PUNK ROCK – UMA SINGELA E SINCERA HOMENAGEM:

By Acervo Filosófico

Produção:

Juliana Vannucchi e Gabriel Casagrande

Colaboração e agradecimentos:

Gabriel Marinho, Dennis Sinned, Emerson Abreu, Reinaldo Carlos, Thiago Halleck, Karolina Escarlatina e Zaf EO e Festival Woodgothic Brasil.

 

INTRODUÇÃO:

Durante meados dos anos setenta, o mundo se deparou com uma nova expressão cultural provinda dos subúrbios de Nova York e de Londres: o Punk Rock. Esta manifestação iniciou-se na música, mas posteriormente adquiriu caráter mais amplo, fazendo-se presente na moda, no cinema, em ideologias de cunho político e social, e em outros elementos, tornando-se, com o passar do tempo, uma verdadeira filosofia de vida.

Desde que o movimento se instalou na sociedade, muitas especulações e muitos estudos têm sido feitos acerca do tema. De maneira geral, pode-se dizer que o Punk Rock foi arquitetado por jovens que dariam início a um novo gênero musical e criariam um comportamento que sobreviveria durante décadas (embora em intensidades diferentes). Mas quando formularam o Punk, esses personagens, que um dia tornariam-se artistas, não se encontravam em uma situação favorável. Não podiam nem ao menos ser sonhadores, pois sentiam-se oprimidos pelo sistema econômico e social da época. Em Londres, especificamente, as taxas de desemprego e de inflação estavam altas. Já que não havia muita esperança para o futuro, a solução era despejar as emoções em acordes. Dessa forma, letras que elaboravam eram baseadas em suas perspectivas de realidade social, problemas urbanos e certa dose de sentimento e agressividade, que foram somadas a uma considerável porção de barulho. O Punk Rock era um incentivo à revolta, uma chamada à transformações (sociais, subjetivas, musicais, estilísticas, etc) e uma retrato autêntico de inquietações e espantos para com um mundo defeituoso e problemático. Eis o Punk, em suas profundezas, um verdadeiro grito de coragem.

A seguir, o leitor poderá desfrutar de uma breve análise histórica, ideológica e musical sobre o Punk Rock. Porém, mais do que se deparar com linhas que descrevem esse universo sob tais perspectivas, esperamos que possa também mergulhar nas essências filosóficas que impulsionaram o surgimento do Punk e que ajudaram a moldar seu espírito.

 “CAMINHE DO LADO SELVAGEM” (Lou Reed):

Os primeiros músicos que deram vida ao Punk Rock eram provindos da massa, muitos deles dos subúrbios, e possuíam influências ideológicas e musicais de grandes visionários (perigosos) para a época em que surgiram, tal como David Bowie, Iggy Pop, Lou Reed, New York Dolls, T-Rex, Richard Hell, The Velvet Underground, The Stooges e outros músicos e bandas que por intermédio de seus materiais artísticos estavam dissolvendo normas impostas e propondo novidades e mudanças. Esses e outros artistas compõe o que hoje, se traçarmos uma linha do tempo na história do Rock And Roll, podemos entender por “Protopunk”, isto é, um movimento musical, comportamental e ideológico que antecedeu a manifestação e surgimento do próprio Punk Rock.

Richard Hell: um dos pioneiros mundiais do movimento Punk .

Grande parte do conteúdo das letras desses músicos proclamava suas paixões, pensamentos e sentimentos através de uma linguagem essencialmente livre e, por isso, muitas vezes abordavam personagens e temas tipicamente rejeitados socialmente, tal como prostitutas, drogas, vício, sexo e qualquer outro tipo de temática que pudesse perturbar alguns indivíduos. Os heróis e cenários idealizados que muitas vezes eram vistos em letras de Rock And Roll, pareciam estar morrendo ou, no mínimo, entrando em decadência. Havia preocupação com o conteúdo das letras, mas não havia nenhuma preocupação com normas: “vou expor meu conteúdo, minha poesia, minha arte e não preciso vender ou receber aprovação de ninguém”. Richard Hell, em uma de suas letras, dizia que pertencia a uma “geração oca” (Blank Generation). A música se tornou um hino que parecia ironizar as críticas feitas à sua geração. David Bowie, até o início dos anos 70 continuava ditando suas próprias regras e confundindo todos os críticos com suas metamorfoses. Iggy Pop era um rebelde sangrento capaz de tornar qualquer ambiente harmônico no espaço mais caótico possível. O Velvet lançou um álbum cuja capa possuía uma banana desenhada em um fundo branco. Algo de estranho estava acontecendo e os futuros punks estavam adorando essa onda de esquisitice! Estavam brincando e abraçando a rejeição! 

Como embrião e prelúdio do Punk, parte dos artistas do Protopunk, inicialmente eram praticamente outsiders da cena musical, pois se encontravam à margem do que geralmente agradava a grande mídia. Porém, a atenção da imprensa voltou-se a eles (embora com certo desprezo) no momento em que estes artistas começaram a se desvincular de padrões de pensamento e tomar atitudes tidas como extravagantes e que estavam visivelmente à margem de tradicionalismos. Esse natural afastamento do habitual e desapego de clichês, iria inspirar os primeiros artistas e todo o espírito autêntico do Punk Rock.

