SOBRE A REPRESENTAÇÃO:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

Schopenhauer admite o mundo em que vivemos como uma representação, portanto, não sendo a coisa-em-si, mas sim um fenômeno. Conforme Safranski comenta (2012, p. 384): “O mundo é apenas representação que faço dele. A atividade representativa abrange ambos os polos, tanto o sujeito como o objetivo”. Nada no mundo é mais certo do que este fato, sendo que esta representação se oferece sempre ao sujeito cognoscível de maneira particular, não havendo nada no mundo que escape de tal interpretação pessoal que se faz dos objetos: “Tudo que está compreendido e pode ser compreendido no mundo, deve inevitavelmente ter como condição o sujeito e existe apenas para o sujeito. O mundo é representação. (SHOPENHAUER, 2004, p. 2018, apud REALE; ANTISERI, 1990,). Por isso, o filósofo, logo nas linhas inicias de sua principal obra, registra: “não existe um sol, mas um olho que vê o sol. Não existe uma terra, mas mãos que sentem a terra”.

Sendo o mundo uma representação, é a partir de dois componentes que ele é estruturado. Tais elementos são sujeito sem objeto. Não é possível que um exista sem o outro, e estas duas metades são inseparáveis – eis aqui, que Schopenhauer supera a dicotomia de seu tempo, na qual discutia-se se o que fundamentava a realidade era o Idealismo e o Realismo. Os objetos são representação dos sujeito, e essa representação é manifestação direta da Vontade: “Tampouco eu, sem o objeto, sem a representação, sou sujeito que conhece, mas tão-somente simples vontade cega; tampouco sem mim, como sujeito do conhecimento, a coisa conhecida é objeto, mas tão somente simplesmente vontade, ímpeto cego”. (SCHOPENHAUER,1974, p. 20). Essa representação é resultado da relação entre o sujeito que irá conhecer o mundo e os fenômenos (objetos de conhecimento) de maneira empírica, e é ordenada por “espaço”, “tempo” e “causalidade”, que são princípios a priori, isto é que se encontram previamente na consciência, e aos quais o sujeito está, portanto, sempre submetido em sua interpretação e interação para com o mundo. O objeto de conhecimento só existe na representação e não fora dela, e esse fenômeno ilusório que esconde a Vontade é o que o filósofo denomina de “Véu de Maya”, termo inspirado no Hinduísmo, e que expressa a constante ilusão da nossa realidade que é encoberta pela representação.

Vimos acima que a percepção capta apenas a representação e que o mundo é objetificação da Vontade. A representação consiste numa ideia da realidade externa ao homem, naquilo que percebe-se acerca dos objetos, e não no que realmente são (Vontade). A representação, portanto, oculta a essência da natureza que consiste na Vontade. Isto significa que a Vontade se mostra através da representação de mundo: “Para Schopenhauer, o fenômeno, aquilo e que a representação é ilusão e aparência, é aquilo que na filosofia hindu, chama-se o “véu de Maya”, que cobre a face das coisas. Era como um desafio à sorte e à fatalidade”. (REALE; ANTISERI, 1990, 212).

Além das ilusões mundanas que se mostram ao intelecto humano, encontra-se um princípio essencial de toda a natureza, e que irá dominar o homem através de infinitos desejos e necessidades. Para Schopenhauer, esse fato torna é a existência humana negativa, pois o impulso em direção a algo faz da vida uma sequência de ações que não nos pertencem, e que nos mantém sempre em busca de algo inatingível, visto que a vontade renasce a todo instante. Neste aspecto, surgirá o sofrimento como um traço inerente a qualquer indivíduo.

REFERÊNCIAS:

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario.  In: História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 2004. (Coleção Filosofia, volume 5). Tradução de Ivo Storniolo.

RUDIGER, Safranski. Schopenhauer e os Anos Mais Selvagens da Filosofia. São Paulo: Geração Editorial,

SCHOPENHAUER, Arthur. As Dores do Mundo. São Paulo: EDIPRO, 2014. 136 p. Tradução de: José Souza de Oliveira.

SHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Como Representação. 2. ed. São Paulo (SP): Unesp, 2015. 646 p. (Tomo I). Tradução, apresentação notas e índices de Jair Barboza.

SHOPENHAUER, Arthur.  O Mundo Como Vontade e Como Representação. São Paulo (SP): Unesp, 2015. 806 p. (Tomo II). Tradução, apresentação notas e índices de Jair Barboza.

SHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Representação (III parte): in: Schopenhauer. São Paulo: NOVA CULTURAL, 2005. (Os Pensadores). Tradução de: Wolfgang Leo Maar, Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola.


 

Related articles

Leave a Reply