QUEM FOI SÓCRATES?

By Acervo Filosófico

Por: João Arruda

Ao estudarmos filosofia antiga é injusto não estudarmos Sócrates, pois foi grande o impacto causado por sua presença em Atenas.  E ao querer remontar a imagem de Sócrates, deparamo-nos com diferentes personagens criadas por seus discípulos e contemporâneos, e ante as mesmas, surge a pergunta: o que há do Sócrates real nessas personagens? Eis a questão socrática! E essa questão se torna ainda mais relevante quando aparecem divergências entre as características destas personagens. Resta-nos apenas remontar a imagem de Sócrates a partir de pontos de convergências entre o que foi escrito dele, ou ainda, a partir das novidades da literatura grega que surgiram durante sua passagem em Atenas, e remontar sua doutrina através de uma perspectiva cultural do antes e depois de Sócrates.

Representação artística de Sócrates, pouco antes de ingerir a cicuta. (A Morte de Sócrates, 1787, por: Jacques Louis David. Metropolitan Museum of Art, New York).

O problema de remontar Sócrates decorre do fato de que todo seu ensinamento foi transmitido oralmente pelo exemplo de sua vida, e não por nenhuma obra escrita. O contato desse grande filósofo para com seus interlocutores acontecia sempre em locais públicos, pois não ele não fundou nenhuma escola. Dentre esses interlocutores podemos destacar dois discípulos e um crítico de Sócrates, que compõe uma das principais fontes a seu respeito. Esses dois discípulos, que se destacam por terem escrito sobre Sócrates, são Xenofonte e Platão, sendo que este último usa Sócrates como porta-voz da sua doutrina, e fica, inclusive, difícil separar o Sócrates histórico do Sócrates platônico, mas, ainda assim, Platão pintou com coerência a figura do mestre no decorrer de seus diálogos, desde sua timidez presente em “Parmênides”, passando por sua insolente loquacidade no “Protágoras” até chegar à sua resignada piedade no “Fédon”, diálogo no qual é possível perceber o maturar de Sócrates. Já Xenofonte, por sua vez, apresenta um Sócrates de dimensões reduzidas, com traços que, às vezes, beiram a  banalidade. Aristóteles classifica a Memorabilia e o Banquete de Xenofonte como formas de ficção que, na maioria das vezes, assim como ocorre em Platão, tem Sócrates como porta-voz de sua doutrina. Aristófanes, o crítico de Sócrates que também escreveu a seu respeito, por outro lado, longe de elogia-lo, o caricatura com um sofista ateu e blasfemador que abusa da credulidade dos seus discípulos. E assim como ele, ainda há outros escritores antigos que não deixaram elogios a Sócrates: Aristóxenes de Tarento, com o testemunho de seu pai, afirma que o filósofo era um indivíduo sem educação, “ignorante e debochado”; e ainda há Eupolis, poeta, que junto a Aristófanes, também atacou Sócrates. Com esses breves comentários feitos até aqui, fica claro que nosso filósofo foi, ao mesmo tempo, amado e odiado.

Sócrates nasceu em Atenas, em 470 a.C., seu pai foi escultor, sua mãe foi parteira. O pensador grego dedicava-se a exercícios físicos e mantinha-se, geralmente, em boa forma. Criou fama de bom soldado durante a guerra do Peloponeso; em 432, combateu em Potideia; em 424, em Delium; e em 422, em Anfipolis. Nessas batalhas, a todos excedeu em resistência e coragem, suportando a fome, a fadiga e o frio. Nas raras vezes que ficava em casa, trabalhava como carpinteiro e estatuário. Casou-se com Xantipa, que o acusava de negligência para com a família. Sócrates era um homem desapegado, contentava-se com uma simples túnica surrada para o ano inteiro, e preferia andar descalço do que usar sandálias ou sapatos. Certa feita, vendo a quantidade de artigos expostos à venda no mercado, observou: “Como são numerosas as coisas da qual não preciso”. Em todos os aspectos, Sócrates procurou ao máximo manter a coerência entre suas palavras e sua vida. À frente veremos um pouco mais de seus ensinamentos filosóficos.