REVOLUÇÃO NOS ANOS 70:

O Punk Rock, em suma, surgiu nos subúrbios e nos ambientes undergrounds de Nova Iorque e de Londres. Na primeira cidade, seu berço foi (especialmente) o consagrado C.B.G.B e na segunda, talvez o principal cenário tenha sido o caloroso 100 Club. Em qual dos dois locais houve a primeira manifestação? Há controvérsia, especialmente pelo fato de que bandas de Protopunk dos dois países (como o The Sooges, MC5 e Richard Hell nos EUA e David Bowie e T-Rex na Inglaterra) já sinalizavam alguns traços que seriam parte dos primórdios do Punk Rock.

Quando o Protopunk deteriorou, os punks conquistaram de vez o seu espaço. Assim como seus antecessores, eles pareciam recusar as construções sonoras do Rock Progressivo e do Hard Rock. Estavam cansados de mesmices e complicações. As letras do Progressivo divagavam demais, eram cheias de criaturas míticas, de mensagens simbólicas e idealizações. No documentário “Punk: Attitude”, Legs McNeil, da Punk Magazine, reclama que muita gente já estava exausta dos solos prolongados do Deep Purple. Assim sendo, os novos músicos que estavam surgindo buscavam desvincular-se de tradicionalismos e construir algo diferente, seja lá o que significasse o “diferente”. Eles tinham espaço para isso (em locais undergrounds) e então, decidiram tentar. Não havia a menor necessidade de ser um gênio musical (poderiam ser, por ventura, ou então, tocar apenas três acordes – o Rock não era mais elitizado). O importante é que estavam sendo acolhidos e escrevendo suas histórias. Em suas letras, podiam ser engajados social e politicamente, ou fazer qualquer tipo de rima e preenchê-la com barulho. Podiam tocar músicas muito curtas ou mais longas (era permitido três acordes ou refinamento). Tratava-se, em suma, de ser livre.

DO IT YOURSELF”:

Quando o Punk Rock surgiu, não era necessário ser um gênio musical para criar música. Tampouco era preciso ter qualquer tipo de aprovação por parte da imprensa ou do público. E é justamente nestas circunstâncias e nesta ideologia de independência que surgiu a retomada de uma atitude denominada “DO IT YOURSELF”, ou, em português, “faça você mesmo”. É importante esclarecer que este termo, historicamente, existia desde a década de cinquenta e, conforme dito acima, foi apenas retomado e adaptado pelo Punk Rock.

No contexto geral, o “DIY” estava diretamente relacionado com uma atitude (individualista e/ou coletiva) pautada na capacidade de se buscar concretizações para quaisquer objetivos. Portanto, sob este ponto de vista, não é preciso se esperar algo de outrem, dever-se agir por conta própria e, dessa forma, o DIY era uma atitude encorajadora e motivadora, que propunha competência e capacitação. Além do que diz respeito à produção musical, outra expressão do DIY que marcou o cenário do movimento Punk, foram as fanzines, revistas alternativas que eram elaboradas por pessoas que acompanhavam o desenvolvimento do Punk Rock, e cuja uma das principais representantes era a Sniffin’ Glue. As edições destas revistas eram inteiramente executadas por seus próprios criadores e não contavam com terceirização ou qualquer outra intervenção externa. Eram meios de comunicação de cunho cultural, notavelmente eficientes para os admiradores do movimento. As edições disponham informações sobre bandas, shows, além de poesias e outros tipos de artigos: “Os fanzine, especialmente o Sniffin’ Glue, espalhavam-se ética/estética punk por toda a cidade. Nesses fanzines podiam-se ler coisas como: “Chateados, rejeitados, enganados, manípulos e ignorados – isso é o que sente a juventude britânica (…)”. (SANTOS, p. 20, 1985). 

Festival Woodgothic, um exemplo nacional da prática do DIY.

O “Do It Yourself” existe até os dias de hoje e pode ser aplicado nas mais diversas situações ou áreas: estudar por conta própria, produzir suas próprias vestimentas, gravar músicas sem depender de agentes externos, arquitetar um ambiente, decorar uma casa, elaborar um festival, enfim, fazer qualquer coisa possível, de maneira independente, por si mesmo. Em nosso próprio país, temos um exemplo vivo do DIY: o Woodgothic Festival, que acontece periodicamente em São Tomé das Letras (Minas Gerais), sob planejamento, organização e idealização de Zaf e Karolina (membros da banda Escarlatina Obsessiva). Conforme comentaram os idealizadores: “A principal característica que torna o Woodgothic um evento DIY é que fazemos tudo sozinhos; nessa última edição tivemos inclusive que construir bilheteria, bar e instalar toda a fiação que iluminou a entrada do evento; três dias antes do festival acontecer, estávamos lá, martelando, serrando e subindo em árvores para passar o fio elétrico. Fora todo o resto, desde falar com as bandas/DJs, contratar a equipe de som, os seguranças, o pessoal da cozinha, nos defender dos ataques políticos da administração política local, na Câmara Municipal da cidade (risos) que aconteceu nessa última edição, quando nos impediram de realizar o Festival no Centro de Eventos, e tudo mais que você possa imaginar”. Karolina complementou dizendo que outro notável fator que caracteriza o evento com o DIY é que não recebem nenhum apoio financeiro para realizar o festival, e ainda pedem ao público que leve, além dos ingressos, 1KG de alimento que é doado à Associação Viva Criança de São Thomé. Perguntei se incentivam outras pessoas a praticarem o DIY, e a resposta dos músicos, foi: “Sim, claro, tem muita gente por aí que poderia organizar algo legal, mas não faz achando que seria impossível, e que precisa disso e daquilo…”.

