SOBRE A VONTADE:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

O pensamento de Arthur Schopenhauer parte de dois princípios específicos fundamentais: vontade e representação. Assim, para melhor compreender qualquer aspecto de sua filosofia, é relevante que essa base seja entendida, uma vez que, de alguma forma, tais elementos estão sempre presentes nas obras do filósofo. Schopenhauer parte do princípio de que o mundo em que vivemos é um mundo percebido, ou seja, ele sempre é apreendido especificamente, de acordo com a interpretação de cada indivíduo, sendo que tudo que o conhecimento (através da intuição sensível e suas formas apriorísticas) capta, é assim, objeto para um sujeito. E é justamente nesse âmbito que surgem a “vontade” e a “representação”.

O mundo que existe é o nosso mundo (em sentido subjetivo), e é neste ponto em particular que surge a representação, pois o aquilo que percebemos, consiste numa interpretação particular que formulamos, sendo que captamos, assim, um mundo fenomênico e aparente, na medida em que não consiste em nada além da representação alcançada. A filosofia surge como um caminho que leva o homem a ter consciência desse fato: “Quando o homem adquire essa consciência, o espírito filosófico entrou nele”. (REALE. ANTISERI, 1990, p. 210). Por isso, Schopenhauer diz que não existe um sol, mas um olho que vê o sol, e não existe uma terra, mas uma mão que sente a terra.

A filosofia irá contribuir para que o homem possa conhecer a verdadeira essência da realidade, que se oculta pelos fenômenos que apreendemos. De acordo com Schopenhauer: “O mundo é minha representação”: esta é uma verdade que vale em relação a cada ser vivo e que conhece, embora apenas o homem seja capaz de acolhê-la na consciência reflexa e abstrata: e se verdadeiramente faz isto, deste modo, penetrou nele a meditação filosófica”. (REALE; ANTISERI, 1990, 218).

Contudo, por trás do fenômeno que podemos conhecer, há uma essência que pode ser alcançada e que compõe toda a natureza, e a ela, Schopenhauer denomina Vontade. Essa Vontade consiste num impulso universal, e pode ser compreendida como uma raiz metafísica irracional, uma força matriz e primária que formula a existência dos seres vivos na natureza, fazendo-se presente em todos os organismos, tanto orgânicos quanto inorgânicos, e estando sempre a impulsionar quaisquer esses organismos e sendo responsável pela funcionalidade de seus organismos. Conforme Safranski esclarece: A essência de vida é a vontade de viver, uma sentença conhecida como tautológica pelo próprio filósofo, porque a vontade não se distingue da própria vida”. (SAFRANSKI, 2012, p. 383). A Vontade encontra-se, portanto, em minérios, plantas e animais. De acordo com as palavras de Schopenhauer: “O que aparece nas nuvens, nos córregos e nos cristais, é o mais débil eco daquela vontade, que se mostra de modo mais perfeito no vegetal, mais perfeito ainda no animal, do modo mais perfeito no homem”. (SCHOPENHAUER,1974, p. 21).

É essa Vontade que se encontra, portanto, sempre presente em tudo o que está diante de nós, e é esse fator natural que está sempre nos movendo. Ressalte-se que a Vontade é compreendida por Schopenhauer como sendo a coisa-em-si, isto é, aquilo que compõe essencialmente em tudo o que há na natureza: encontra-se nos minérios, nos vegetais, nos animais e, enfim, em qualquer substância natural. Possui sua manifestação mais expressiva no homem, no qual desencadeia uma série de necessidades: “E o homem sendo a objetificação mais perfeita da vontade da vontade de viver, é também o mais necessitado dos seres; nada mais é que vontade e necessidade, de modo que se poderia defini-lo até como concretude de necessidades”. (REALE; ANTISERI, 1990, 214).

Dessa forma, estando intrinsecamente presente em cada indivíduo, até mesmo o próprio conhecimento humano de mundo está sempre intimamente ligado à Vontade, tendo dela dependência. De acordo com menção de Schopenhauer: “Regra geral, o conhecimento permanece sempre sujeito ao serviço da vontade, dado que se formou para este serviço, e mesmo emergiu da vontade assim como a cabeça emerge do tronco”. (SCHOPENHAUER, 2005, p.17). Dentro desse contexto, a leitura subjetiva que fazemos do mundo (ou seja, daquilo que Schopenhauer entende como a representação) que se apresenta a nós também está relacionada e depende da essência natural que nos compõe. Portanto, o próprio fenômeno, ainda que como algo individual, é também um servidor da Vontade. Abaixo, pelas palavras de Schopenhauer, é possível compreender melhor a ligação entre Vontade e representação. Neste aspecto, a razão surge como instrumento natural que relaciona a leitura que fazemos do mundo, com o nosso próprio corpo, pois intelecto é o responsável por ordenar os dados absorvidos pelo corpo. “Uma vez como indivíduos, não temos conhecimento algum fora do subordinado ao princípio da razão” (SCHOPENHAUER, 2005, p. 33).