Em sua mocidade, deixou-se fascinar pelos sofistas que invadiram Atenas, e é possível notar algumas convergências entre Sócrates e os sofistas. Vejamos inicialmente o foco da filosofia de ambos: o filósofo grego centralizou seu campo de investigação no ser humano, deixando de lado os estudos da natureza física depois estudá-la quando moço; talvez tenha pesado sobre a mudança do campo de investigação, da ciência para ética, a influência de um de seus mestres, Arquelau de Mileto. Também compartilhava com os sofistas do uso da retórica, embora a usasse com outra finalidade, enquanto os sofistas a usavam como um instrumento de persuasão e poder sobre outras pessoas e como um conjunto de técnicas que era ensinada por dinheiro. Sócrates, por outro lado, usava-a como parte de um processo dialético, e com a sugestão, ele tentava demonstrar ao seu interlocutor sua ignorância, apontando-lhe as frágeis construções lógicas em que se apoiava e, assim, fazendo uma purificação de toda aparência que se camufla de realidade. A esse processo chamamos refutação, que consistia na primeira parte de sua dialética. Em relação a esse poder retórico socrático, podemos chamar alguns de seus discípulos como testemunhas: Alcebíades confessava não poder ouvi-lo sem ficar totalmente à sua mercê; Platão, pela personagem de Mênon, dizia que parecia ter sido drogado: “Tu me enfeitiçastes tão bem que não sei mais o que penso” (CF.Mênon, 80ª.) Mas o que mais se evidenciou não foi o que ele compartilhava com os sofistas, e sim no que ambos se diferenciavam. Sócrates condenava o relativismo e subjetivismo dos sofistas e reprovava seus o orgulhos intelectuais exacerbados, pois a ideia socrática era de que a virtude do homem encontra-se em primeiramente reconhecer a sua própria ignorância sobre as coisas para, só assim, chegar mais próximo de uma reflexão digna e aceitável. Além disso, a distinção maior é no tocante a vocação: os sofistas passavam suas vidas buscando ensinar uma virtude que servia para persuadir, podendo usá-la para transformar um argumento fraco no mais forte e, em suma, não importava o conteúdo do que se desejava persuadir, importava apenas o poder de convencer; Sócrates, por outro lado, doou a sua vida à investigação da realidade, buscando a educação de sua alma e, através da ciência, almejava o eterno bem, querendo por meio de tais atos, ser capaz de ensinar a quem quisesse. Para fechar a distinção entre Sócrates e os sofistas, trago a imagem de Platão usada para mostrar a diferença entre ambos: ele os compara com a diferença existente entre um cão e um lobo, ao dizer que, apesar de possuírem semelhantes características físicas e as mesmas habilidades, a finalidade dos seus atos se diverge. O cão age para proteger seu rebanho que o lobo busca caçar, de forma incondicional. O cão se integra à sociedade, faz-se sensível aos problemas que a atinge, a protege de alguma forma; o lobo, ao contrário, solitário como é, pensa somente por si.

Sócrates concentrou sua investigação na problemática do homem. Enquanto os naturalistas, isto é, os filósofos que o antecederam. por sua vez, procuraram responder a seguinte questão: “O que é a natureza ou a realidade última das coisas?”. Ele, ao contrário, buscou responder a seguinte questão: “O que é a natureza e a realidade última do homem?”. E a essa questão ele responde: “O homem é a sua alma, é a alma que o torna único entre qualquer outra coisa.” A alma para Sócrates é a consciência e a personalidade intelectual e moral do homem. A partir dessa definição de alma, Sócrates desenvolveu sua ética. Se a alma é a essência humana, se é ela que diferencia cada sujeito e o torna único, então, cuidar de si, significa cuidar da alma mais do que o corpo. E esse cuidado dá-se pelo aperfeiçoamento da alma por meio do conhecimento, o que seria, para Sócrates, a virtude, enquanto, por outro lado, o vício seria a privação do conhecimento. Assim, para o filósofo grego, quem conhece o bem o faz e ninguém peca voluntariamente, sendo que os que cometem o mal, o fazem por ignorância. Quando se concretiza a educação da alma por meio da ciência, o homem obtém o autodomínio, que é o domínio da própria racionalidade sobre a própria animalidade, e isso significa tornar a alma senhora do corpo e de seus instintos. Alcançado o autodomínio, o homem se torna livre e, enquanto não alcançado, é escravo dos seus instintos. No tocante aos bens matérias Sócrates fala: Deus não necessita de nada, e o sábio é aquele que mais se aproxima desse estado, sendo, portanto, aquele que procura ter necessidade de poucas coisas.