A LIBERDADE COMO COMPONENTE DO “ESPÍRITO PUNK”:

“A mensagem dessas novas bandas era, em geral, de raiva, frustração e alienação. Todas imprimiam em suas músicas um sentimento de urgência em transformações”. (SANTOS, p.23, 1985).

Siouxsie Sioux, uma mulher lendária na história do Punk Rock.

E afinal, o que significa “ser Punk”? Haveria uma mesma essência presente nas divergências deste movimento cultura? Em outras palavras: se considerarmos que há divergências ideológicas, que não existe um único padrão que defina o Punk Rock, e até mesmo que há divergência em termos de construções musicais, podemos, ainda assim, encontrar uma característica essencialmente comum a todas essas (e quica outras) diferenças? Muito provavelmente, sim, muito embora as respostas para essa essência podem ser diversificadas, partindo de subjetivismos. Contudo, se pararmos para analisar toda a história do Punk Rock, podemos encontrar um fundamento que sempre, de alguma maneira, se mostrou presente: a liberdade. E essa liberdade dialogou com diversos artistas, punks e apreciadores de maneira variada. As mulheres, por exemplo, puderam, mais do que nunca, estar em cima dos palcos e se expressar através da música. Não que antes não houvesse mulheres em meio ao Rock And Roll, mas certamente o Punk Rock as acolheu e as deu um espaço significativo, afinal, foi em meio a este cenário que surgiram nomes como Siouxsie Sioux, Lydia Lunch, Patricia Morrison, Debbie Harry e Patti Smith, algumas das crias dos primeiros “points undergrounds”, tanto da Europa, quanto nos EUA. 

 Além da forte presença feminina em bandas punks, houve também a liberdade de se construir a música de maneira mais simplificada, pois, de certa forma, o Punk foi a “ressaca” do Rock Progressivo. Ou seja, o Punk Rock apareceu em cena como uma resposta ao exagero maçante de construção sonora do Progressivo, e os punks defendiam a ideia do “do it yourself”, ou, “faça você mesmo”: qualquer um pode ser músico, basta tocar um instrumento, escrever uma letra (ou um, ou ambos) e manifestar-se. Não é preciso saber tocar guitarra com os olhos fechados e buscar a harmonia ideal em cada uma das notas, mas tocar as notas conforme a alma dita, sendo que isso, não exige, necessariamente, sofisticação. E ressalte-se que a ausência de sofisticação exacerbada, não implica (ao menos não fatidicamente) em empobrecimento musical.

O Rock Progressivo já estava cansando: era hora de praticar uma revolução musical (e ideológica).

  Ao lado esquerdo, vemos Paul Cook, um dos membros do Sex Pistols usando uma camiseta cuja tradução, é: “Eu odeio o Pink Floyd”. O resultado desse fenômeno musical que surgiu com tanta revolta, foi à inserção do Punk Rock como um novo e reconhecido estilo musical surgido diretamente da cena underground (meramente desprezada pela imprensa cujos interesses eram mercadológicos), e o declínio (pelo menos parcial) do Rock Progressivo. Essa postura estética do Punk explorava a agressividade e transpunha uma notável expressão de insatisfação perante a existência, por isso os primeiros punks tinham uma postura um tanto niilista. Consequentemente, considerando tais traços, pode-se perceber que esse gênero musical retomou a postura rebelde das raízes do Rock And Roll. Conforme mencionou Santos: “O punk-rock era uma retomada do significado e função original do Rock”n”Roll. Era a revolta contra a pasteurização da rebeldia e acomodação do rock, que lentamente havia-se transformado num “divertimento leve”, superproduzido, longa da vida e da rua”. (p.23, 1985).

Essa aura de liberdade que tange a história do Punk Rock pode ser sintetizada por estas palavras que, certa vez, foram proferidas por Sid Vicius, um dos maiores representantes e ícones do referido movimento cultural: “Eu faço o que gosto e o que importa é isso. Se ninguém neste planeta gosta do que faço, não reclamo (…).” O músico prosseguiu com a reflexão: “(…) o essencial é que fazemos o que queremos (…) “Se você faz alguma coisa, deve fazer porque gosta, e não por dinheiro. (p.40, 1985).

  De alguma maneira, portanto, a ideia de liberdade sempre caminhou ao lado do Punk, que abriu espaço e incentivou pensamentos e práticas que capacitavam a autenticidade do indivíduo, pois de repente, mulheres podiam cantar, tocar instrumentos e até mesmo liderar uma banda. As pessoas podiam se esforçar para realizar seus feitos a partir de si próprias, sem necessariamente ter alguma dependência externa (“DIY”) e, claro, houve uma modificação na construção musical, que tornou-se relativamente e voluntariamente simplificada e que rompeu com os efeitos musicais e a tradição sonora pertencentes ao Rock Progressivo, de forma que, qualquer um passou a ter capacidade de compor e criar uma banda (este, aliás, foi um grande incentivo herdado pelo Punk Rock – não se aflija, pegue sua guitarra, escreva seus pensamentos num papel, e tente esboçar e/ou gravar algo).

