorientam. Não sei ao certo o que vou ser de um minuto para o outro”. (p. 44, 2013).

  Mais adiante, surge outro trecho curioso, no qual Alice reclama de seu tamanho, diz que não consegue se habituar a tal altura, e a lagarta novamente responde com sua sabedoria: “Com o tempo você se acostuma”. (p. 41, 2013). Aqui, lembro-me do livro “O Estrangeiro”, de Albert Camus, no qual há, repetidas vezes, a frase: “ a gente se adapta com tudo nesta vida”. No contexto desse livro e de outros do pensador francês, essa frase se relaciona com a ideia do absurdismo (que já foi explorada anteriormente neste texto).

   Segue-se, ainda com a lagarta: “Um lado a fará crescer, o outro a fará diminuir”, diz, tranquilamente o pequenino inseto. É exatamente o que nos ocorre na jornada do conhecimento. Talvez, possamos considerar que a Filosofia é o lado que nos faz crescer, e que o senso comum é o lado que nos faz diminuir.

“Estou meio perdida com essas mudanças. Eu nunca sei o que vou ser de um minuto para o outro”.

  Agora farei um comentário específico sobre as lagartas: esses insetos, de certa forma, são um símbolo para o devir, pois  as larvas são o vir-a-ser das lagartas que, por sua vez, são o embrião fundamental para surgimento das borboletas. Este é um inseto que, em certas culturas e simbologias, costuma representar diretamente o processo de transformação e metamorfose e, portanto sua essência pode ser relacionada ao momento vivido pela própria Alice, que estava sempre se tornando algo o mais, algo diferente e novo para si próprio.

   Os trechos do livro com o Gato de Cheshire compõem algumas das partes mais herméticas da narrativa. Há, neste ponto, uma troca de palavras clássicas da obras de Carroll, e que são de extrema significância. Alice, ainda deslocada pelo País Das Maravilhas, ao se deparar com o animal, pergunta: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?” (p. 51, 2013). A resposta é imediata: “Depende bastante de para onde quer ir”. Segue-se com Alice e o gato, respectivamente: “Não me importa muito para onde”. “Então não importa que caminho tome”. (ambos p. 51, 2013). Em seguida, o gato aponta para duas direções e esclarece que em qualquer uma delas Alice encontrará seres loucos. Alice resmunga, pois a menina não quer encontrar esse tipo de gente. Mas o animalzinho retruca com sarcasmo: “Somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca” (p. 51, 2013). Alice pergunta ao gato como ele pode saber que ela é louca. A resposta, mais uma vez, é fantástica: “Só pode ser, ou não teria vindo parar aqui”. (p. 51).

    Uma outra parte do livro que não poderia passar em branco neste texto, é o famoso chá entre Alice, o Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março. Há, em certa parte deste encontro, uma seríssima e relevante discussão sobre o tempo. Sabemos hoje, por meio de filósofos e cientistas, que talvez o tempo não exista fora do espírito. Nesta parte do livro, há reflexões a respeito deste assunto. Quem comanda este trecho é o Chapeleiro Maluco. O tempo para ele não existia mais, pois eles haviam tido uma briga. O relógio parou e o tempo, portanto, estava parado eternamente. Talvez isso faça algum sentido, já que o que consideramos ser o tempo não passa de marcações numéricas de intervalos do relógio. Lembra-me uma passagem de Santo Agostinho (354-430): “Por conseguinte, o que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; porém, se quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei”. Também recordo-me de uma frase dita por Albert Einstein² (1879 – 1955): “Para nós, físicos convictos, a distinção entre passado, presente e futuro, apesar de sua persistência não é mais que uma ilusão”. (p. 57, 2013). Bem, parece-me que grandes pensadores desconsideram existência real entre as três dimensões nas quais separamos o tempo, e também sugerem que, na verdade, a noção e compreensão que temos do tempo, é uma ilusão baseada em distinções mentais pautadas em um objeto (relógio) que age em concordância com os astros: “Uma criança adquire o senso do tempo ao aprender a marcar a diferença entre ontem e hoje, entre amanhã e depois de amanhã etc. Na falta de um relógio, o camponês que trabalha ao ar livre se guia pela posição do sol no céu, pelas variações do comportamento dos animais e por todos os sons que dão ritmo aos seus dias, como é para nós o toque regular, familiar, do sino da igreja no bairro”. (p. 17, 2013). Será que o tempo existe? E se ele consistir somente num estado de consciência? Estaria o Chapeleiro correto?

