UM CAFÉ COM O PROFESSOR BENÊ:

By Acervo Filosófico

Por: Juliana Vannucchi

No final de dezembro de 2017, mais precisamente no dia 20, tive a honrosa oportunidade de bater um papo com um dos professores mais queridos do curso de Filosofia da Universidade de Sorocaba: Benedito Aparecido Cirino, mais conhecido como “Benê”. Abaixo, compartilho com os leitores do Acervo Filosófico alguns dos fatos mais marcantes de sua vida pessoal, de suas influências filosóficas e carreira acadêmica.

Benedito Cirino nasceu em Campinas-SP, numa família de classe econômica e culturalmente baixa. Apesar da dificuldade financeira da família, frequentou a escola por um período e foi alfabetizado por volta dos sete anos. Porém, dois anos depois, sua vida sofre um forte abalo pela morte prematura da mãe. Após o acontecido, o cenário financeiro piorou e para ajudar a família com os sustentos, Benedito abandonou a escola aos onze anos e, aos doze, começou a trabalhar como operário.

O tempo passou, e o jovem Benedito sempre fazia o possível para colaborar com as rendas e despesas de sua casa. Por volta dos dezoito anos, começou a trabalhar em um jornal de Campinas. Inicialmente, sua tarefa era carregar jornais e, após exercer esse cargo durante um período, foi promovido e começou a trabalhar na portaria do local, além de ter sido registrado. Algum tempo depois, as coisas avançaram: tornou-se aprendiz gráfico e, com isso, a situação econômica da família melhorou. Nessa época, durante a década de oitenta, conheceu um jovem que havia cursado Filosofia na PUC (Campinas) e era militante de esquerda no Sindicato dos Gráficos de Jornal. Tornaram-se amigos e partilharam de uma mesma ideia: sair de Campinas e migrar rumo ao Mato Grosso. Benê, então, demitiu-se do jornal, e os dois iniciaram a viagem. Porém, Benê não tinha nenhum plano em mente, apenas almejava viajar, sem objetivos, ao contrário de seu amigo Genésio que esperava poder se estabelecer em Nova Bandeirantes MT.

Benedito Cirino, professor de Filosofia da Universidade de Sorocaba.

No Mato Grosso, compraram um terreno a cerca de 200 km da cidade Alta Floresta e lá conseguiram viver com uma estrutura básica razoável. Durante essa fase, conheceram um senhor, companheiro de viagem e os três passaram a morar juntos no local, ficando por lá durante três meses. Mas Benedito não queria permanecer apenas nessa região e então decidiu partir. Foi para Cuiabá e lá se estabeleceu durante algum tempo. Montou uma barraca perto da rodoviária da cidade, pois assim poderia tomar banho e conseguir alimento, geralmente retirado dos lixos ou recebido de alguém. Conseguiu emprego para vender lanche num quiosque noturno localizado na região central da cidade, juntou dinheiro e decidiu retornar para Campinas. Porém, não permaneceu muito tempo em sua cidade natal, e logo partiu para uma série de viagens, passando por diferentes estados. Inicialmente, foi para o Rio de Janeiro, em seguida voltou a S. Paulo e parou em Santos e, posteriormente, pegou um trem para retornar a Cuiabá, a fim de voltar a trabalhar no mesmo local. Mas o emprego de antes lhe foi recusado e, então, decidiu continuar na estrada e, embora tivesse pouco dinheiro em mãos, rumou para Manaus junto com dois colegas que havia conhecido nessa breve passagem por Cuiabá. Após uma longa viagem, chegaram ao destino e lá ficaram em situação precária, vagando pelas ruas e sobrevivendo de restos de alimentos encontrados em latas de lixo. Mas isso não durou muito tempo, pois novamente deslocou-se e, dessa vez, foi para Boa Vista (Roraima), viajando em cima de um caminhão. Ficou pouco tempo lá e decidiu voltar para Manaus. Pegou um caminhão novamente, que transportava várias pessoas até o quilômetro 500, desceu nesse ponto, ficou aguardando por alguma carona. Conseguiu uma cujo motorista o informou que conhecia um sujeito que pretendia transportar um trailer numa balsa, até Belém de onde rumaria a Brasília e Benedito pensou que poderia aproveitar a travessia. Assim, como ajudante, conseguiu espaço na balsa e, durante um momento do percurso, encontrou dentro do trailer uma fita de Chico Buarque e um livro intitulado “Pai Patrão”, que contava a história de um indivíduo que se alfabetizou com 25 anos de idade. Após se deparar com esses objetos, ele decidiu alterar os rumos de sua vida: resolveu voltar para casa com projetando voltar a estudar. Durante o trajeto de balsa pelo rio Amazonas, Benê conheceu o senhor Salvador, caminhoneiro que havia ido da cidade de Dois Córregos, S. Paulo, transportando uma carga de caixão funerário. Em certo momento, o sujeito chamou a atenção de Benedito, sugerindo que avaliasse bem sua precária situação e que o melhor a fazer seria voltar para a casa. E assim aconteceu.