Também considerando que a essência que tange a natureza pode ser atingida, Schopenhauer postula também o meio que nos leva tal conhecimento. Este meio é o corpo. O filósofo explica: “Pois o indivíduo encontra seu corpo como um objeto entre objetos, como todos eles mantendo variadas relações e proporções conforme o princípio de razão, cuja observação, portanto, por vias mais ou menos extensas, sempre reconduz ao seu corpo”. (SCHOPENHAUER,1974, p. 17). Consiste num caminho para compreensão da Vontade, na medida em que esta é constatada e sentida através dos movimentos corporais, sendo este uma via de sensações: O corpo é, portanto, vontade tornada visível. Sem dúvida podemos olhar nosso corpo e falar dele como de qualquer outro objeto – e, nesse caso, ele é fenômeno. Mas é por meio de nosso corpo que sentimos, que vivemos, experimentando prazer e dor e percebemos o anseio de viver e o impulso da conservação. (REALE; ANTISERI, 1990, 213).

A Vontade, através do corpo, encontra-se sempre presente em nossas vidas, e conduz nosso cotidiano atuando como um impulso inconsciente que é responsável por direcionar o homem em suas ações. De acordo com Safranski: “A Vontade não tem qualquer objetivo, é um impulso cego que se move de forma circular” (SAFRANSKI, 2012, p. 383). Assim, sempre que um sujeito realiza algo, está sendo influenciado e movido por sua raiz essencial, que é a vontade. 

Para Schopenhauer, essa essência da natureza torna-se nociva, pois nos condena à medida que nos torna dependentes dela. Sendo um impulso cego e incessante, que nos guia e influência ainda que não tomemos consciência de tal efeito, está sempre nos aprisionando por tal ligação e, assim, a vontade é interpretada como sendo um aspecto negativo: Enquanto estamos sob o império do desejo, sob o domínio da vontade, enquanto nos abandonamos às esperanças que nos acometem, aos temores que nos perseguem, ele não é para nós nem repouso, nem felicidade amável”. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 93).

A Vontade desencadeia no homem uma sucessão de desejos, que surgem a todo instante, e que jamais podem ser completamente saciados, embora estejam sempre nos motivando e influenciando nossas ações. Essa vontade nos controla, mas nós não somos capazes de controlá-la. É possível compreender esse fato pelas palavras do próprio filósofo: “Todo desejo nasce de uma necessidade, de uma privação, de um sofrimento. Satisfazendo-o, acalma-se; mas embora se satisfaça um, quantos permanecem insaciados”. (SCHOPENHAUER, 2014, p. 93). O homem, dessa maneira, é visto como um ser que se encontram sempre acorrentado dolorosamente à sua essência, pois é sempre, a contragosto e naturalmente dominado por sua vontade impulsivo. Enquanto os desejos dela oriundos nunca são satisfeitos plenamente, sendo que quando são preenchidos, são substituídos por outros, o sujeito, por sua vez, encontra-se, como consequência desse fato, sempre insatisfeito, e suas necessidades nunca terminando, apenas se multiplicam a todo instante: “A essência da natureza inconsciente é aspiração constante, sem objetivo e sem repouso. E, ao mesmo tempo, a essência do animal e do homem é querer e aspirar: sede inextinguível.” (REALE; ANTISERI, 1990, 214).

REFERÊNCIAS:

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario.  In: História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 2004. (Coleção Filosofia, volume 5). Tradução de Ivo Storniolo.

RUDIGER, Safranski. Schopenhauer e os Anos Mais Selvagens da Filosofia. São Paulo: Geração Editorial, 2011.

SCHOPENHAUER, Arthur. As Dores do Mundo. São Paulo: EDIPRO, 2014. 136 p. Tradução de: José Souza de Oliveira.

SHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Como Representação. 2. ed. São Paulo (SP): Unesp, 2015. 646 p. (Tomo I). Tradução, apresentação notas e índices de Jair Barboza.

SHOPENHAUER, Arthur.  O Mundo Como Vontade e Como Representação. São Paulo (SP): Unesp, 2015. 806 p. (Tomo II). Tradução, apresentação notas e índices de Jair Barboza.

SHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Representação (III parte): in: Schopenhauer. São Paulo: NOVA CULTURAL, 2005. (Os Pensadores). Tradução de: Wolfgang Leo Maar, Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola.


 

Related articles

Leave a Reply