Daí, como já descrito acima, vemos a coerência de sua vida prática, com sua palavra, uma vez que Sócrates não se escondia em nenhum papel social, pois vivia justamente aquilo que pregava e, dessa forma, se colocava como pessoa de carne e osso ante seus interlocutores, não escondendo sua personalidade, e nem o mais íntimo de seu ser. A maior prova de sua integridade é que, diante da condenação a morte, permaneceu intacto preferindo a morte à qualquer conveniência que o deixa-se vivo, e tendo chance de fugir da condenação, negou e deixou-se ser compelido pela lei, mesmo acreditando que a condenação que sofria era injusta.

Após a uma pequena exposições de algumas características de Sócrates e de sua doutrina, ainda resta responder a uma pergunta: quem foi Sócrates? Há quem o considere um sofista, há quem o considere um retrógrado conservador patriarcal e há quem o considere uma espécie de Xamã, como Grimaldi. Aliás, vale a pena descrever os traços que xamãs e Sócrates compartilham, segundo Mircea Elide, apresentado no livro de Grimaldi: o primeiro é ser um curandeiro; o segundo é devolver cada um, a si mesmo ao restaurar o sentido de sua identidade; o terceiro traço característico de ambos é ser habitado por espíritos ou escolhido por alguma divindade. Em todos esses aspectos referidos, Grimaldi reconhece semelhanças entre a imagem se Sócrates a dos xamãs.

Acima de tudo, Sócrates nos ensina, passados dois milênios e meio, como ser um filósofo. Ele que inspirou tantos grandes pensadores, pela primeira vez, soube reunir várias técnicas, e o que tivesse utilidade, e colocar tudo isso ao serviço do amor à verdade, mas sem omitir que a conquista do amor à verdade é uma luta constante de toda a alma, envolvendo sentimentos, hábitos, valores e, acima de tudo, o esforço de autoconhecimento. Ao falar com seus interlocutores, Sócrates apelava ao testemunho íntimo de cada um, o que equivalia a despi-los de suas identidades sociais e induzi-los à confissão direta, sincera e humana, de seus verdadeiros sentimentos. Além das características intelectuais inerentes a um filósofo, Sócrates tinha como marco de sua personalidade a coragem, que também constitui um dos traços morais básicos de um filósofo. No meio ateniense, se voltou contra a opinião dominante, tida como respeitável e séria no mais alto grau. O que Sócrates fez não foi apenas um apelo à “razão”, pois seus contemporâneos e adversários já a usavam em demasia: o que os diferencia é que, enquanto seus adversários repetiam ideias correntes, apegando-se à segurança dos papeis sociais que lhes infundiam a ilusão de estar certos por pensar de acordo com a maioria, ou com a classe dominante, Sócrates fala apenas como indivíduo humano, sem respaldo em qualquer autoridade externa.

Referências:

REALE, ANTISERI. História da Filosofia Antiga. Editora Paulus.

DURANT, Will. História da Civilização Grega, Nossa herança clássica – Tomo II.

CARVALHO, Olavo. A Filosofia e Seu Inverso. Editora Vide Editorial.

GRIMALD. Sócrates, o Feiticeiro.

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