Benê conseguiu vaga no mesmo jornal em que havia trabalhado anos antes. No ano seguinte, matriculou-se na quinta série de um curso de supletivo e percebeu que tinha gosto pelo estudo. Nesse mesmo ano, conheceu sua primeira companheira, que era graduada em Letras, nutria grande valor pelos estudos e que lhe deu grande apoio. Foi ela também que o apresentou a vários estudantes da PUC (muitos deles marxistas e militantes – que conheceu em festas). Como consequência desses encontros, Benedito tornou-se sindicalista no primeiro ano do ensino médio e atuou durante cerca de dois anos como diretor do sindicato, mas abandonou o cargo. Nessa mesma época, dedica-se intensamente a leituras das obras do filósofo Karl Marx, sendo que já havia lido também alguns pensadores antigos, tal como Platão (Apologia de Sócrates foi o primeiro livro de Filosofia). A primeira linha de pensamento que o atraiu foi justamente a marxista e durante essa fase de sua vida teve contato com obras de autores como Fernando Gabeira, bastante lido durante a década de 1980 e Paulo Freire, passando a ser militante e até mesmo a fazer campanhas para partidos de esquerda.

Nessa época começou a conhecer melhor a literatura brasileira. Seu primeiro estudo com certo grau de rigor foi com Macunaíma, de Mário de Andrade. Após três anos na rotina de trabalho no jornal e supletivo, ele e sua companheira adquiriram um imóvel, para onde se mudaram da casa dos pais dela. Quando Benê estava cursando o Ensino Médio, romperam o relacionamento, ela mudou-se para a Europa e ele ficou com o imóvel. Na mesma época, iniciou sua graduação em Filosofia. No segundo ano do curso, familiarizou-se com a corrente existencialista, que se tornou seu grande interesse de leitura e estudos. No mesmo ano, ganhou uma bolsa de iniciação científica para pesquisar Gaston Bachelard.

Em 1993, após quatro anos de curso, finalizou a graduação, pediu demissão do jornal, renunciou ao cargo no sindicato e começou a lecionar na educação pública do Estado de S. Paulo, dando aulas de Geografia. Após aproximadamente dois anos dando aula na cidade de Campinas, abandonou o emprego e foi para Serra Negra, local em que possuía uma pequena área (com um rancho feito junto com os irmãos). Não ficou lá durante muito tempo e logo retornou para a Campinas para, novamente, lecionar no Estado, até que, em certo momento desanimou-se, diante à precariedade da educação pública, com a função profissional. Foi quando começou a produzir peças de artesanato, fazendo esculturas e vendendo-as em feiras.

Logo interrompeu suas produções artesanais e, pela segunda vez, tentou ingressar no Mestrado. Agora com sucesso, conseguiu uma bolsa de estudo no ano 2000, realizando o curso em 2 anos. O título de sua dissertação foi: “A Intuição como base do Pensamento Moral de Henry Bergson”. Após o término do Mestrado, fez um semestre de Doutorado na USP, mas devido às dificuldades financeiras não conseguia nessa trajetória de estudos. Geralmente pedia carona na estrada para ir até a universidade em São Paulo, e não conseguiu sustentar essa rotina. Algum tempo depois, apresentou uma palestra num encontro de Filosofia Clínica e, em meio ao público presente, encontrava-se o então professor Araldo Gardenal, que era coordenador do curso de Filosofia da Uniso e se interessou pela apresentação do Benê que, pouco tempo depois, foi contrato pela Universidade de Sorocaba, local em leciona até os dias de hoje, e onde pôde fazer sua pesquisa de Doutorado, concluído entre os anos de 2009 e 2013.

Essa é parte da incrível trajetória de vida de um dos melhores professores que eu e muitos outros estudantes já tivemos. Espero que a história que estamos compartilhando com os leitores possa inspirá-los e motivá-los das maneiras mais variadas e afirmativas                                                          

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