ASPECTOS POLÍTICOS:

É complicado determinar um único aspecto político para um movimento tão descentralizado como o movimento punk, afinal, o próprio movimento punk também possui sua trajetória histórica, como já fora citado, e portanto acaba possuindo aspectos políticos variados de acordo com seu local e data, além da questão da descentralização. O que se pode dizer seguramente é que, mesmo com essa descentralização de ideias, o punk possui seu ponto comum quando o assunto é autoridade ilegítima. Para os punks, todos aqueles que tentam impor suas vontades, seus costumes ou sua força sobre os mesmos se tornam declaradamente inimigos. Qualquer ação que venha a ser compulsória, ou até mesmo terceirizada para além do movimento, não está de acordo com a ética DIY.

Criatividade, individualismo (no sentido de faça você mesmo), visão contra o status quo e atitude são os principais pilares do tão importante movimento, sendo essenciais para desenvoltura de qualquer ação advinda do mesmo. Inquietude e curiosidade também são fatores que se mostram essenciais na cena como um todo. A ousadia de experimentar novos acordes, de se expressar em letras que raramente fazem o gosto da maioria, de pensar diferente das crenças impostas socialmente, de se apresentar nos “piores” e nos “melhores” palcos… Apesar da dificuldade em caracterizar como único o vasto movimento que é o punk, é justo afirmar que é através de sua descentralização que emerge sua maior força. Um movimento sem líderes, autônomo, que apenas possui referências, é muito difícil de ser contido, de ser premeditado, de ser atacado de maneira objetiva e efetiva; seja na Inglaterra, nos Estados Unidos da América ou até mesmo no Brasil.

 Crass, considerada a banda fundadora do Anarcopunk.

  Desde o proto-punk já haviam bandas que advogavam pelo anarquismo como a alemã “Ton Steine Scherben” e outras inglesas como “Hawkwind”, “The Deviants” e “Pink Fairies”, deixando desde o início do movimento a clara ligação entre a música e a política. É muito importante, nesse aspecto, destacar uma vertente punk em específico: O anarco-punk, fundado ao fim dos anos 70 pela banda “Crass” no Reino Unido, com seu álbum “Yes Sir, I will”, como uma resposta aos punks que, pouco a pouco, iam se vendendo ao sistema que julgavam combater, que não passavam de uma rebelião simbólica, sem impactos sérios. Como o próprio nome diz, o anarco-punk é uma vertente do punk tradicional que promove o anarquismo. O método de apresentação da banda “Crass” foi algo totalmente revolucionário no movimento punk pois, não somente falavam sobre o anarquismo de maneira séria, como também exaltavam a música como agente de mudança sócio-cultural, além é claro, de tocarem estilos variados como crust, hardcore e folk punk; todos os integrantes do “Crass” usavam roupas simples, totalmente pretas, sem qualquer acessório “chamativo” ou similares, em suas aparições; além de terem fundado a “Crass records” que possibilitou o surgimento e gravação de diversas outras bandas.

Tendo vendido mais de um milhão de cópias de seu primeiro álbum, a banda “Crass” foi processada pelo ato de “publicações obscenas” no Reino Unido. Além do “Crass”, bandas como “Flux of pink indians”, “Subhumans” e “Chumbawamba”, se identificavam como anarquistas sem adjetivos, enquanto que a banda “Poison Girls”, por exemplo, era anarco-feminista e pertencia ao mesmo gênero. É importante ressaltar que todas essas bandas advogavam por direitos animais, equidade racial e autonomia proletária. Em suas letras fica explícito que são contra guerras e contra o globalismo estatal, enquanto que, em suas ações, vemos os protestos pacíficos, recusa de trabalho (greve), sabotagem econômica (contra-economia), grafites, mergulhar em lixo (sim, literalmente) em busca de bens descartados que possam serem utéis a comunidade, boicotes, desobediência civil, ocupação de áreas abandonadas, hackerismo ativista e subversão ativista social. Outras bandas como “Conflict”, além dos métodos citados, também advogavam pelo vandalismo, violência, bombardeios, participação em fronts de libertação animal e similares, alegando que a o termo violência na destruição de propriedade não é válido, tendo em vista que a destruição da propriedade não é para controlar um indivíduo ou instituição, mas sim para retirar o controle destes.

           Poison Girls, uma banda declaradamente anarco-feminista.

Apenas por curiosidade, gostaria também de comentar brevemente sobre a banda “The Psalters”, que tocava majoritariamente folk punk e possuíam cunho straight edge ou seja, rigidamente autodisciplinar, alegando que álcool, tabaco, promiscuidade e drogas são meros instrumentos de opressão e são autodestrutivos. Além de causarem desperdício de recursos escassos como a terra e o trabalho para produção dos mesmos; recursos estes que, por exemplo, poderiam ser direcionados a produção de comida ou moradia para os miseráveis. Diferenciando-se das outras bandas anarco-punks, “The Psalters” possuía pesada influência do cristianismo, principalmente nos aspectos de ajuda e amor ao próximo, além de levarem uma vida nômade, tendo, por vezes, estado em estradas por 5 anos consecutivos. Suas músicas frequentemente referenciavam versículos bíblicos e eram anti-patrióticas, anti-violência e pró-justiça.

