SOBRE A LOUCURA:

By Acervo Filosófico

Por Juliana Vannucchi

    Em sua obra magna, denominada O Mundo Como Vontade e Representação, Arthur Schopenhauer dedica um capítulo para analisar a loucura. Abaixo, segue uma exposição textual dos principais tópicos deste tema, feita com base no referido livro.

       “A Extração da Pedra da Loucura”, tela de Bosch (1450-1516).

   Há dois tipos de loucura que são analisadas neste capítulo, sendo que cada uma delas influência a outra. Chamam-se loucura “psíquica” a “somática”. Este último termo diz respeito às causas internas que acometem a loucura, seriam, portanto, as más-formações ou desorganizações parciais do cérebro ou dos invólucros, também no influxo exercido por outras partes doentes sobre o cérebro” (2015, p. 480). Este tipo poderá causar falsas sensações e alucinações e quando um indivíduo possui predisposição interna para a loucura, qualquer contrariedade poderá desencadeá-la.  Considerando a inferência da psíquica sobre a somática, há uma comparação feita com o ato suicida, o qual Schopenhauer considera que raramente seja cometido apenas por influências externas ao indivíduo, possuindo na maior parte das vezes como causa, uma moléstia corporal. 

     A psíquica, por sua vez, é produzida por condições externas. A primeira linha deste capítulo é fundamental para compreendê-la: “A saúde propriamente dita do espírito consiste na perfeita recordação”. (2015, p. 477). Esta definição caracteriza o intelecto saudável de uma pessoa sã. A loucura, por outro lado, consiste naquilo que é contrário a esta preposição acima descrita, ou seja,  consiste na carência de uma organização memorável coerente. Nas palavras do filósofo, é precisamente definida como: “rompimento do fio da memória” (2015, p. 477). Portanto, entende-se que lembranças confusas e ilógicas que lançam dúvidas em uma determinada consciência, ou então, narrativas de eventos irreais contatas por um indivíduo que acredita nelas, são quadros caracterizados pela loucura. 

    Na sequência dos esclarecimentos feitos acima, há uma passagem curiosa no texto, na qual o autor menciona que entre atores, a loucura costumam ser mais frequente do que em outras pessoas. Isso ocorre porque os atores  abusam de suas saudáveis capacidades intelectuais conforme decoram papéis diferentes e se envolvem com os mesmos e este tipo de ato pode induzir à loucura. 

   Além deste exemplo, Schopenhauer afirma que quando se pensa em algo desagradável, tende-se, inconscientemente a se desfazer de tal pensamento para se afugentar daquilo que pode causar sofrimento. Isso significa que o intelecto se asfalta de de seu estado natural para agradar a vontade fazendo com que o indivíduo acredite em algo inexistente (enquanto ela oculta o existente). A vontade, dessa forma, impede que aquilo que lhe é contrário se apresente. Neste caso, Schopenhauer esclarece que a loucura é “Lete”, do grego “léte”, que significa “esquecimento” ou “ocultação” e que se opõe à “alétheia”, que significa “desvelamento”. Assim, o ato de se retirar algo da mente e substituí-lo por alguma outra coisa, é um ato de loucura. Um exemplo disso oferecido pelo autor é uma peça de Carlo Gozzi chamada Monstro turchino, na qual um personagem bebe uma poção mágica cujo efeito é o esquecimento, e este fato faz dele um louco. Ressalta-se aqui: a essência da loucura é a falta de recordação clara, coerente e racional.  Este tipo de loucura de origem psíquica pode ser curada no início de sua manifestação, mas com o passar do tempo, pode desencadear ao cérebro prejuízos irreversíveis. 

     No contexto da filosofia geral de Schopenhauer, a loucura é uma forma de liberação da vontade que irá afetar a razão, mas não afetará a intuição. Há um fato que explica essa ocorrência do que ocorre com a vontade em relação à loucura: “(…) aqui a vontade subtrai-se por inteiro periodicamente ao domínio e a condução do intelecto e, portanto, dos motivos, com o que estão a vontade entra em cena como força natural cega, impetuosa e destrutiva e, por conseguinte, exterioriza-se como mania de aniquilar tudo o que encontra pela frente”. (2015, p.481). Essa ausência da razão gera a perda do controle e consequentemente, afeta o indivíduo tornando-o incapaz de ponderação em seus atos e, portanto, significa uma subtração momentânea da vontade. Ao contrário, num estado em que não há interferência da loucura, um indivíduo é consciente do que faz e lembra-se de seus atos. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: 
 SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Representação, tomo II2015. Editora: UNESP.  

 

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