QUESTÃO DO TEMPO – Santo Agostinho:

By Acervo Filosófico
Por Juliana Vannucchi
(…) por onde caminha o tempo, se não pelo presente? (…)

Este texto tem como finalidade apresentar resumidamente alguns dos pontos de maior relevância contidos no livro XI, intitulado Questão do Tempo, da obra “As Confissões” de Santo Agostinho. É fundamental esclarecer que, historicamente o pensador acima mencionado fez parte da Filosofia Medieval, e em tal período, os filósofos empenharam-se em conciliar fé e razão e possuíam Deus como o principal objeto de reflexão. Dessa forma, o tópico que aqui este sendo abordado possui relações estritas com estes mencionados aspectos, e certamente será melhor compreendido em tal contexto. 

Questão do Tempo: 

o que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei (Santo Agostinho)

Logo nas primeiras linhas em que inicia sua reflexão sobre o tempo, o filósofo admite haver muitas questões obscuras em relação ao assunto, e esclarece que é precisamente por isso que se propõe a analisá-lo. O ponto de partida para tal análise são as especulações e dúvidas que surgem a respeito “do que fazia Deus antes da criação”. Muitos indivíduos (aqueles que estão cheios de velhice espiritual) dizem que antes da criação Ele não fazia nada, embora em certo momento tenha criado algo, e não o tenha feito antes porque não possuía poder para tal. Contudo, Agostinho contradiz essa ideia ao afirmar que na essência de Deus, desde sempre, já residia a vontade da criação, e essa vontade sempre fez parte Dele, pertencendo á sua própria substância e sendo precisamente por isso que, em dado momento, Deus criou o homem.  Logo em seguida, Agostinho afirma que, considerando que Deus é o criador de tudo, entende-se que também seja necessariamente o criador de todos os tempos. Assim sendo qual seria o tempo em que Ele vive? Para o filósofo, Deus vive numa “eternidade”, na qual “nada passa” e “tudo é um eterno presente”, em um “eterno hoje” e nas palavras do filósofo: “os vossos anos são como um só dia (…) O vosso “hoje” é a eternidade”. (AGOSTINHO, 1978, p. 243). 

O texto segue com considerações acerca da divisão do tempo (passado-presente-futuro) e nesta parte, Agostinho afirma que somente o presente existe, pois o futuro “ainda não é” e o passado “já foi”. Dessa forma, não é possível, por exemplo, conceber que passado ou futuro sejam medidos como “longos”, pois tais tempos não existem e assim, esse tipo de medida não lhes é cabível.  Conforme Agostinho: “(…) percebemos os intervalos dos tempos, comparamo-nos entre si e dizermos que uns são mais longos e outros são mais breves”. (AGOSTINHO, 1978, p.245). 

Contudo, apesar de não ser possível conceber “passado” e “futuro” como tempos “longos” e mesmo só existindo o presente, ainda assim, nota-se que o ser humano estabelece divisões sobre o tempo, separando-o em certos intervalos e considerando-os como uma sucessão de instantes, ainda que o tempo não seja uma sucessão, mas sim algo contínuo. Essa medida do tempo seria feita com base “naquilo que carece de dimensão” (que é o presente), passando pelo que não existe (passado) e indo em direção a algo que também não existe (futuro). O problema levantado neste ponto é “como é possível medirmos algo que não existe?”, pois, afinal, se o tempo é mensurável, não possui, portanto, nenhuma extensão que possa ser medida. Além disso, o filósofo observa que a maneira pela qual o homem mede o tempo é pautada apenas numa enumeração do movimento e percurso dos astros, sendo que com base neles é que se estabelecem as estações, as horas e os anos e, assim, direciona-se e formula-se a medida, passagem e compreensão sobre o tempo.

Agostinho, porém, propõe que existam fatos passados e futuros apenas como algo presente. Isto significa que estes dois primeiros tempos mencionados consistem apenas em imagens formuladas na mente do tempo presente (que conforme já citado, é o único real). Assim, o passado seria a evocação de uma imagem, enquanto o futuro, por sua vez, consistiria em causas e prognósticos da mente presente, de forma que aquilo que se diz a respeito do futuro seria apenas um anúncio presente de um ato não realizado. Conforme as próprias palavras de Agostinho: “Nem aquela aurora que eu vejo no céu e que precede o aparecimento do sol, nem aquela imagem formada no meu espírito são o mesmo que o nascimento do sol, ainda que, para predizer o futuro, se devam enxergar q ajeitar de sua imagem como presentes”. Não é possível ver o futuro, pois ele simplesmente não existe. 

Considerando as observações feitas, o filósofo argumenta que o que existe unicamente é o “presente das coisas passadas”, o “presente do presente” e o “presente do futuro”, isto é, “lembrança presente das coisas passadas”, “visão presente das coisas futuras” e “esperança presente das coisas futuras”. Ressalta-se: o futuro não possui existência em si e o passado não subsiste.  Porém, ainda que apenas o presente possa existir, diante do espírito, o tempo surge como expectação, atenção e memória, isto é, na alma encontram-se expectativas do futuro e memórias do passado, e é com base nestes tais estados de espírito que o homem baseia as já referidas medidas e divisões do tempo. Na sequência, Agostinho retoma um problema anteriormente abordado no texto, que se refere à impossibilidade da existência de um passado ou futuro longos.

É possível compreender que na abordagem de Agostinho, o tempo existe somente para a alma, ele consiste, assim, apenas em “lembranças” “expectações longas”, mas não em “passado” ou “futuro” que sejam longos em si mesmos, poste estado duas noções do tempo apenas passam pelo que é presente. 

 

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

Agostinho, Santo. As Confissões. In: Sto. Agostinho Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina.

 

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