Posteriormente, o nonsense do livro e do Chapeleiro confirmam-se com uma tentava de raciocínio lógico por parte deste personagem: “Pode-se tirar água de um poço d’água… Portanto você deveria admitir que se pode tirar melado de um poço de melado… Não, sua burra?” (p. 60, 2013). Aliás, como esta frase é um exemplo notável do nonsense, vou explorar um pouco sobre esse conceito que se consolidou popularmente com Alice No País Das Maravilhas. Este termo refere-se ao tipo de realidade (artística, imaginária ou onírica) na qual a lógica é superada e na qual impera a “ausência de sentido” (conforme a própria tradução da palavra sugere: “sem sentido”). O nonsense, portanto, se relaciona com o surreal, com o abstrato, com aquilo que transcende as noções de causalidade. É, pois, aquilo que está além da realidade física e fenomênica na qual estamos inseridos. Durante este intrigante chá, mais um fato digno de menção acontece: a Lebre de Março sugere que se Alice encontra uma resposta em seu intelecto, este pensamento deve ser compartilhado. Mais para frente, na sequência do livro, o Chapeleiro chama a atenção de Alice por ela dizer algo sem pensar. Esta passagem é importante, pois quando a protagonista diz que “não pensa”, ele diz que então ela não deveria falar (“If you don’t think, you shouldn’t say”), ou, agora, deixando a Filosofia de lado e recorrendo a um ditado popular, deixo aqui uma frase que me agrada e que, possivelmente, transpõe o que o Chapeleiro quis expressar: “Um burro calado se passa por sábio”. Ressalte-se que a observação feita pelo Chapeleiro não parecia fazer nenhum sentido para a Alice, embora “sem dúvida, estivessem falando a mesma língua”. (p. 56, 2013). A linguagem é um mecanismo que tece e traduz (ou ao menos tenta fazer isso) o pensamento “silencioso”, que pode tornar-se uma palavra e estabelecer comunicação. Mas, é bem evidente que, às vezes, duas ou mais pessoas falam a mesma língua, se comunicam de diversas maneiras e, ainda assim, não são capazes de se entender. Este é um fato que, ao menos em algum momento, tende a fazer parte do cotidiano de qualquer ser humano.

   Já na parte final do livro, há alguns acontecimentos válidos de menção. O capítulo X é referente à narrativa de um jogo de croqué com a rainha que comanda o País Das Maravilhas. É ela que sempre dispara aquela famosa frase de fúria: “Cortem-lhe a cabeça”. Na abertura deste capítulo, três jardineiros estão pintando de vermelho rosas brancas. Era para terem plantando rosas vermelhas, mas houve um equívoco. Se eles não corrigirem, perdem a cabeça. Seria esta, uma parábola que transcreve metaforicamente a nossa própria vida, em momentos de inconstância? Sabemos que, por vezes (e muito frequentemente), o erro nos angustia. E sabemos também que o erro é parte do homem. Já se soube de um ser humano não tenha se equivocado? O homem possui em sua natureza inclinações ao erro. Mas eu pergunto: será que pintar a roseira “disfarçadamente”, movido pelo medo, é melhor do que derrubá-la? Talvez, em certas ocasiões, quando se erra, o melhor seja demolir o que se havia arquitetado, e não remendar o que se fez de incorreto. Bem… ou talvez seja fácil dizer isso, já que ninguém ameaçou cortar minha cabeça. Aliás, mencionando esta frase violenta que a rainha tanto profere, passa-me pela cabeça a possibilidade de que tal personagem represente a tirania de um monarca. A autoridade seria sempre tirana? Ela é tirana apenas pelo fato de ser autoritária? Para Hobbes, por exemplo, a tirania do monarca é um direito que ele possui em seu cargo. Aliás, para este pensador, se o soberano quer “cortar cabeças”, ele pode. E ele também é isento de punições, pois ele é quem detém poder absoluto, e ocupa tal cargo por direito adquirido através de um pacto social. Hobbes entende que o poder é necessário porque o homem possui uma natureza essencialmente egoísta, competitiva e violenta.