Falando de maneira geral, bandas anarco-punk não se focam particularmente no aspecto musical per se, mas sim em toda a estética que abrange o processo criativo, desde a arte de seus álbuns, até suas mensagens políticas e estilos de vida de bandas e membros. O próprio “Crass” já listou como membros da banda as pessoas que fizeram artes para seus álbuns e que ajudaram em apresentações ao vivo, com iluminação e afins. Não somente para o anarco-punk, mas para o punk como um todo, a mensagem é, por vezes, mais considerada que a música em si. De acordo com a própria estética punk, um indivíduo ou grupo pode produzir sérios trabalhos ou obras mesmo estando limitado em meios tangíveis ou habilidades técnicas.

Há muitas bandas que marcaram a história do Punk Rock e sobre as quais podemos discorrer. Infelizmente, não há espaço para mergulhar nas incríveis histórias de todas elas. Porém, satisfatoriamente, o Acervo Filosófico contou com colaboradores que se disponibilizaram a refletir e compartilhar um pouco de alguns dos mais brilhantes grupos que já existiram. Confira!

SEX PISTOLS (por Juliana Vannucchi):

(…) NÓS SOMOS AS FLORES NA LIXEIRA (…)

(…) Foi uma banda polêmica e controversa. Odiada por muitos, amada por muitos outros.

   Embora haja controvérsia, a maior parte da crítica especializada afirma que o Sex Pistols foi o grupo responsável pela introdução do gênero Punk Rock, tanto como música, quanto movimento no Reino Unido. Isso aconteceu em 1975, quando a banda foi formada em Londres, composta inicialmente pelo vocalista Johnny Rotten, o guitarrista Steve Jones, o baterista Paul Cook e o baixista Glen Matlock. Matlock foi substituído pelo mítico Sid Vicious no início de 1977. O sucesso musical que obtiverem, foi conduzido por um nome bem familiar na história da música: Malcolm McLaren (o grande catalisador do Sex Pistols). O empresário os conheceu as poucos, e percebeu que havia potencial estético e ideológico na rebeldia do grupo. Aliás, falando essa tal rebeldia, certa tarde, invadiu os lares da maior parte das famílias da Inglaterra, através de um programa televisivo e já que tocamos no assunto, narremos aqui um dos dias mais inesquecíveis (e brilhantes) da história do Rock And Roll: 1 de dezembro de 1976, Siouxsie Sioux (que posteriormente se destacaria com seus Banshees), os Pistols e outros punks, participavam de um dos programas de maior audiência da TV inglesa, levado ao ar às cinco da tarde, a famosa “hora do chá”, em que famílias concentram-se frente à TV. E então, durante a transmissão do programa, pela primeira vez na história, a expressão “Fuck off” (foda-se) é dita diante das câmeras. O protagonista da história só poderia ser Johnny Rotten.

 No livro “O que é Punk”, há um relato de um homem que garante ter atirado sua televisão na parede após escutar as palavras ditas por Rotten durante a transmissão do programa. Esse fato deixa bem claro que o Sex Pistols estava incomodando socialmente: definitivamente, não era uma banda de queridinhos ou de rockstars talentosos. Tratava-se de um grupo subversivo, composto por artistas ácidos, provocadores, inconsequente e claro, em total desagrado com a situação de suas vidas e de seu país.  O Sex Pistols incomodava: questionava descaradamente a autoridade da rainha e a monarquia do país e convidada a população para abandonar sua zona de conforto.

  Pouco depois de o Sex Pistols dar as caras no cenário musical britânico, bandas semelhantes começaram a surgir e o movimento Punk, foi se alastrando pelo país e, consequentemente, por outros lugares no mundo. Rotten, certa vez, comentou o motivo social que levou o movimento a eclodir com tamanha intensidade: “A Inglaterra no início da década de 1970 era um lugar muito deprimente. Estava completamente degradada, havia lixo nas ruas, desemprego total, praticamente todos estavam em greve… Todos foram criados em um sistema de educação que deixava bem claro que se você veio dos subúrbios, você não tinha mais a menor esperança e nenhuma perspectiva de emprego. Foi daí que surgiu a minha pessoa pretensiosa e o Sex Pistols e depois de nós uma série de imitadores imbecil”.

“Sem futuro, sem futuro para mim (…) sem futuro para você”.

   No jubileu de prata da rainha Elisabeth II, que completava 25 anos no poder Inglaterra, a banda lançou o compacto de “God Save The Queen”. Um presente inusitado para a rainha, e que deixava bem clara a insatisfação da banda com o regime que estava no poder. Muitos britânicos (por mais que alguns não assumissem) abraçaram a letra e sentiram-se aliviados por alguém, finalmente, estar condenando o poder. Era uma crítica ousada que carregava trechos como “não há futuro na Inglaterra” ou “Deus salve a rainha, seu regime fascista”.

   Foi uma banda polêmica e controversa. Odiada por muitos, amada por muitos outros. Mas foi mais do que uma reunião de jovens rebeldes reunidos para fazer Rock And Roll, foi um verdadeiro movimento social que influenciou jovens de todo o planeta, e que, até hoje, conquista seguidores e fãs. Os Pistols foram corajosos, e isso já é o suficiente para torná-los bons. O Sex Pistols representaram (e ainda representam) o sentimento de fúria e revolta de muitos jovens que sentiam-se reprimidos e incapazes de construir um futuro promissor. “E ainda representam”, significa dizer que muitas pessoas ainda carregam esse sentimento e, com certeza, os Pistols ainda fazem sentido no cotidiano de muitas pessoas.

“…Never Mind The Bollocks, todos concordam, é um dos melhores discos do século XX.” Pete Townshend (Guitarrista do The Who /Q Magazine – junho/96).

DEAD KENEDYS (por Gabriel Marinho):

(…) VOCÊS ESTÃO FAZENDO ALGUMA COISA MÁ? (…)

   Dead Kennedys é uma banda californiana formada no final da década de 70, e é uma das mais controversas da década de 80. Com uma mistura do punk inglês e da agressividade do hardcore americano, foi aclamada pelo seu som, pelo caos e pelas letras politicamente ácidas de seu antigo vocalista, Jello Biafra. Sem papas na língua, o frontman criticava os absurdos sócio-políticos da década de 80, fossem esses voltados à esquerda ou direita política, e retratava também outros temas, tal como brutalidade policial (Police Truck), mídia (M.T.V. – Get Off the Air, Hop with the Jet Set…), invasão de privacidade (I am the Owl), a igreja (Religious Vomit), críticas contra os pseudo-punks (Nazi Punks Fuck Off), etc.

  Um dos episódios mais marcantes da carreira da banda foi quando foram convidados a se apresentarem no Bay Area Music Awards, para levar uma “credibilidade new wave” ao evento, nas palavras dos próprios organizadores. O dia da performance se passou com o Dead Kennedys ensaiando a música que pediram para eles tocarem, “California Über Alles”. Quando a banda subiu ao palco, 15 segundos após começarem a canção, Biafra interrompeu a banda e disse: “Parem! Nós temos que provar que somos adultos agora. Nós não somos uma banda de punk rock, somos uma banda de new wave”. A banda, todos vestidos com roupas brancas com uma grande letra “S” preta desenhada, puxaram gravatas pretas que estavam enroladas em seus pescoços para formar o símbolo de um dólar, e começaram a tocar uma música nova chamada “Pull My Strings”, uma crítica satírica e explícita contra as éticas da indústria musical mainstream. A banda é uma das mais influentes do hardcore americano e continua em atividade até hoje. Embora sem o icônico Jello Biafra.

THE ADICTS (por Emerson Abreu com a colaboração de Reinaldo Carlos):

(…) ABRAM SUAS MENTES PARA O PENSAMENTO LIVRE (…)

   Uma mistura de Coringa com Alex DeLarge: essa é a melhor definição que se possa dar sobre o símbolo do The Adicts. A banda realmente incorporou o visual droog mostrado no filme Laranja Mecânica. Eles nasceram antes com outro nome, em 1975 – Afterbirth & The Pinz – na cidade de Suffolk, Inglaterra. Monkey (Keith Warren), nos vocais, Pete ‘Dee’ Davidson na guitarra, Mel Ellis no baixo, Michael ‘Kid Dee’ Davison na bateria, foi a formação que deu início a banda. Posteriormente, entraram também John Ellis (irmão mais novo de Mel Ellis) na guitarra secundária e Dan Gratziani em instrumentos adicionais como o violino. Famosos na cena rock independente e campeões de vendas de discos nesta cena, eles conseguiram a proeza de emplacar seu segundo disco de estúdio, Sound of Music de 1982 e o single “Bad Boy”, na disputada parada rock britânica.

   Sempre se mantiveram na ativa, e neste ano, após 5 anos sem gravar, lançam o álbum “And It was So !” Sempre diversão garantida!

THE CLASH (por Dennis Sinned):

(…) TODA AQUELA FALSA BEATLEMANIA COMEU POEIRA (…)

    Das bandas que foram ícones da ascensão do movimento Punk, encontram-se nomes como Sex Pistols e Ramones, porém, sem sombra de dúvidas, o The Clash foi a banda mais politizada entre estes ícones. A banda inglesa formada em 1976 lançou seu primeiro disco no ano seguinte, em 77 e marcou a história por seu ativismo social em canções caracterizadas por palavras duras e diretas contra a xenofobia, o racismo, o sistema monárquico vigente na Inglaterra e as guerras. Enquanto os Ramones e os Pistols davam voz à uma rebeldia adolescente mais ingênua, os membros do Clash dialogavam diretamente com figuras da política e da filosofia da época. O Clash existiu entre 1977 até 1986, e nesse período sempre foi uma voz ativa das revoluções na Espanha, no Oriente Médio e também contra os déspotas que teimavam a surgir nas Américas, tal como sugere o disco “Sandinista!”, nome dado à revolução popular que lutava contra uma ditadura na Nicarágua. Já em “Spanish Bombs”, a banda se posiciona contra o golpe de estado do exército espanhol que gerou uma guerra civil no país. Enfim, são muitas as referências que podemos citar aqui para evidenciar a influência que a política tinha na música do Clash, mas isso não ocorreu por coincidência, pois os membros da banda sempre se mostraram próximos de figuras importantes no mundo político e saindo de um mero protesto teórico e poético, se mostravam verdadeiros militantes sociais.

           Strummer, grande apreciador de livros.