Dessa forma, há de haver uma autoridade que surja para lhe garantir a paz. Mas… vamos radicalmente para o outro lado, o lado anarquista. Para o Anarquismo, qualquer tipo de intervenção de poder é dispensável, pois o homem é capaz de cuidar de si próprio. Neste caso, não haveria espaço para as ordens da rainha. Mas talvez seja inútil tentar aplicar essas especulações no País das Maravilhas. Afinal, este é um país sem lógica. 

   No capítulo intitulado “A História da Tartaruga Falsa”, uma breve e curiosa discussão acerca da ética é levantada pelos personagens. Desta parte do livro, este é o aspecto que me interessa.  Sobre a moral, Alice questiona: “Talvez não tenha nenhuma” (p. 71, 2013). Ou seja, talvez a moral seja algo inexistente. Não que Alice tenha pressupostos para esta especulação, ela nem ao menos precisa ter, afinal, seu diálogo desenvolve-se numa dimensão onde a lógica não é real. O “talvez” da personagem indica apenas uma possibilidade, e esta palavra é imensamente importante, pois por meio dela é que muitos homens realizaram algumas das conquistas mais notáveis que a humanidade presenciou.     

  A possibilidade é capaz de levantar incertezas e de guiar-nos para exceções, pois ela indica condições, por isso é uma palavra com enorme potencial filosófico. Mas, voltando ao aspecto moral, pensemos: é curioso como o homem carrega a moral em seu cotidiano, aplicando-a, por vezes, de maneira imperceptível. Pior ainda é quando se convive com a moral sem nunca tê-la tornado objeto de reflexão. “Faço porque é certo/porque devo/porque é um compromisso”. Mas comecemos uma série de indagações simples: certo para quem? Dívida com quem? Que tipo de compromisso? Com a sociedade? Com Deus? Ora, isso pode ser interpretado de maneira vaga, além de ser uma maneira escrupulosa de se excluir a individualidade. Se se age em prol de outrem (da sociedade, por exemplo), então se esquece de si? Por fim, fecho esta parte com uma passagem brilhante do livro: “É um vegetal. Não parece, mas é.” A Duquesa responde: a moral disso é “seja o que você parece ser”. (p. 73). 

  Alice No País Das Maravilhas é uma obra literária atemporal, que fornece inúmeras reflexões e as mensagens que dela são possíveis serem extraídas, não se esgotam e são imensamente vastas. Este texto, conforme esclarecido na introdução, é apenas uma pequena demonstração dessas incontáveis releituras que podem ser feitas acerca do livro.

 Esta incrível obra ofereceu ao nosso mundo, constantemente guiado por regras (sejam elas de cunho natural ou moral), um novo mundo, no qual não existe relação entre causa e efeito, e no qual não há realidade física que seja fixa, por isso, é um local caracterizado pelo nonsense. Contudo, o “país das maravilhas” é um espaço governado pelo acaso e pela inconstância e, nesse aspecto, talvez possa assemelhar ao nosso próprio mundo e à própria condição humana.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

CARROLL, Lewis. Alice No País Das Maravilhas e Através Do Espelho e o Que Alice Encontrou Por lá, 2013. Editora: Zahar.

PIETRE, Bernard. Filosofia e Ciência Do Tempo,1997. Editora: Edusc. Tradução: Maria Antonia Pires de Carvalho Figueiredo

BOTELHO, João Francisco. A Odisseia da Filosofia, 2015. Editora: Abril.  

* Carta do dia 21 de Março de 1955 ao filho e à irmã de seu amigo Besso, pouco tempo após o falecimento deste último. Cf. obras seletas de Einstein (por Balibar e Marlau-Ponty), Seuil, 1991, t.5, p. 119. 

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