  A formação clássica do Clash foi composta por Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e Terry Chimes. Mick Jones frequentou uma escola de artes antes de montar o Clash. Simonon também sempre se envolveu com arte e é artista plástico e desenhista, sendo que hoje é ele quem coordena todo o marketing visual dos produtos do Clash.  Agora gostaria de comentar aqui especialmente sobre a figura de Joe Strummer que, sem dúvida, foi o músico mais ativista da primeira geração do punk. Strummer nasceu em Ancara, na Turquia e passou boa parte da infância se mudando com a família que vivia em constante peregrinação por causa do trabalho de seu pai, que era um Diplomata Indiano. Ainda na adolescência começou a se interessar por livros de filosofia e de política, e depois de se estabelecer na Inglaterra, Strummer se identificou com as causas de esquerda, com a anarquia, comunismo, o anarcossindicalismo, as causas dos estrangeiros radicados na Inglaterra nos anos 70 e a causa trabalhadora em geral. O líder do Clash se mostrava ser um artista traçado por um humanismo inquieto. Em 1974 formou a banda THE 101’ERS, que durou até a fundação do The Clash. Joe Strummer sempre demonstrou em suas letras uma luta contra a desigualdade social e racial na Inglaterra e sempre se declarou contra a aristocracia inglesa e o império da rainha. Em determinado momento de sua vida, se juntou com algumas mentes pensantes e com a cultura dos guetos, sendo que os efeitos disso encontram-se evidenciados nas músicas do Clash, nas quais há grande influência do Reggae e do Ska, além da presença de diálogos diretos com o Hip-Hop e com o Rap. Além desses aspectos sonoros, é válido mencionar que Strummer foi amigo pessoal do autor Aldous Huxley e também do filósofo argelino Albert Camus, com quem dividia inclusive alguma semelhança na aparência física, além do fato de ambos possuírem descendência ligada ao oriente e ao mundo afro-asiático.

  Por fim, tanto Joe Strummer quanto o The Clash foram os primeiros a levar o movimento punk de um niilismo juvenil para um contexto social, político e acima de tudo participativo, sendo, enfim, sendo de fato responsáveis pela produção de um rock combatente!

BLACK FLAG – (por Gabriel Marinho):

(…) PENSAM QUE SÃO ESPERTOS, NEM PODEM PENSAR POR SI PRÓPRIOS (…)

  O Black Flag é uma das primeiras bandas da vertente de um gênero chamado Hardcore Punk. Foi formada pelo guitarrista Greg Ginn e foi uma das bandas pioneiras do D.I.Y (faça-você-mesmo), lançando material e realizando turnês sem o apoio de uma grande gravadora. Os temas em volta da sonoridade pesada e cheia de “quebras” rítmicas incluem certo niilismo, uma dosagem de cinismo perante a vida, assim como mensagens não-conformistas, anti-autoritárias, e outras abordagens de cunhos sociais.

 A banda continua a ser respeitadíssima no meio alternativo pela sua atitude e experimentalismo, passando pelo Heavy Metal, Free Jazz, Breakbeat e música contemporânea. Atualmente, continuam em atividade, embora haja certa confusão, pois há dois Black Flag: um formado por Greg Ginn e outro por Keith Morris (antigo vocalista da banda e ex-Circle Jerks).

RAMONES (por Thiago Halleck):  

Espere para nos ver tocar – nós fedemos, nós somos nojentos, nós não conseguimos tocar. Nós só vamos ali e tocamos.” – Joey Ramone para Paul Simonon (Londres, 1976).

  Dentre as três bandas que marcaram a explosão do movimento punk nos anos 70, indiscutivelmente, os Ramones se destacam como a mais expressiva. Se, por um lado, a agressividade explosiva dos Pistols ou o engajamento político do Clash foram primordiais, foi o quarteto nova-iorquino que projetou o punk para o resto do mundo.

Formaram-se em 1974, em Nova York, influenciados por uma variedade de bandas e artistas dos anos 50 e 60, como Beatles, Rolling Stones, The Who, Elvis Presley, Kinks, Beach Boys, Trashmen e The Ronettes. Originalmente, a ideia era tocar músicas desses artistas, entretanto, logo decidiram compor as próprias músicas, pois tocar as de seus ídolos estava além das pobres capacidades musicais dos integrantes. A formação original, com Johnny na guitarra, Joey na bateria e Dee Dee no baixo e vocal, também não ajudava, pois Dee Dee não conseguia cantar e tocar ao mesmo tempo, tampouco Johnny conseguia se dividir entre os vocais e as baquetas. A solução foi chamar o amigo Tommy. Estava estabelecida a formação clássica dos Ramones, formação esta que viria a mudar por diversas vezes.

Os números impressionam: 18 álbuns (14 de estúdio e 4 ao vivo) e 2.263 shows realizados ao longo de 22 anos de estrada fazem deles, indiscutivelmente, a banda punk mais prolífica da Terra. Não é para menos: mais que uma banda de rock, os Ramones foram um plano minuciosamente arquitetado pelo controverso guitarrista Johnny Ramone (1948-2004). Nada era por acaso: o emblema da águia, o visual uniformizado (cabeleiras pitorescas, jaquetas de couro e jeans rasgados) e o sobrenome Ramone adotado por cada membro, de certa forma, já denunciavam como as coisas funcionavam: a banda era uma fortaleza, onde havia soldados, um general e regras a se seguir. Decladamente de direita, sempre contando dinheiro e com uma postura autoritária, Johnny não era exatamente o que se esperava do líder de uma banda punk. Em contraste com o caráter rígido e controlador de Johnny, os Ramones, ainda assim, transbordavam autenticidade e visceralidade, através das figuras emblemáticas do frágil e solitário vocalista Joey e o desvairado e intenso baixista Dee Dee.

          Ramones: uma das principais bandas da história do Rock And Roll.

Simplicidade e crueza eram as palavras de lei: o processo de gravação do disco de estreia (Ramones, 1976) custou míseros U$6.000 e foi todo feito em uma única semana. As canções eram minimalistas, com três ou quatro acordes tocados de forma repetitiva, rápida e, por vezes, tosca, sem solos de guitarra ou arranjos trabalhados. A icônica foto da capa foi tirada de última hora, na rua, de qualquer jeito. Essa fórmula, simples, certeira e eficaz como uma paulada na cabeça, continuou sendo seguida e propagada pelos anos posteriores. Foram os Ramones quem definiram que, para fazer rock n’ roll, não era necessário ser virtuoso, bonito ou, tampouco, agradável. 

Ironicamente, o que começou como grito da contracultura, passados os anos, converteu-se em um gigantesco fenômeno de mídia. São, até hoje, uma das bandas mais influentes para inúmeras vertentes musicais: punk, hardcore, post-punk, emo e, surpreendentemente, também são de importância para grandes nomes do metal, hard rock, indie, rap e pop. Foram homenageados e regravados por Metallica, KISS, U2, Green Day, Skid Row, Rob Zombie, Raimundos, Ratos De Porão e vários outros ao redor do mundo. Compuseram “Pet Sematary” para o filme homônimo de Stephen King, a pedido do próprio. Apareceram no aclamado desenho “Os Simpsons”. Ganharam musical na Broadway. Em 2002, entraram para o Rock N’ Roll Hall Of Fame. Camisetas, bonecos e pôsteres espalham-se pelos quatro cantos do mundo. Há quem questione tamanha massificação da obra da banda, apontando-a como um fator de anulação de sua própria natureza punk, mas o fato é que os Ramones abriram portas e mostraram ser possível para qualquer garoto de subúrbio apenas pegar uma guitarra e se expressar, simplesmente, tocando rock n’ roll sem frescuras ou caprichos. E, se isso não é ser punk, o que mais poderia ser?

PUNK IS NOT DEAD:

       Ao longo do tempo de sua existência, o Punk, em suas diversas formas de manifestação (sejam elas ideológicas e/ou sonoras), significou uma verdadeira ruptura com tradições vigentes, e as consequências desse abandono para com aquilo que era corrente, culminou em transformações estilísticas (musicais, na moda e, enfim, na arte, em geral) e comportamentais (em grupo ou individualmente). A história que foi escrita pelo Punk Rock permanece viva e é atemporal. Mesmo que os traços desta cultura e seus aspectos não sejam de interesse dos grandes meios de comunicação, ainda assim, de alguma maneira,o movimento Punk encontrará seu espaço e estará sempre vivo para inspirar e influenciar indivíduos de todo o planeta, independentemente de suas divergências sócio-culturais, pois o Punk Rock foi e ainda é, em essência, um incentivo à capacidade individual e/ou coletiva e um manifesto pelo fortalecimento da autenticidade, pautada num incentivo à prática da refutação e das rupturas com qualquer tipo de situação vigente.

   Certamente haveria muito mais conteúdo para se explorar neste texto. Prova disso, é a quantidade de livros, filmes, documentários, pesquisas, palestras e afins, cuja abordagem temática é o Punk Rock. Entretanto, por hora, o Acervo Filosófico encerra por aqui sua singela homenagem. Vida longa ao Punk Rock.

GALERIA DE FOTOS:

REFERÊNCIA:

SANTOS, Hugo. Sid Vicious, 1985. Editora: Brasiliense.

BIVAR, Antônio. O que é Punk, 2001. Editora: Brasiliense.

 

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2 Comments

  1. Reply

    Muito boa a matéria!
    Também seria interessante falar um pouco sobre o Punk brasileiro, com uma história tão vasta e rica quanto .
    Além do livro do BIVAR (1992), indicaria o “Movimento Punk na Cidade: a invasão dos bandos sub (1985)” e o excelente “Cenas Juvenis: Punks e Darks no Espetáculo Urbano (1994)”.
    A videografia sobre o movimento tbm é extensa, destaque para o BOTINADA: A ORIGEM DO PUNK NO BRASIL (2006), NAPALM: O SOM DA CIDADE INDUSTRIAL (sobre a icônica casa paulistana) e o pioneiro Garotos do Subúrbio (1983) de um então desconhecido Fernando Meirelles.

    1. Acervo Filosófico
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      Olá! Tudo bem, Sad? Agradecemos imensamente pelo comentário, pelo elogio e pelas indicações. Certamente há muitos outros elementos que poderiam complementar nossa matéria, já que, de certa forma, o assunto não se esgota. Porém, foi necessário fazermos um recorte para definir quais aspectos seriam abordados e quais seriam o foco, pois não seria viável abordar tudo aqui. Seja sempre bem-vindo ao Acervo Filosófico! Um grande abraço!!

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